Desde o fracasso nas Eliminatórias que deixou a Itália fora da Copa do Mundo de 2018 na Rússia havia especulação sobre quem seria o novo técnico da Itália. Giampiero Ventura protagonizou um vexame e, como esperado, deixou o cargo. Era preciso um técnico mais renomado, com mais bagagem e competência. Roberto Mancini, de 53 anos, foi o escolhido. Oferece à Itália experiência em grandes clubes, um ume respeitado dentro do país e títulos importantes no currículo – todos elementos que o antecessor não tinha.

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Apesar das muitas especulações em torno de nomes badalados como Massimiliano Allegri, da Juventus, Maurizio Sarri, do Napoli, Antonio Conte, do Chelsea e Carlo Ancelotti, sem emprego, nenhum deles foi, de fato, uma opção à FIGC (Federação Italiana de Futebol). Primeiro, por uma questão simples: grana. O salário desses técnicos é muito acima de um técnico de seleção.

Segundo, há outro fator fundamental: querer ser o técnico da seleção. E ninguém queria mais que Mancini. O comissionário da FIGC, Roberto Frabbricini, deixou isso claro ao anunciar o treinador nesta segunda-feira. “Roberto tinha um grande desejo de ser o técnico da Itália, ele provou isso de um modo concreto”, disse o dirigente.

Um ponto que é importante porque Carlo Ancelotti, por exemplo, já tinha deixado claro que quer continuar trabalhando em clubes. Conte, outro especulado, deixou o trabalho após a Eurocopa de 2016 por querer voltar a trabalhar no dia a dia dos clubes, algo que a FIGC certamente não quer que aconteça em caso de sucesso já nestes primeiros dois anos.

Essa vontade foi o que fez Mancini aceitar ganhar menos da metade do que recebia como técnico do Zenit. Na Rússia, recebia € 4,5 milhões por temporada; na Azzurra, receberá € 2 milhões por anos e mais bônus por objetivos atingidos. O contrato inicialmente é de dois anos, até a Eurocopa de 2020, mas há uma cláusula que se a Itália se classificar para o torneio, o contrato é estendido até a Copa de 2022.

Mancini tem um currículo que o credencia ao cargo. Ex-atacante, Mancio nunca foi na seleção o mesmo que fazia nos clubes. Jogou por Bologna, Sampdoria (onde ganhou o scudetto), Lazio (novamente campeão) e encerrou a carreira no Leicester. Foram 10 anos na seleção, de 1984 a 1994. Esteve na Copa do Mundo de 1990, mas acabou ficando fora de 1994.

Como treinador, Mancio começou a carreira dirigindo dois times tradicionais que estavam em grave crise financeira, Fiorentina, em 2001/02, e a Lazio, de 2002 a 2004. Foi para a Internazionale em 2004 e ganhou títulos com o clube, tirando de uma imensa fila desde o final dos anos 1980 na Serie A. Depois, pelo Manchester City, foi o técnico que tirou o time da fila de títulos em 2011 na Copa da Inglaterra e depois na Premier League em 2012. Ainda ganharia um título com o Galatasaray, a Copa da Turquia, em 2014.

Mancini tem um bom histórico como técnico, trabalhou em grandes clubes, com grandes estrelas e em diferentes situações. Pegou times em dificuldades, pegou times estrelados, como a Inter e o Manchester City. No Zenit, o seu último trabalho, não foi bem. Na Itália, com a experiência que tem, tem todas as condições de trazer a Itália a um bom desempenho.

É verdade que Mancini tem uma fama de ser um técnico defensivista. Mancini tem condições de armar times um pouco mais ofensivos, porém. Ele conseguiu isso na Inter e no Manchester City. É um técnico com o respeito dos jogadores por tudo que já fez, o que é diferente de Ventura, um treinador que tinha o Torino como seu maior clube no currículo. A vontade de treinar a seleção italiana pesou e pode ser, sim, fundamental.

Roberto Mancini, técnico da Itália (Photo by Claudio Villa/Getty Images)

Emocionado por ser escolhido

“Estou emocionado porque ser o técnico da seleção não é algo trivial”, afirmou Mancini. “Eu quero agradecer ao comissionário [Roberto Fabbricini] e ao sub-comissionário Michele [Uva]. Eles me fizeram sentir que 100% me queriam aqui”, disse ainda o treinador. “Estou orgulhoso, para alguém como eu que veio para Coverciano como um sub-14 em 1978, tornar-se técnico da seleção é uma das coisas mais bonitas que pode acontecer”.

“Eu estou feliz pelos meus pais também, eu acho que eles estão satisfeitos. Eu quero agradecer aos técnicos que eu tive como jogador, eles foram muito importantes. Eu acho que se tornar o técnico da seleção é a maior aspiração que o técnico pode ter, então em todos os momentos da carreira havia decisões a serem tomadas, para cada um de nós”, analisou Mancini.

