Antes de se cruzarem nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018, Inglaterra e Colômbia se enfrentaram em cinco ocasiões. Cinco partidas com suas histórias para contar. Quatro delas tiveram caráter amistoso, a primeira em 1970, quando os ingleses passaram por Bogotá para se preparar ao Mundial do México e o capitão Bobby Moore chegou a ser acusado de roubar esmeraldas em uma joalheria – em caso esclarecido, que inocentou a lenda, mas marcou seu nome. Em 1988, a primeira visita dos colombianos a Wembley marcou a estreia de Andrés Escobar pela seleção, e o Cavalheiro do Futebol marcou o gol no empate por 1 a 1. Sete anos depois, um cruzamento despretensioso de Jamie Redknapp resultou no eterno escorpião de René Higuita, o único lance realmente digno de nota naquele 0 a 0. Por fim, no jogo mais recente, Michael Owen fez um hat-trick nos 3 a 2 de Nova York, em 2005. Capítulos ainda assim secundários em um enredo que, há 20 anos, envolveu outro jogo de Copa.

Colômbia e Inglaterra viviam momentos bastante distintos quando se encararam pela terceira rodada do Mundial da França, em 1998. Havia sua dose de expectativas sobre os Three Lions, que vinham de uma boa campanha na Eurocopa, e tinham sua safra de jovens. Enquanto Alan Shearer capitaneava a equipe, ao lado de medalhões como Tony Adams e Paul Ince, o time de Glenn Hoddle possuía sua dose de talento em ascensão com David Beckham, Paul Scholes e Michael Owen. Do outro lado, a Colômbia era consciente de que o jogo poderia representar uma passagem de bastão. Carlos Valderrama e Freddy Rincón surgiam como as referências de outros tempos dos Cafeteros, remanescentes do time que encantou a partir do Mundial de 1990. Existiam, é claro, bons sucessores em outras posições, com Faryd Mondragón, Jorge Bermúdez, Víctor Arisztizábal. Mas se evidenciava uma transição delicada.

A cena icônica daquela noite em Lens, no Estádio Félix-Bollaert, aconteceu já depois do apito final. E neste contexto, não poderia ser mais marcante. David Beckham, o promissor meio-campista de 23 anos, incorporava as expectativas da Inglaterra. Carlos Valderrama era a doce lembrança do melhor que os colombianos haviam desfrutado em um campo de futebol. Eis então que o novo se aproxima do antigo e, em sinal de reverência, pede a sua camisa 10. Veste-a, como um sinal de orgulho. “No presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”, diria Belchior, em uma de suas poesias cantadas que parece se casar perfeitamente ao momento em 1998. “O que há algum tempo era jovem, novo, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”. Por mais que parecessem parte de dois universos totalmente diferentes (uma noção que se ampliou com o passar dos anos), de culturas de futebol completamente distintas, os craques se comunicavam da mesma maneira através da bola: com o talento que sempre aproxima.

Antes que a exaltação ao Pibe se desse em frente às câmeras, todavia, aconteceu um jogo. E um jogo importante às duas seleções. Um jogo no qual Valderrama acabou como um dos grandes personagens. Aos 36 anos, o meio-campista vivia sua terceira Copa do Mundo, a última, após a sensação de 1990 e o desgosto de 1994. Diferentemente do que a cabeleira loira e o jeitão expansivo poderiam indicar, o veterano estava recluso na preparação ao Mundial. Dias antes da estreia, um jornalista não sabia que estava ao vivo em uma televisão do país e fez piadas sobre a seleção, inclusive aludindo que o craque usava viagra. A deixa para que ele se recusasse a falar com a imprensa. Sob desconfiança, a Colômbia iniciou Copa perdendo à Romênia por 1 a 0. Recuperou-se na segunda rodada, ao bater a Tunísia. E o encontro com a Inglaterra representava já um mata-mata a ambos os times. Tinham três pontos e quem vencesse avançaria, com a vantagem do empate aos ingleses.

