O relógio já tinha superado os 44 do segundo tempo, aguardando apenas o apito final para o início da prorrogação. Em meio à pressa da Holanda, uma falta na borda do círculo central nem parecia tão perigosa à Argentina. Mas era, especialmente diante da qualidade técnica dos adversários. Ruud Krol, um dos melhores defensores da história e famoso por seus lançamentos precisos, acertou um dos passes mais fantásticos de sua carreira. A bola perfeita seguiu para dentro da área argentina, onde Rob Rensenbrink inteligentemente se projetava por trás da defesa. Recebeu livre e, antecipando-se a Ubaldo Fillol, esticou a perna para tirar do goleiro e mandar para dentro. O tempo para. A bola, mansa, quica no gramado. E de forma matreira se estatela contra a trave, antes de ser rifada. Acaba o tempo normal, Holanda e Argentina irão para a prorrogação na final da Copa do Mundo de 1978.

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Se aquela bola entra, o destino da Oranje seria outro. A fama de Rensenbrink seria outra. Em um jogo no qual os holandeses sofreram com as pancadas dos argentinos, poderiam ter virado o placar em pleno Monumental de Núñez. O ponta teria anotado não apenas o gol do título, mas também terminaria como artilheiro da competição. A Bola de Ouro muito provavelmente cairia em seu colo, assim como a gratidão eterna dos compatriotas. Todavia, como sempre dizem, “o se não joga no futebol”. Veio o tempo extra e a Argentina se consagrou de maneira inapelável, com a vitória por 3 a 1. Os louros acabaram na cabeça de Mário Kempes. “Se o meu chute fosse cinco centímetros para o lado, nós seríamos campeões. Eu seria artilheiro e provavelmente ganharia o prêmio de melhor do torneio, tudo na mesma partida. É por isso que eu mantenho as coisas em perspectiva”, refletiria o camisa 12, tempos depois.

Limitar a história de Rensenbrink a uma bola traiçoeira, contudo, é tão injusto quanto aqueles cinco centímetros quilométricos. Afinal, poucos atacantes foram tão brilhantes na década de 1970, assim como poucos holandeses foram tão bem sucedidos na carreira. A companhia de outros grandes craques em seu país dividia as atenções ao redor do ponta esquerda e seu caráter introvertido não o alçava ao posto de líder, eclipsado por um gênio chamado Johan Cruyff. Por vezes, faltava também mais intensidade e regularidade nas partidas. Independentemente disso, especialmente na bola, sua carreira foi grandiosa. E, no posto de protagonista, por pouquíssimo não conseguiu levar a Oranje a um patamar inédito, aquele que nem Cruyff conseguiu. Por míseros centímetros.

A trajetória dos craques compatriotas, aliás, possui discrepâncias construídas na semelhança. Rensenbrink também nasceu no subúrbio de Amsterdã, talhando sua habilidade nas ruas. Levado ao DWS, de campanhas modestas na Eredivisie, teve sorte e azar no início da carreira. Sorte por integrar a geração mais gloriosa do clube, campeã holandesa em 1964, mas azar por chegar aos profissionais justamente depois da conquista. O sucesso do time não se manteve, mas o talento do garoto era inegável. Faltavam, porém, perspectivas para saltos maiores. O Ajax seria o objetivo de qualquer um, mas Rensenbrink não teria espaço com Piet Keizer voando. Assim, o caminho natural se tornava o Feyenoord. A expectativa e as especulações se desenrolaram por um bom tempo, cotado como herdeiro do ídolo Coen Moulijn. Algo que nunca aconteceu.

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Aos 22 anos, já um dos melhores jogadores do Campeonato Holandês e convocado à seleção, Rensenbrink mudou de ares. Mas não permaneceu na Holanda: seu destino foi a Bélgica, onde viveria os melhores momentos da carreira. Assinou com o Club Brugge em 1969/70 e, por lá, atuou em duas temporadas. Ponta de um faro de gol imenso e dono de habilidades estonteantes, levou seu novo time ao título da Copa da Bélgica logo na primeira temporada. Não demorou a conquistar a torcida, mas o sucesso imediato o impulsionou a outros desafios. O Anderlecht ambicionava não apenas recuperar a hegemonia no país, como também causar impacto além das fronteiras, nas competições continentais. O holandês era o nome certo para isso.

