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Saint-Denis até quis um clube, mas percebeu que não precisava para ter sucesso

Definir as cidades-sede da Copa do Mundo em um país como a França não é das tarefas mais difíceis. Não há tantos problemas com logística ou diferenças regionais tão marcantes. Além disso, poucos países do mundo possuem seus clubes de elite tão bem distribuídos pelo mapa. Há 24 anos não existe uma cidade com mais de um clube no Campeonato Francês. Para o Mundial de 1998, se quisessem, os franceses poderiam apenas escolher os clubes contemplados com as reformas de seus estádios. E, bem, foi o que fizeram. Com a exceção de seu grande palco do torneio, erguido em uma cidade que sequer tinha futebol, quando mais um clube.

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Saint-Denis é uma das principais cidades da região metropolitana de Paris. Ainda assim, por mais que as autoridades tenham tentado atrair de início um time para lá, o novo estádio precisou ser sustentado de maneira diferente dos demais. Acabou dando certo. Logicamente, o contexto é bastante diferente dos elefantes brancos que se prometem para a Copa de 2014. Nenhuma das cidades brasileiras candidatas a ter um estádio inútil possuem o potencial de eventos de Paris. Ainda assim, o Stade de France serve de exemplo para qualquer país que queira construir um estádio verdadeiramente nacional e aproveitá-lo muito além do futebol.

O nascimento da casa do esporte na França

A ideia de construir um grande estádio na França foi um dos trunfos do país na candidatura como sede da Copa de 1998. É verdade que, quando foram escolhidos, os franceses não tiveram uma concorrência tão pesada assim. A Suíça foi retirada da disputa, para não haver concorrência entre mais de um país europeu. E a França superou com certa tranquilidade o Marrocos: 12 votos a sete na eleição realizada pelo Comitê Executivo da Fifa, em 1992. Michel Platini deixava de ser o técnico da seleção francesa, eliminada na primeira fase da Eurocopa, apenas para coordenar a organização da competição ao lado de Fernand Sastre.

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Era o sinal verde para que o Stade de France começasse a sair do papel. O estádio tinha sido concebido para receber a final da Copa, com capacidade para 80 mil lugares, todos cobertos. Afinal, nenhum dos outros palcos pré-selecionados pelos franceses para sediar o Mundial, mesmo após a reforma, atenderiam os requisitos da Fifa. Mas não era apenas para a decisão que o estádio serviria. Em um país no qual o futebol e o rúgbi têm bastante popularidade, o Stade de France também se tornaria a casa das seleções francesas, bem como palco das finais dos principais torneios das duas modalidades. Além disso, o projeto incluía uma pista de atletismo ao redor do campo, ampliando seu escopo de competições.

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Por ter nascido de um plano do poder público para sediar a Copa do Mundo, o ônus da construção do Stade de France seria do governo. Era o primeiro estádio a ser bancado pelo Estado desde a reforma do Estádio Colombes, preparado para receber os Jogos Olímpicos de 1924 e também palco da final da Copa do Mundo de 1938. Para atenuar os custos no bolso do contribuinte, ao menos, o governo francês buscou uma parceria público-privada para pagar as obras. Em valores atuais, o Stade de France custou € 364 milhões, 48% financiados pelos grupos Vinci e Bouygues – que, em contrapartida, ganharam a concessão do local até 2028.

O local escolhido para a construção do Stade de France, óbvio, era o entorno de Paris. A concentração populacional na região metropolitana da capital, com aproximadamente 20% dos habitantes da França, tornava muito maiores o apelo sobre a ocupação e a viabilidade financeira. Discussão maior era apenas sobre a região em que o estádio seria levantado. Houve pressão de autoridades ligadas ao Partido Socialista para que o local fosse Melun-Senart, distrito carente a sudeste de Paris. Pesou a vontade de Jacques Chirac, então prefeito da capital, que levou a obra para Saint-Denis, município que havia se tornado um deserto industrial e, segundo os planos dos políticos, passaria por uma revitalização com o estádio.

Os benefícios do novo estádio a Saint-Denis

Ao norte de Paris, Saint-Denis foi uma importante cidade para a monarquia durante a Idade Média e se tornou um dos centros da Revolução Industrial na França. Já a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, o crescimento do município se intensificou, com a instalação de diversas empresas em seu território. Entretanto, o período de transformação foi interrompido de maneira brusca nos anos 1970, com a crise do petróleo. Destino de muitos imigrantes, a região passou a ser assolada pelo desemprego e pela falência de muitas fábricas.

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As tentativas do poder público em recuperar Saint-Denis já haviam começado na década de 1980, com a instalação da Universidade de Paris VIII. A grande recuperação, todavia, era planejada mesmo com o Stade de France. O estádio seria erguido no antigo terreno de uma das maiores indústrias de gás francesas. O local aumentaria não apenas o fluxo de torcedores, como também beneficiaria os pontos turísticos e o comércio popular que existe na região.

A pedra fundamental do estádio foi lançada em setembro de 1995. Apesar do tempo relativamente curto para finalizar o Stade de France, por conta do atraso na licitação das empresas que ganhariam a concessão, as obras foram realizadas com rapidez. Em tempos nos quais os prazos da Fifa não eram tão apertados assim, seis meses antes do Mundial o estádio estava pronto. E Saint-Denis ainda ganhou uma estação de metrô próxima ao estádio, que aumentava a integração da cidade a Paris.