Valderrama já não rendia mais tudo que poderia e, na MLS, muitos questionavam a sua condição de titular na seleção. Não era isso, porém, que o negava a confiança do técnico Hernán Darío Gómez. Permanecia, mais do que no 11 inicial, também com a braçadeira de capitão e a camisa 10. Tratou o compromisso em Lens como seu possível réquiem na seleção, o canto do cisne. Valderrama não venceria aquele jogo, mas ofereceria pequenas doses do seu melhor: a visão de jogo, o trato carinhoso com a bola, a precisão nos passes, a maestria de conduzir os sonhos de milhares de colombianos. Pouco, diante da superioridade dos oponentes.

A Inglaterra resolveu o jogo em meia hora. O primeiro gol saiu aos 20, em uma sobra de bola dentro da área. Darren Anderton teve liberdade para dominar e soltou um míssil indefensável, no ângulo de Faryd Mondragón. Nove minutos depois, seria a vez de Beckham brilhar. Uma falta de frente para o gol era chance perfeita para o jovem meio-campista se mostrar. Batida perfeita, no cantinho do goleiro colombiano, que chegou atrasado. Foi o primeiro gol do camisa 7 pela seleção. A Colômbia não reagiria. Pelo contrário, Mondragón ainda evitou o terceiro tento dos Three Lions com uma série de milagres. De qualquer forma, nada que maculasse a noite derradeira de Valderrama.

“Quando jogamos com a Colômbia, eles pareciam estar no final de um ciclo. Valderrama tinha 36 anos e havia passado de seu ápice, mas possuía habilidade para fazer algo especial. Então você precisava mostrar uma enorme quantidade de respeito para enfrentá-lo. O engraçado é que ele usava muitas pulseiras. Toda vez que ele recebia a bola, você poderia ouvi-lo, como um trenó, com suas pulseiras balançando. Seu cabelo tinha seu próprio campo gravitacional, você podia sentir Valderrama se aproximando em campo”, declarou o lateral Graeme Le Saux, em entrevista recente ao jornal The Guardian.

Ao apito final, Beckham não se preocupou em comemorar a classificação. Ele saiu trotando, já determinado ao que pretendia fazer. Cumprimentou Valderrama e fez o gesto claro, pedindo a camisa do maestro. O Pibe não recusa o desejo do garoto e leva também a 7 vermelha da Inglaterra. Carrega-a nas mãos. Enquanto isso, o inglês, como uma criança que recebe o presente de um ídolo e se apronta a dormir com o novo “pijama” a ninar os sonhos, logo colocou a 10 amarela da Colômbia e saiu para saudar a sua torcida. “Quando você enfrenta grandes jogadores, que possuem uma história, quer a lembrança desta partida. Para mim, sempre foi um prazer enfrentar Valderrama. Eu me lembro dele com muito carinho, porque foi um tremendo personagem, um grande jogador e um bom homem”, afirmou Beckham, anos depois, ao ser perguntado sobre suas memórias do encontro.

Na saída do estádio, Rincón anunciou sua aposentadoria da seleção. Valderrama faria o mesmo, mas passou por trás do companheiro na zona mista, silencioso, se negando a falar. Naquele momento, todos sabiam que sua história com os cafeteros havia acabado. A adoração vista por Beckham não se reproduzia nos colombianos, bastante críticos às limitações física e à falta de influência do camisa 10 em campo. O tempo, no entanto, seria o único capaz a apagar estas mágoas. São bem mais vivas as lembranças de outros tantos dos 111 jogos que disputou e das alegrias que ofereceu em um momento difícil ao país. O Pibe ainda é a melhor imagem do talento inerente ao futebol colombiano.

Tanto é que, 15 anos depois, as imagens da camisa que Beckham levou virariam uma campanha na Colômbia. Em 2013, um grupo de torcedores dizia existir uma “maldição” que só seria quebrada quando o astro inglês devolvesse o manto. Desde que a maior 10 de todas foi pendurada em um cabide, os cafeteros nunca mais tinham ido a uma Copa do Mundo. Para eles, então, a magia da seleção estava aprisionada em um armário. Obviamente, tudo não passava de uma brincadeira. Semanas depois, o time de José Pekerman, se negando às crendices, encerrou a espera de 16 anos e se classificou à Copa de 2014 – mais do que isso, ainda superou os resultados dos tempos de Valderrama na visita ao Brasil. Nesta terça, a equipe pode dar outro passo além. Ver a cabeleira loira e o sorriso aberto do veterano nas tribunas russas é um motivo a mais para os torcedores confiarem no troco diante dos ingleses.