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A partir de 1971/72, o Anderlecht iniciou a sua era dourada. E não seria exagero colocar Rensenbrink como grande marco para isso – não à toa, eleito posteriormente o melhor jogador da história do clube e o melhor estrangeiro da história do Campeonato Belga. Logo no primeiro ano, o holandês protagonizara os Mauves nas conquistas da liga e da copa. Acumulava gols, assistências e lances fantásticos. Faturou a copa novamente no ano seguinte, quando também foi artilheiro da liga – na qual o segundo título viria em 1974. Era conhecido como “Homem-Serpente” ou “Contorcionista”, pelos movimentos sinuosos que seu corpo esguio fazia na hora de driblar. E como driblava. Era a sua grande especialidade, enfileirando adversários em curto espaço, antes de emendar quase sempre o chute potente. Capacidade complementada pela velocidade de quem corria 100 metros em apenas 11,2 segundos.

“Robbie era tão bom quanto Cruyff – apenas em sua mente é que não. Ele era um pouco como George Best, muito técnico, driblador maravilhoso. Nossa, que jogador para aquela época! Ele driblava muito! Poderia passar por seis ou sete homens de uma só vez. E era um ponta, mas marcava 20 gols na temporada. Eu adorava vê-lo nos treinamentos, caramba! Aqueles movimentos… Alguns jogadores tem isso: a beleza do gesto. A maneira como ele colocava o pé na bola era bastante diferente. Ele tinha uma forma elegante de passar a bola. Quando fazia isso, bang! É do caráter humano chutar a bola, mas quando Robbie o fazia, era arte. Algo até mais belo, mais preciso, como uma caligrafia. Ele tinha uma belíssima caligrafia com o pé esquerdo”, relembra Jan Mulder, seu compatriota e companheiro no Anderlecht, ao livro ‘Brilliant Orange: The Neurotic Genius of Dutch Football’.

O momento esplendoroso no Anderlecht fez Rensenbrink subir no conceito da seleção às vésperas da Copa de 1974. Afinal, por mais que se destacasse no Campeonato Belga, o sucesso não era tão acompanhado pelos compatriotas, em tempos de transmissões mais escassas. De qualquer maneira, não seria fácil conquistar seu espaço no time de Rinus Michels, baseado no Ajax tricampeão europeu. O ponta esquerda disputou apenas um jogo nas Eliminatórias, preterido por Piet Keizer. Mas, durante a preparação, os dois concorrentes ganharam condições iguais para brigar pela posição. Revesaram-se nos amistosos preparatórios, e as boas atuações de Rensenbrink (assim como o gênio difícil de Keizer) lhe garantiram a titularidade na estreia. Fez parte do show contra o Uruguai, mas ainda assim Michels optou por substituí-lo contra a Suécia. E, depois do empate por 0 a 0, não havia mais dúvidas sobre quem era o dono da ponta esquerda.

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O jeito introvertido de Rensenbrink não criava atritos com Cruyff e ambos se complementavam. Juntos, fizeram história, com Johnny Rep completando o fantástico trio de ataque. O ponta esquerda jogou muito bem na segunda fase da Copa, participando bastante e providenciando lances decisivos. Todavia, a lesão sofrida contra o Brasil, no jogo que definiu a classificação à final, o fez entrar no sacrifício contra a Alemanha Ocidental. Jogou apenas o primeiro tempo, substituído no intervalo, vendo do banco os seus companheiros sucumbirem e terminarem com o vice-campeonato mundial. Como consolação, o antes incerto titular foi escolhido para o 11 ideal da competição.

