Ronald Koeman estava fadado a assumir o comando da seleção holandesa. A Oranje gastou diferentes cartuchos nos últimos anos, e não viu os resultados surgirem. Apostam em um técnico de renome, que também deve se beneficiar com a oportunidade, após o início de temporada desastrado no Everton. Mais do que isso, confiam em alguém que conhece perfeitamente o peso de se vestir a camisa laranja. O ex-defensor tem espaço na seleção de todos os tempos do país. Unindo qualidade técnica e presença física, foi um dos esteios da equipe nacional por mais de uma década, e uma das lideranças na conquista da Euro 1988. História retomada mais de duas décadas depois.

Revelado pelo Groningen, Koeman ganhou a primeira convocação quando ainda estava no clube, em 1982. Já a estreia aconteceu em abril de 1983, às vésperas de se transferir ao Ajax. O resultado não foi nada bom para a Oranje, tomando 3 a 0 da Suécia em Utrecht. Ainda assim, o defensor de 20 anos recém-completados pôde iniciar a sua trajetória, sob a chancela do técnico Kees Rijvers. Seguiria em frente nos anos seguintes.

Koeman participou das campanhas frustradas nas eliminatórias da Euro 1984 e da Copa do Mundo de 1986. Na primeira, os holandeses ficaram atrás da Espanha apenas pelo número de gols marcados, empatados nos pontos e no saldo de gols. Já na segunda, após serem superados pela Hungria em sua chave, não passaram pela Bélgica na repescagem, em partidas marcantes. Ainda assim, a Holanda forjava uma geração talentosa, na qual o defensor era um dos expoentes – ao lado de Frank Rijkaard, Ruud Gullit, Marco van Basten, entre outros. E os resultados viriam no ciclo seguinte, rumo à Euro 1988.

Desta vez, ninguém conseguiu frustrar a seleção holandesa nas eliminatórias. Por fim, o time uniria eficiência e bom futebol sob as ordens de Rinus Michels na fase final da competição. Vestindo a camisa 4, Koeman foi titular em todas as cinco partidas. Era o motor que impulsionava a equipe desde a defesa, ao lado de Rijkaard. Sua grande partida aconteceu justamente contra a maior rival, a Alemanha Ocidental, nas semifinais. O zagueiro converteu o pênalti que deu o empate aos holandeses e iniciou a jogada que possibilitou a virada. No que era visto como a vingança da final da Copa de 1974, Koeman até exagerou durante a comemoração: após a partida, fingiu limpar as nádegas com a camisa que recebera de Olaf Thon. Logo depois já pediu desculpas ao companheiro e aos alemães, arrependido do ato. Ao final, ergueu a taça, ante o triunfo decisivo contra a União Soviética.

Campeão europeu duas vezes em 1988, ao também faturar a Copa dos Campeões com o PSV de Guus Hiddink, Koeman buscou novos rumos na carreira a partir de 1989: seria treinado por Johan Cruyff no Barcelona. Uma oportunidade que revolucionou a sua carreira, por seu protagonismo no famoso ‘Dream Team’. Ao mesmo tempo, seguia em frente com a Holanda. Fez parte da frustrante campanha na Copa de 1990 (anotando um gol de pênalti novamente contra a Alemanha Ocidental, no duelo que marcou a eliminação nas oitavas de final) e também manteve a titularidade na Euro 1992. Aquele, aliás, era o momento de maior destaque de sua carreira, ao fazer o tento de falta que deu o primeiro título da Champions ao Barça. No torneio de seleções, porém, não teve a mesma felicidade. Converteu sua cobrança, mas sucumbiu nos pênaltis contra a Dinamarca durante as semifinais.

A empreitada final de Koeman aconteceu rumo à Copa de 1994. Presente em toda campanha nas Eliminatórias, com direito a um gol de falta decisivo no confronto direto contra a Inglaterra na penúltima rodada, o veterano de 31 anos seguia intocável no time. Era, não à toa, um dos homens de confiança de Dick Advocaat após a saída de Rinus Michels. Usando a braçadeira de capitão, esteve presente em todos os minutos da Oranje nos Estados Unidos. Inclusive aqueles que culminaram na eliminação diante do Brasil, nas quartas de final, com o golaço de Branco anulando a reação holandesa em Dallas. Depois disso, optou por colocar um ponto final em sua história na seleção. Sua carreira em clubes também não se alongaria muito depois disso, deixando o Barcelona em 1995 e se aposentando no Feyenoord em 1997 – com o gosto de ter defendido os três grandes do país.

Ao todo, Ronald Koeman disputou 78 partidas pela seleção holandesa. Entre os jogadores que posteriormente se tornaram técnicos do país, nenhum outro possui um cartel tão longo na Oranje. E ele ainda teve um breve momento como assistente, com o próprio Guus Hiddink, logo após a aposentadoria dos gramados. Entre as Eliminatórias e a Copa de 1998, auxiliou os treinamentos dos zagueiros, em função que compartilhava com Rijkaard. Os veteranos ajudaram a aproximar a comissão técnica dos jogadores, especialmente das cisões que ficaram após a conturbada participação na Euro 1996.

Por seus predicados como técnico, Koeman pode contornar alguns problemas apresentados pela seleção, especialmente na defesa. Talvez quebre dogmas anteriores. De qualquer maneira, é alguém com história suficiente para ocupar o cargo. Mais do que isso, com influência sobre os jogadores para indicar o peso da camisa. Seu passado em campo com a Oranje fala por si.