Yaya Touré, do Manchester City (Foto: AP)

Traumas pós-comunismo e desinformação criam o ambiente para o racismo nos estádios russos

“Eu aprendi na escola: negro vive na África; os índios, se ainda existirem, na América; os chineses, na Ásia; eles se visitam e São Petersburgo é uma cidade criada para atrair turistas. Fico feliz, mas não é para eles trazerem seus samovars (uma espécie de garrafa de café) e viverem pelas suas próprias leis.”

O autor do comentário sobre imigração, publicado no Zenitbol, é Aleksandr Rumyantsev, líder de um grupo de torcedores do Zenit chamado Landscrona. Essa é a mesma torcida que publicou um manifesto em 2012 pedindo que a diretoria do clube mantivesse a “tradição” de não contratar negros. Naquela linha “não sou racista, até tenho amigos que são, mas que eles não joguem no meu clube”. Atualmente, o Zenit tem o belga Axel Witsel, o venezuelano Salomón Rondón e o brasileiro Hulk. Não funcionou.

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O contexto da declaração de Rumyantsev era um dos muitos casos de racismo que o futebol russo viu nos últimos anos. Especificamente, a banana atirada aos pés de Roberto Carlos, ex-jogador do Anzhi, em 2011. E então chegamos ao nosso paradoxo: o torcedor que atirou a banana foi banido da torcida organizada, segundo o seu líder, mas também foi defendido por Rumyantsev. “Ele disse que foi estúpido, mas não havia racismo na sua mente”, explicou.

Como costuma acontecer em situações contraditórias, o diagnóstico é falta de informação e de educação, de um modo geral. Não justifica, sequer desculpa, mas muitos russos ainda não aprenderam que ofensas racistas são muito mais sérias do que uma brincadeira provocativa. Isso porque até 1991 isso não era relevante. A União Soviética não deixava ninguém entrar. A Rússia era fechada dentro de si mesma. E não se muda a mentalidade de todo mundo em duas décadas.

Roberto Carlos foi alvo de ofensas racistas quando era jogador do Anzhi (Foto: AP)

Roberto Carlos foi alvo de ofensas racistas quando era jogador do Anzhi (Foto: AP)

“Se o nível da educação fosse normal, ninguém faria nada contra imigrantes, mesmo se antes não tivesse havido imigrantes”, diz o jornalista russo Grigory Telingater, do Eurosport. “As pessoas jovens não sabem o que é a vida real. Não têm direção para pensar e pegam esses pensamentos estúpidos. Pensam que racismo é um tipo de patriotismo. Para eles, é só mais uma opção para falar mal do adversário. Em geral, acho que a situação melhorou.”

Os números da Sova, uma organização de direitos humanos que pesquisa crimes de ódio na Rússia, confirmam a percepção de Telingater. Em 2009, foram registrados 525 casos de violência contra minorias. Ano passado, foram 213. Uma queda considerável, mas ainda assim, em números absolutos, a Rússia ainda cultiva muito ódio. “Isso [que racismo é crime] não é ensinado nas escolas. Não há programa governamental a respeito disso. Ninguém está dizendo para eles que esse tipo de ato é deplorável. Nunca enfrentaram o fato de não deveriam se orgulhar disso”, explica o cientista político Yan Matusevich, que escreveu um texto chamado “O Lado Feio”, sobre a cultura de racismo da torcida do Zenit, clube para o qual torce.

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A situação econômica das ex-repúblicas soviéticas, depois da queda do Muro de Berlim, era precária, e isso motivou uma imigração de massa de trabalhadores da Ásia Central e do Cáucaso. Países como Geórgia, Armênia, Azerbaijão e partes da Turquia e do Irã. De uma convivência quase nula de estrangeiros, de repente os russos passaram a dividir espaço com a segunda maior força de trabalho imigrante do mundo, atrás dos Estados Unidos: de 13 a 14 milhões de pessoas.