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Somando o sucesso no Anderlecht com a relevância na seleção, tentaram levar Rensenbrink de volta à Holanda. O atacante seria o homem certo para cobrir as lacunas no Ajax após as saídas de Johan Cruyff e Johan Neeskens. O clube belga, contudo, sabia bem o valor de seu craque. Recusou-se a fazer o negócio. E, desta maneira, encheu a sua sala de troféus. O holandês viveu um ano arrebatador em 1976. Domesticamente, ganhou o bicampeonato da Copa da Bélgica e o prêmio de melhor jogador do país. Este, impulsionado por aquilo que aconteceu no cenário continental. Os Mauves conquistaram a Recopa Europeia, seu primeiro título internacional. Rensenbrink foi o artilheiro do campeonato, anotando dois gols na decisão contra o West Ham. Além disso, desequilibraria na Supercopa, em goleada sobre o esquadrão do Bayern de Munique, tricampeão da Champions.

Neste intervalo, Rensenbrink ainda se destacou na seleção às vésperas da Eurocopa de 1976. A Holanda superou Itália e Polônia em seu grupo nas eliminatórias, antes de destroçar a Bélgica no confronto duplo que antecedeu a fase final da competição. Sobrou contra aqueles que o adoravam, anotando três gols na goleada por 5 a 0, antes da vitória por 2 a 1 que arrematou a classificação. Nas semifinais, entretanto, a Oranje sucumbiu contra a Tchecoslováquia de Ivo Viktor e Antonin Panenka. Sem jogar bem, o ponta esquerda esfriou o interesse do Real Madrid, que projetava a sua contratação. Já ao final do ano, terminou em segundo na votação da Bola de Ouro, atrás apenas de Franz Beckenbauer.

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Rensenbrink seguiria motivado a mais um biênio sensacional. A galeria de taças no Anderlecht se ampliou, com o segundo título da Recopa. Destoou de novo vez na final, com dois gols diante do Austria Viena. E na Supercopa Europeia, bateria o lendário Liverpool para terminar de se consagrar. Já na seleção, Rensenbrink subiu de patamar. Ajudou na classificação à Copa do Mundo de 1978 e, diante da ausência de Cruyff, era ele quem assumia o protagonismo. Aos 31 anos, tinha maturidade o suficiente para isso, enquanto habilidade nunca faltou. Além do mais, a saída do camisa 14 oferecia mais espaço em campo ao ponta esquerda. Não precisava ficar tão limitado em suas funções, exercendo um papel mais amplo, como já era no Anderlecht de Raymond Goethals.

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O desempenho de Rensenbrink no Mundial da Argentina foi excelente. Assumindo a responsabilidade e participando da criação, estreou com uma tripleta diante do Irã, marcando ainda mais um gol na derrota contra a Escócia. A Holanda de Ernst Happel passou de fase, brilhando principalmente na segunda etapa da competição. No quadrangular semifinal, o camisa 12 atingiu seu ápice. Comandou a goleada contra a Áustria, anotando seu quinto gol na Copa, o quarto de pênalti; decidiu contra a Alemanha Ocidental, oferecendo as duas assistências no empate por 2 a 2; e comemorou a classificação a mais uma final após a vitória sobre a Itália, marcada pelo chutaço de Arie Haan, seu companheiro no Anderlecht. Então, veio o gosto amargo da decisão contra a Argentina, reclamada pela Oranje até hoje. Os jogadores se queixam da violência dos adversários e da arbitragem caseira. A lembrança mais viva, de qualquer forma, é a da bola na trave. Pela segunda vez, terminou escalado na seleção ideal do Mundial.

Terceiro colocado na Bola de Ouro em 1978, Rensenbrink viveu apenas mais uma temporada boa pelo Anderlecht, antes de sua carreira entrar em declínio. Fez sua última partida pela seleção em maio de 1979, pelas eliminatórias da Eurocopa. No ano seguinte, rumou aos Estados Unidos para ganhar uns dólares a mais, ficando apenas uma temporada no Portland Timbers. O final da carreira aconteceria na França, terra onde amava passar férias: conquistou a segunda divisão com o Toulouse, embora pouco tenha jogado. Aos 35 anos, era hora de pendurar as chuteiras. Mas, ao contrário de seus antigos colegas, Rensenbrink se afastou do futebol. Digno à sua personalidade, preferiu a calmaria da vida no campo com a sua família. Envelheceu como um dos maiores da história da Holanda. Aos 70 anos, completados na última segunda, merece reverências além dos centímetros.