Os próximos oito dias serão de análise intensa à Roma. A goleada do Liverpool se construiu a partir das atuações arrebatadoras de Mohamed Salah e Roberto Firmino, é claro. No entanto, os dois atacantes também encontraram uma situação favorável do outro lado. Destruíram uma defesa completamente exposta, em um time que demorou demais para corrigir erros evidentes. E os giallorossi saem aliviados por alimentar alguma esperança, com os dois gols marcados nos minutos finais. Os romanistas caíram no pecado de confiar demais no que já tinha dado certo antes, contra um adversário bem mais fatal nos contra-ataques. Deram sorte do estrago não ter sido maior. Ainda assim, ao final, teve alguma valia fazer diferente e criar motivação quando a apatia seria natural, buscando o 5 a 2.

Eusebio Di Francesco apostou em uma fórmula parecida à utilizada contra o Barcelona. Adiantou a marcação, tentando sufocar o Liverpool já no campo de defesa dos ingleses. Os primeiros 25 minutos de jogo dos italianos foram satisfatórios. Alessandro Florenzi e Aleksandar Kolarov davam fluidez pelos lados, com o conjunto funcionando, apesar de individualmente os romanistas mostrarem pouco. Bastou o Liverpool encontrar a sua sintonia, porém, que o massacre se desenhou ao final da primeira etapa.

A Roma precisa agradecer a noite pouco inspirada de Sadio Mané, assim como algumas boas intervenções de Alisson no primeiro tempo. O Liverpool transformava a defesa visitante em seu sparring e, como um boxeador, descia a pancada contra um adversário já nas cordas. Pior, a Roma manteve a sua postura antes, sem criar juízo. O meio-campo recompunha numa lentidão comovente e os três zagueiros, com menção especial a Juan Jesus, estavam completamente perdidos no mano a mano contra a trinca de ases dos Reds. Salah fez o primeiro com uma finalização sublime, enquanto o segundo gol é a pura prova das debilidades giallorossi. Juan não só errou o posicionamento, como tentou adivinhar o movimento de Salah. Na corrida, não tinha como alcançar o egípcio.

Diante da vitória parcial do Liverpool, a Roma voltaria mais cautelosa para o segundo tempo, certo? Erradíssimo. Di Francesco até apostou na entrada de Patrick Schick no lugar do apagado Cengiz Ünder. Contudo, manteve a mesma estratégia e o lado esquerdo de sua equipe virou uma pista de dança a Salah, deitando e rolando por ali. Mais duas boas jogadas do camisa 11 até a linha de fundo, mais dois gols. Então, os romanistas pareciam entregues. O próprio Alisson cometeu alguns erros de atenção que não costumam ser comuns nesta temporada. E quando Firmino subiu para marcar o quinto, dá para questionar se o goleiro não poderia ter feito melhor numa bola relativamente fraca – já que, nos outros quatro tentos, estava completamente vendido.

O 5 a 0 aconteceu quando Di Francesco acabara de mudar a formação de sua equipe. Recompôs o meio-campo com Maxime Gonalons, no lugar de Daniele De Rossi, e finalmente tirou o claudicante Juan Jesus, por Diego Perotti. Deixou a linha defensiva com quatro homens e o meio com quatro. Diante de um Liverpool mais desinteressado, sem Salah, os romanistas cresceram. E conseguiram os seus dois gols principalmente a partir de Edin Dzeko e Radja Nainggolan, abaixo da média em boa parte do tempo, mas que chamaram a responsabilidade no final. Com o belga e Perotti afunilando a partir das pontas, boas jogadas aconteceram. O placar sai de bom tamanho, pegando o que foi a partida ao longo dos 90 minutos.

“Não podemos continuar falando sobre o jogo contra o Barcelona, mas, se nós não vencermos os duelos um contra um e não identificarmos bolas que sabíamos que estavam chegando, fáceis de ler, então perderemos nossas cabeça. Jogamos com três zagueiros no início, quando estava tudo certo, então não foi esse o problema. Continuamos perdendo situações no mano a mano e entregando a bola de graça. É natural que tenhamos melhorado com substitutos e precisávamos dessa reação. Se ninguém acreditar na virada, então nem deveríamos jogar estas partidas”, analisou Di Francesco, após o jogo.

“Os ataques do Liverpool aconteceram todos quando perdemos a bola. Se aconteceram duelos três contra três, quer dizer que tivemos qualidade para atacar em maioria. Perder esses duelos mostraram que estamos abaixo do Liverpool em termos de capacidade física e velocidade. Se os adversários preparam um passe, você não pode esperar. Facilitamos para eles. Dissemos antes do jogo contra o Barcelona que acreditávamos totalmente nas nossas chances e digo o mesmo agora. O time perdeu confiança hoje durante a partida, isso não deve acontecer. Veremos uma Roma diferente na volta”, complementou.

A chave para a Roma na volta dentro do Estádio Olímpico será entender o que aconteceu em Anfield. Os dois gols são importantes principalmente para fazer a torcida e os próprios jogadores acreditarem. Mas os adversários desta vez parecem muito mais perigosos que o Barcelona. Tentar anular o meio-campo, como foi contra os blaugranas, não basta. Há mais vivacidade no Liverpool para trabalhar sem a bola e há mais velocidade para castigar nos contra-ataques. Repetir o nível de intensidade e de atenção vistos na virada contra os blaugranas talvez não seja suficiente. Pelo que se viu em Anfield, será necessário mudar o próprio jogo e, possivelmente, algumas peças.