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Ronaldinho deu bola dentro ao se negar a virar um Globetrotter

Ronaldinho é um encantador de multidões. Basta a bola cair em seus pés para hipnotizar quem o assiste. Nem sempre o camisa 10 faz o seu melhor jogo. Mas um lance de magia qualquer é o suficiente para que muitos sentirem que o ingresso já valeu. Se você não torce por nenhum dos dois times em campo, se torna como um espectador Harlem Globetrotters, o famoso circo do basquete americano. Quer ver aquilo que só R10 é capaz de fazer com uma bola. E, na maioria das vezes, cumpre as expectativas. Em sua essência, Ronaldinho é um Globetrotter. Mas optou por rejeitar a vida de ‘trota mundos’. O craque segue acima do artista.

Pela fama que construiu, Ronaldinho poderia muito bem rodar o globo em turnês e encher os bolsos de dinheiro. Se não era mais o jogador para se manter no ápice com o Barcelona, tinha a opção de defender clubes dos mais diferentes cantos, quem pagasse mais. Estados Unidos, Japão, Oriente Médio, Leste Europeu. Preferiu tentar o recomeço no Milan. Não deu certo. Melhor garantir mais alguns milhões antes que a carreira acabasse? Não, o meia preferia o Brasil. O sucesso no Flamengo não aconteceu como se esperava. Outra vez, R10 insistiu na busca pela glória. E conseguiu, levando o Atlético Mineiro à conquista da Libertadores.

A ambição de Ronaldinho poderia estar completa no ponto em que chegou. Prestes a completar 34 anos, melhor do mundo por duas vezes, campeão das Américas e da Europa. Os milhões de euros do Besiktas foram colocados sobre a mesa, uma proposta que os atleticanos haviam apontado que não conseguiriam cobrir. O craque contaria com uma torcida fanática, um campeonato sem tantas exigências, a satisfação de seus empregadores com um simples título nacional. Quis ficar, renovar seu contrato – ganhando menos, mas bem, é claro. Enfrentar o desafio em um Atlético Mineiro despedaçado pela derrota no Mundial de Clubes, em reconstrução.

Do ponto de vista do estilo de vida, qualquer outro canto do mundo não deixa a desejar quando comparado a Belo Horizonte. Por aqui, Ronaldinho está perto de sua família, de seus amigos. Da noite, pela qual nunca escondeu seu gosto e que nem de longe atrapalhou seu desempenho no último ano. O gaúcho não é do tipo que vai para um novo país para conhecer novas culturas, ter uma qualidade de vida maior. A satisfação, para ele, está no conforto de ter o estilo de vida que quer. Algo que tem no Brasil e que poderia ser privado em outros países como a própria Turquia.

Ao recusar o Besiktas, Ronaldinho apontou que não queria ser um novo Allen Iverson. O craque da NBA já estava longe de sua melhor forma quando recebeu uma proposta do mesmo clube turco. Ganharia uma boa grana para jogar 30% de seu ápice. Embolsou US$ 4 milhões por dez jogos, para encerrar a carreira de maneira melancólica, lesionado. Obviamente, a dimensão do brasileiro para o futebol e para o esporte em geral é bem maior do que a do americano para o basquete. E por isso mesmo é que R10 parece ter escolhido outro caminho. Se não dá para ser o melhor da Europa, das Américas ele ainda pode. Talvez, no fim da carreira, ele até resolva fazer parte do picadeiro de um país longínquo. Agora, não é o momento.

A postura de Ronaldinho deve ser um orgulho para a torcida do Atlético Mineiro. O ídolo ficou para, quem sabe, alcançar o bicampeonato da Libertadores, deixar para trás o que aconteceu no Marrocos. Pode ser que o camisa 10 não seja mais decisivo em todos os momentos. É a decadência comum a qualquer craque. Mas que, por enquanto, prefere seguir tentando novas façanhas a embolsar maiores fortunas. A mágica permanece. E a altivez de um dos maiores jogadores da história também.