No começo, o interesse alegado do Borussia Dortmund em Peter Bosz parecia mais um desses boatos que pululam ininterruptamente imprensa afora, durante a janela de transferências da pré-temporada europeia. Até porque havia outros concorrentes sendo falados. Do final de semana passado em diante, porém, jornalistas holandeses começaram a falar que o boato tinha se transformado em realidade, com grande possibilidade de concretização. Já na noite de segunda, pelo horário holandês (tarde, no Brasil), cravava-se a saída de Bosz do Ajax. E enfim, os dois clubes confirmaram na manhã de terça: o treinador de 55 anos iria para o seu quarto clube em dois anos, encarando o maior desafio da carreira com a chegada ao Signal Iduna Park.

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Obviamente, o clima não ficou nada bom em Amsterdã. Houve certa sensação de desamparo, já que a saída do treinador era inesperada, ainda mais após o final esplendoroso de temporada que os Godenzonen fizeram. Em meio aos treinamentos com o resto da seleção holandesa, Davy Klaassen e Matthijs de Ligt fizeram comentários parecidos. Do meio-campista, ouviu-se: “Acompanhei tudo pela imprensa, e aconteceu a mesma coisa com meus colegas. Naturalmente, a saída dele é um golpe sensível para nós. Na temporada passada, ele nos fez alcançar algumas coisas, e é chato ver isso quebrado agora”. Do jovem zagueiro, as palavras foram: “Naturalmente, é triste, mas é um grande passo para ele”.

Além da tristeza, veio o espanto, como demonstrado por Kasper Dolberg à tevê pública holandesa: “Há conversas aqui e ali sobre jogadores que talvez saiam, mas eu não esperava que o técnico fosse o primeiro. Foi uma grande surpresa”. Bem, na verdade, após tudo que se soube desde a terça-feira passada, foi quase uma grande surpresa. Porque a saída revelou uma discordância que era quase secreta: a diferença entre Peter Bosz (e seu auxiliar, o ex-jogador Hendrie Krüzen, que também vai com ele para o Borussia Dortmund) e a comissão técnica fixa do Ajax.

Tal discordância recebeu ares até de conflito aberto, desses em que uma faísca basta para explodir o conflito. À revista “Voetbal International”, o diretor geral Edwin van der Sar negou que fosse tão sério assim – mas reconheceu que havia discordância: “A situação não era algo impossível de se trabalhar. Queríamos ficar com Peter, mas a partir do momento que o Borussia Dortmund chegou [com a proposta], tudo veio à tona. Conversamos duas vezes, e ficou claro que havia uma diferença inegável de visões”.

Mas diferença em quê, afinal de contas? Diferença no modo de trabalho. Dentro de um clube tão cioso de suas tradições táticas, nada mais lógico que o Ajax tenha uma comissão técnica fixa. Esta consiste no auxiliar técnico Hennie Spijkerman, no treinador de goleiros Carlo L’Ami, no fisioterapeuta Björn Rekelhof e, acima de tudo, em Dennis Bergkamp – antes auxiliar no banco, atualmente quase um “diretor técnico”, embora tal cargo não exista no organograma Ajacied.

Pois bem: já no início da temporada recém-encerrada, Bergkamp decidiu que Spijkerman ficaria descolado do time principal, concentrando-se mais no Jong Ajax, a equipe B. Abrir-se-ia uma vaga na comissão, e Bosz interessou-se em ocupá-la com alguém de sua confiança. A comissão técnica não quis, e Bergkamp acabou ficando incumbido do papel de supervisionar como iam os trabalhos da equipe adulta.

Bosz ficou descontente, mas segurou-se. Por dois motivos: as discordâncias eram meramente profissionais (comissão técnica e a dupla Bosz-Krüzen trabalhavam normalmente, falavam-se com frequência, definitivamente não havia animosidades), e, obviamente, pela ascensão inesperada do trabalho, no final da temporada, deixando a impressão de que o trabalho estava avançando. Impressão interrompida logo que o Borussia Dortmund virou suas baterias para a contratação do treinador, após Lucien Favre declinar do convite.

Por mais honroso que tenha sido o desempenho em 2016/17, o Ajax seguiu sem ganhar títulos, com os vices no Campeonato Holandês e na Liga Europa. E isso pesou para a dupla que comanda o clube, Van der Sar e Marc Overmars (diretor de futebol). Pelas discordâncias supracitadas, era de se imaginar que a comissão técnica, no mínimo, não ficaria triste com a saída de Bosz. E imaginando que nos aurinegros terá mais liberdade para escolher como e com quem quer trabalhar, o treinador decidiu aceitar a proposta da equipe alemã. E mostrou-se aliviado na entrevista coletiva de apresentação, com declarações como “Não acho que traí o Ajax ao deixar o clube”.

Enquanto isso, o Ajax fica tentando assimilar o duro golpe – se é que foi um duro golpe, já que as consequências só serão conhecidas com a nova temporada. Em meio às especulações do sucessor (provavelmente será Marcel Keizer, treinador da equipe B, credenciado pelo bom trabalho que a levou ao vice-campeonato na segunda divisão), ainda é difícil evitar a impressão resumida por Van der Sar: “Só houve perdedores nesse caso”. E a sensação é de que a “Cinderela” que o Ajax foi no final da temporada passada voltou a ser a Gata Borralheira.

Só a Copa interessa

“Jogaremos somente pelo resultado. Vamos nos organizar bem, dividir as tarefas e cumpri-las bem”. Em sua entrevista coletiva de apresentação para sua terceira passagem como treinador da seleção da Holanda, Dick Advocaat deixou claro que a Laranja, de fato, jogará tudo nas partidas que lhe restam, para alcançar (no mínimo, e se possível) a repescagem das eliminatórias europeias para a Copa de 2018. O auxiliar Ruud Gullit seguiu na mesma linha: “Nós não precisamos jogar bonito sempre”.

Talvez dê certo. Nos amistosos contra Marrocos e Costa do Marfim, a Holanda foi pouco brilhante, seguiu lenta, seguiu contando com os destaques para vencer (2 a 1 nos marroquinos, 5 a 0 nos marfinenses). Mas, se isso trouxer a segurança de que a equipe tanto tem sentido falta nos últimos tempos, já valerá um pouco a pena.