O time mais badalado do momento em Portugal não faz parte da lista dos grandes clubes do país. Nunca foi campeão nacional e o mais perto que chegou de um troféu importante foi nas vezes que disputou – e perdeu – as finais das taças domésticas. Tem sede em Vila do Conde, cidade de apenas 28 mil habitantes, e possui um estádio acanhado, com capacidade para pouco mais de 10 mil torcedores.

O time mais badalado do momento em Portugal é o Rio Ave. E nem tanto porque fechou a segunda rodada do Campeonato Português na liderança da competição, com 100% de aproveitamento, sete gols marcados e só um sofrido. Embora seja uma campanha respeitável, ainda é cedo para qualquer análise aprofundada.

O bom início no campeonato nacional é a cereja no bolo do que os vila-condenses fizeram nos últimos dias, com a classificação histórica para a fase de grupos da Liga Europa. Tão histórica quanto o casamento entre clube e torcida, daqueles capazes de deixar muita gente com inveja por aí.

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Tudo começou na semana passada, quando a delegação retornou da Suécia trazendo na bagagem a derrota por 2 a 1 para o Elfsborg, na partida de ida dos playoffs da Liga Europa. Cerca de 100 torcedores recepcionaram a equipe no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, distante cerca de 20 quilômetros de Vila do Conde. Eles aplaudiram a comitiva, entoaram cânticos de apoio e demonstraram confiança que, uma semana depois, aqueles atletas seriam capazes de um feito histórico.

A ação da torcida não parou por aí. Dias antes da partida de volta, no estádio dos Arcos, o movimento Rio Ave Sempre lançou um vídeo de apoio ao time, intitulado “Nós acreditamos em vocês”. Nele, torcedores anônimos aparecem dizendo sempre a mesma frase: “Eu acredito em vocês, força Rio Ave”.

Como era de se esperar, a partida contra o Elfsborg não foi fácil. O Rio Ave se atirou para cima desde o início, aproveitando-se das subidas dos laterais Lionn e Tiago Pinto. No meio, cabia a Ukra, Diego Lopes e Bressan abastecer o atacante Hassan, que parecia pouco inspirado.

Com o passar do tempo, a iminência da desclassificação foi tomando conta dos 8 mil torcedores que estavam no estádio. O Rio Ave chegou a sofrer uma bola na trave no segundo tempo e, por mais que insistisse, parava sempre nas mãos do goleiro Ellegaard. No último minuto do tempo regulamentar, ele fez grande defesa em arremate de Hassan, num lance que parecia sepultar qualquer esperança do time português.

Foi nesse momento que o técnico Pedro Martins virou-se para os que estavam no banco de reservas e disse: “Vai ser aos 92”. Ele referia-se ao tempo de jogo – 47 minutos do 2º tempo – em que achava que seu time conseguiria o milagre. “Eu acreditava seriamente que íamos chegar ao gol e vencer o jogo. Acreditei até o fim”, explicou, posteriormente.

Quando faltavam 39 segundos para o cronômetro chegar aos 47’, o goleiro Cássio pulou para evitar que uma bola perdida saísse pela linha de fundo. Ele levantou-se rapidamente, correu pela área e emendou um chute de perna direita. A bola cruzou todo o campo, pegou de raspão na cabeça de um defensor do time sueco e sobrou limpa para Esmael, que invadiu a área e ficou frente a frente com o goleiro. Ele errou o chute. Bateu mal na bola, mas o suficiente para desviar de Ellegaard e fazer com que ela lentamente entrasse junto à trave direita.

Era a senha para uma explosão de alegria no estádio. Incrédulos, torcedores comemoravam algo que nunca tinham visto. Se já era inédita a participação da equipe na Liga Europa, estar na fase de grupos beirava o surreal. Mas o que era um sonho distante virava realidade naquele momento.

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A narração de Paulo Vidal, da rádio Linear de Vila do Conde, dá o tom do drama e da emoção que tomou conta do estádio. Em sua página no Facebook, o narrador descreveu o lance como “o gol de uma carreira”.

A presença na fase de grupos garantiu ao Rio Ave uma premiação de € 1,3 milhão (R$ 3,8 milhões). O valor equivale a um terço do orçamento do clube, que agora terá pela frente Dinamo Kiev (Ucrânia), Steaua Bucarest (Romênia) e Aalborg (Dinamarca).

Classificar-se para a fase de mata-mata parece outro sonho distante, quase impossível. Mas isso pouco importa para a torcida que, neste momento, pode bater no peito para dizer que é a mais feliz de Portugal. Para o Rio Ave, a realidade atual é mais bonita que qualquer sonho.