Começou a crescer um sentimento forte de nacionalismo. A ideia de uma nação russa para os russos e do país como uma grande potência mundial. O governo de Vladimir Putin pune os excessos ao mesmo tempo em que tenta reforçar esse sentimento. A extrema-direita ultranacionalista, cujo rosto legítimo é o Partido Liberal-Democrata, ainda não é uma força política na Rússia, mas está crescendo. “Ainda é um fenômeno marginal, mas a sociedade russa considera muito provável que o nacionalismo é uma ideologia com futuro e que vai ganhar mais popularidade nos anos seguintes”, disse Alexander Verkhovsky, da Sova, ao jornal norte-americano The Atlantic.

As minorias étnicas, principalmente do norte do Cáucaso, estão sofrendo a pior consequência dessa conjuntura. Na época das eleições para prefeito de Moscou, ano passado, 55% dos entrevistados disseram para uma pesquisa que a principal causa de preocupação não era economia ou violência. Era o “excesso de imigrantes de ex-repúblicas soviéticas e do Norte Cáucaso”.

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Dois casos recentes representam bem isso. Em abril de 2013, Elmira Abdrazakova foi eleita Miss Rússia, mas precisou fechar suas contas nas redes sociais por causa dos abusos dos amigos internautas. Ele é descendente de tártaros. Alguns meses depois, uma skinhead mulher foi condenada a cinco anos de prisão por matar dois homens do Daguestão. A sentença foi suspensa pela Justiça até que o seu bebê complete 14 anos. Quase paralelamente, uma das integrantes do grupo musical Pussy Riot, opositor a Putin, Nadezhda Tolokonnikova, foi impedida de deixar a prisão para cuidar da sua filha recém-nascida.

Se tudo isso não fosse o bastante, a Rússia também recentemente aprovou uma legislação que proíbe demonstrações homossexuais em público para “proteger as crianças”. A lei teve o apoio de ilustres, como a campeã olímpica Yelena Isinbayeva, mas foi muito criticada pela comunidade internacional. O principal tapa na cara foi no pódio do revezamento 4×100 do Mundial de Atletismo de Moscou, quando as fundistas Kseniya Ryzhova e Yulia Guschchina se beijaram.

Kseniya Ryzhova e Yulia Guschchina se beijaram no pódio do Mundial de Moscou (Foto: AP)

Kseniya Ryzhova e Yulia Guschchina se beijaram no pódio do Mundial de Moscou (Foto: AP)

Dá para entender por que a Fifa está preocupada? Em 2018, a Rússia vai sediar a Copa do Mundo com uma população que, atualmente, ainda carrega muito racismo, discriminação e homofobia, principalmente nas cidades do interior – em Moscou, não é tão ruim assim. O marfinense Yaya Touré chegou a falar de um boicote de jogadores negros ao Mundial de 2018 depois de ser ofendido em uma partida da Liga dos Campeões contra o CSKA Moscou, em outubro.

A Uefa puniu o clube. Determinou que um setor da Arena Khimki fosse fechado para a partida seguinte. Isso foi necessário porque, dentro da Rússia, houve uma percepção de que nada demais aconteceu. O CSKA negou qualquer problema, e a Federação Russa não agiu. Costuma aplicar sanções mais pesadas, ainda assim raramente, com violência física, como quando o clube de Moscou foi obrigado a jogar com portões fechados, em novembro de 2012, por causa de um sinalizador que saiu da arquibancada e chegou ao gramado.

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Não é apenas a diretoria do CSKA Moscou que faz o papel de mamãe ingênua que não vê o filho fazer travessura. Um diretor do Lokomotiv Moscou chegou a dizer, segundo Grigory Telingater, que são os jornalistas que levam os sinais de suástica às arquibancadas para que o fotógrafo possa fazer a imagem. “Isso é um problema, mas acontece com clubes de Moscou quando jogam fora de casa, em regiões pobres, com menos educação”, disse.

Nesta quinta-feira, na última partida do Campeonato Russo, entre CSKA e Lokomotiv, na mesma Arena Khimki, Telingater viu as duas torcidas fazerem sons de macacos, contrariando as declarações do vice-presidente da Federação Russa, Nikita Simonyan, ao New York Times, depois do caso de Yaya Touré. “Estou certo que estamos melhorando. A situação não é pior do que em outros países do mundo”, disse.

O problema, caro Nikita, é que a situação do racismo nos outros países do mundo não é nada boa.

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-  A zoeira, meus caros, ela tem limite. Ainda bem