“Há aqueles que preferem um clube e precisam ver os jogadores todos os dias, eu estou treinando por muitos anos e esta é a hora certa, porque nós temos que fazer algo pela seleção nacional”, disse o treinador. “Não ir para a Copa do Mundo, para aqueles que estava assistindo como torcedores, foi algo difícil de aceitar. Eu acho que todo técnico aspira se tornar treinador da seleção”.

“Meu relacionamento com a seleção nacional durou um longo tempo, eu acho que fui o único a ter [Enzo] Bearzot, [Azeglio] Vicini e [Arrigo] Sacchi como técnicos. Eu não fui o jogador com mais sorte no período, mas eu estive em Coverciano por um longo tempo. Infelizmente nunca ganhamos uma Copa ou Eurocopa, mas estivemos perto”, refletiu Mancini do seu tempo como jogador.

“Eu quero ser um bom técnico, quero levar a Itália ao topo do mundo e da Europa. A Liga das Nações, o primeiro compromisso importante, começa logo. Eu espero levar a seleção nacional de volta aos mais altos níveis. Com trabalho duro, podemos fazer isso”.

Torcedores e sonhos

“Nós temos que trazê-los para perto”, afirmou Mancini sobre os torcedores. “Quando a seleção joga, há muitos torcedores e eles estão muito próximos de nós. As outras coisas, como dedicação e trabalho, são normais. Eles são jogadores profissionais. Os jogadores que vem para a seleção precisam trazer os sonhos que eles têm nos seus corações, isso é o mais importante. Quando você é jovem e está assistindo aos jogos na TV, isso é o que você sonha”.

Estilo de jogo

“Eu irei pensar naqueles que jogam bem – e isso não acontece sempre, porque há vezes que você não consegue – e que vencem porque são melhores. Nós iremos tentar e temos que ter os jogadores mais técnicos possíveis para jogar o melhor futebol que nós podemos”, afirmou o treinador.

Jogadores

Roberto Mancini, da seleção italiana (Photo by Claudio Villa/Getty Images)

O técnico não descartou jogadores veteranos como Gianluigi Buffon e Daniele De Rossi e disse que chamará os jogadores que estiverem melhores. Uma das perguntas feitas a Mancini foi sobre a presença de Mario Balotelli, seu pupilo na Internazionale e que ele levou ao Manchester City. “Isso é o melhor da seleção, nós não teremos problemas como esse”, afirmou. “Há muitos jogadores na Itália, mesmo em tempos difíceis e nós podemos encontrar jogadores com qualidade. Nós iremos certamente falar com Mario e nós iremos provavelmente trazê-lo. Ele é um desses jogadores que nós gostaríamos de ver voltar para o que nós vimos na Eurocopa com [Cesare] Prandelli. Há muitos jogadores que podem ser úteis”, disse.

“Eu não acho que é um problema não ver os jogadores todos os dias”, afirmou Mancini. “Eu continuarei dizendo que há sempre bons jogadores, talvez levará um pouco de tempo, mas eu acho que nós podemos reunir um bom time. Eu não sei se esse será o meu desafio mais difícil, se você treina um clube e você não vence, todo mundo está bravo com você, aqui há 50 milhões de pessoas”, disse.

“Isso é bonito também. Porque se você vence alguma coisa importante, há uma enorme satisfação. Não é um desafio fácil, mas nada é fácil. É difícil para todo mundo concordar com o técnico da seleção, mas eu não acho que é simples assim. Há muitos torcedores e todo mundo tem a sua própria opinião. Nós esperamos ganhar um troféu importante com a Itália”, declarou ainda o treinador.

“É difícil dizer neste momento como nós iremos jogar, quando nós treinarmos juntos, iremos dar a oportunidade para entendê-los melhor. Eu irei me adaptar às suas necessidades, suas qualidades, então decidir o que é melhor para o time. Eu não irei pedir treinamentos [fora de datas Fifa, como vinham acontecendo antes], mas se não tivermos a chance, nós iremos chamar alguns jovens para conhecê-los um pouco melhor”, declarou.

“Os jogadores estão viajando a cada três dias, isso não é fácil. Eu acho que times B são uma boa, eu espero que muitos italianos joguem. Para a minha comissão técnica, nós não tivemos muito tempo, mas isso não será um grande problema”, finalizou o novo treinador italiano. A missão de Roberto Mancini é transformar essa Itália fora da Copa do Mundo de 2018 em um time competitivo para a Eurocopa de 2020. Se ele funcionará e conseguirá tirar a Itália do caos, é impossível saber. O que é fácil saber é que é difícil piorar e, ao menos em termos de currículo, é muito superior ao que tinha Ventura.