A derrota no clássico contra o Botafogo, dentro de São Januário, foi incômoda ao Vasco, mas poucos imaginavam as consequências que ela traria. De maneira um tanto quanto surpreendente, após a partida, o técnico Zé Ricardo pediu demissão dos cruzmaltinos. O momento do time é oscilante. A classificação milagrosa à Copa Sul-Americana, graças à vitória sobre a Universidad de Chile na Copa Libertadores, serviu para renovar os ânimos na Colina. Ainda assim, o desempenho no Brasileiro não animava e os raros triunfos mantinham os vascaínos na metade inferior na tabela. O revés ante os botafoguenses, entretanto, soa mais como um pretexto do que como um motivo.

Após 50 partidas à frente do Vasco, a avaliação sobre Zé Ricardo depende do ponto de vista. Há quem prefira criticar um treinador com suas manias, que insistiu em alguns jogadores que não vinham bem tecnicamente e pouco conseguiu proteger a defesa, entre tantas goleadas sofridas, sobretudo na Libertadores. Todavia, considerando a bagunça e as dificuldades nos bastidores vascaínos, Zé Ricardo também pode ser considerado um herói pelos resultados. Colocou o time na Libertadores com uma campanha segura no Brasileiro de 2017, avançou aos trancos e barrancos nas preliminares, ao menos levou o time à Sul-Americana. Ia trabalhando como dava.

Afinal, o clima conturbado do Vasco minou várias vezes as possibilidades de Zé Ricardo. Na virada do ano, precisou lidar com o bombástico processo eleitoral em São Januário e todas as incertezas que vinham com ele. Conviveu com desmanche, conviveu com a falta de pagamentos, conviveu com outras vendas importantes no meio da temporada. Precisou tirar leite de pedra de um elenco claramente limitado, em que alguns jogadores importantes também se machucaram – e, bem, não se nega, ele também insistiu em outros que não dariam em nada. Mas, dentro das perspectivas, e dentro de um mercado de treinadores que não apresenta tantas opções, continuar com Zé parecia mesmo a melhor alternativa. Até que ele não quisesse mais e rompesse sua dedicação.

“O Zé Ricardo solicitou demissão. Alegou problemas pessoais. Perdemos um grande profissional. A partir de hoje o Zé Ricardo não é mais treinador do Vasco. Vamos conversar para buscar o substituto. Não temos nenhum nome na cabeça ainda. Provisoriamente vai assumir o comando o Valdir Bigode”, declarou o diretor de futebol Paulo Pelaipe, após o clássico. “Ele achou que era o momento de sair, de abrir espaço para outro profissional. Tentamos demovê-lo, não tínhamos interesse que ele saísse. Era uma posição definida por ele, que achou que era a melhor solução. Fomos pegos de surpresa, não tivemos qualquer de conversa nesse sentido até então”.

A decisão de Zé Ricardo pode, é claro, ter sido norteada por questões pessoais. Mas havia também um claro desgaste por tudo o que suportou durante os últimos meses, tanto ao sustentar o elenco ante o turbilhão vivido na presidência, quanto ao administrar as próprias insatisfações dos jogadores. Era ele quem tentou unir as duas pontas da corda rompida quando os salários não caíam e havia a ameaça de uma debandada. E ainda viu a situação sair de seu controle na polêmica foto postada antes da partida de La U, o que certamente não o agradou pelo atrito desnecessário criado com a torcida. Fazer o time jogar e conquistar resultados era apenas uma parte de seu trabalho, diante de tudo isso. O aproveitamento de 52% dos pontos disputados no período é até satisfatório.

Zé Ricardo certamente terá mercado para seguir a carreira em outro lugar. É um treinador com seus defeitos, mas ainda assim consegue preservar sua imagem apesar dos pontos negativos no Vasco. Pode muito bem arranjar um novo emprego em breve. Pior é a situação do próprio Vasco para encontrar alguém que ocupe a lacuna. Valdir Bigode será o interino, enquanto as discussões sobre um possível substituto se desdobrarão pelos próximos dias. O problema é arranjar um nome que deseje abraçar a bomba neste momento. Será preciso controlar, além dos entraves internos e das questões salariais, também as críticas a parte do elenco, limitado por si. E isso sem contar com a importante liderança de Martín Silva, que se juntou à seleção uruguaia para disputar a Copa do Mundo. Zé Ricardo, apesar de tudo, ainda parecia um porto seguro aos cruzmaltinos.