Três candidatos, nenhum dono do Stade de France

A única questão era mesmo a ausência de um clube que tornasse o Stade de France sua própria casa. Apesar de o projeto já imaginar o uso do local para jogos importanets de futebol e rúgbi e para os grandes shows de Paris, havia uma séria dúvida se o edifício seria sustentável economicamente sem um time para mandar os jogos lá a cada 15 dias.

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O problema era achar uma equipe, uma qualquer. A temporada de 1990/91 foi a última em que Paris teve mais de um time na primeira divisão do Campeonato Francês. Desde então, o Racing de Paris enfrentava um grande retrocesso desde o fim dos investimentos do grupo Matra. O único representante era mesmo o Paris Saint-Germain, que vivia o período mais prolífico de sua história até então, dono de boas campanhas tanto nos torneios domésticos quanto nos continentais.

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O problema era o Parque dos Príncipes. O principal estádio de Paris também tinha passado por reformas para a Copa do Mundo, consumindo dinheiro público da prefeitura de Paris. Não era de interesse do município ter um elefante branco, já que, a partir da inauguração do Stade de France, o local não receberia mais as partidas das seleções francesas e nem as decisões mais importantes. O jeito era segurar o PSG. Além disso, o clube parisiense tinha como seu principal investidor o Canal+, também responsável por gerir os eventos esportivos do Parque dos Príncipes. Apesar das negociações iniciais, os planos de fazer o time mudar de estádio foram por água abaixo rapidamente.

Em 1996, o Saint-Leu tentou se aproveitar da falta de um dono do Stade de France. O clube da cidade vizinha de mesmo nome mudou-se para Saint-Denis e passou a se chamar Saint-Denis Saint-Leu Football Club, anunciando sua pretensão de se tornar “um grande clube com vocação europeia”. Porém, o investimento esperado com a transformação nunca veio e, em meio a problemas financeiros, os alviazuis foram rebaixados até mesmo na terceira divisão. Acabaram desistindo do estádio. Pouco tempo depois, o Red Star ainda manifestou sua intenção de tomar posse do Stade de France. Só que o clube, o principal da capital até a década de 1970, caiu para a terceira divisão e também teve seus planos negados.

O sucesso do Stade de France na Copa

A primeira partida realizada no Stade de France aconteceu em 28 de janeiro de 1998. Com a presença de diversas autoridades políticas, incluindo Jacques Chirac (que havia deixado a prefeitura de Paris para assumir a presidência), França e Espanha deram o pontapé inicial. Sob os olhares de 79 mil torcedores, a honra de anotar o primeiro gol foi de Zinedine Zidane, garantindo a vitória dos Bleus por 1 a 0. Uma semana depois, seria a vez de a seleção francesa de rúgbi inaugurar o campo, vencendo a Inglaterra por 24 a 17 em um amistoso. O palco da final do Mundial passava por seus dois primeiros grandes testes, ainda que seu gramado não estivesse nas melhores condições – também por conta do frio.

Mesmo antes do início do Mundial, Saint-Denis já havia recebido a decisão da Copa da França e a Copa da Liga Francesa, assim como do Top 14, o Campeonato Francês de Rúgbi. Durante a Copa, foram cinco jogos da fase de grupos (incluindo a abertura, entre Brasil e Escócia) e outros quatro dos mata-matas, com pelo menos 75 mil espectadores em cada um deles. No dia 12 de julho, a consagração do Stade de France e de Zinedine Zidane, com a vitória da França por 3 a 0 sobre o Brasil na decisão da Copa. Sem quaisquer problemas, o estádio cumpria a sua missão.

Um estádio sem clube e, ainda assim, sustentável

Mesmo sem uma equipe que tomasse conta do Stade de France, não se tornou difícil de ocupá-lo com frequência, para garantir o lucro das empresas concessionárias e também beneficiar os arredores do local. E o impacto em Saint-Denis foi praticamente imediato. A cidade passou a contar com um plano de reestruturação urbana a partir de 2001, que inclui o investimento em transportes, serviços públicos e a reorganização de diferentes áreas do departamento de Seine-Saint-Denis. Economicamente, os ganhos foram grandes, ainda que culturalmente não tenha acontecido um grande investimento no entorno.

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Desde 1998, foram 75 jogos da seleção de futebol (26 por eliminatórias da Copa do Mundo e da Eurocopa) e 63 do time de rúgbi (incluindo a maioria dos compromissos pelo Six Nations, uma espécie de Eurocopa anual da modalidade), média de mais de oito eventos por ano no estádio envolvendo as equipes nacionais. O estádio também tornou-se palco de quatro finais anuais das duas modalidades, assim como de partidas importantes do Stade Français e do Racing Métro, os dois grandes times de rúgbi parisienses. Também há uma etapa por ano da Liga de Ouro / Liga Diamante, o circuito internacional de atletismo.

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Além disso, o Stade de France passou a receber as principais turnês musicais que seguiam para a capital francesa. O estádio já havia sido construído com o propósito de ser multiuso e recebeu seu primeiro grande show duas semanas depois da final da Copa de 1998, com os Rolling Stones. A partir de então, foram mais 70 eventos do tipo no local, com o recorde de 215 mil presentes. Especialmente depois de 2008, a média de shows chega a mais de oito por ano. O suficiente para bancar as contas e girar a economia de Saint-Denis.

Dos grandes eventos, só faltaram as Olimpíadas

Com um estádio de primeira linha à disposição, era natural que a França passasse a receber outros grandes eventos esportivos depois da Copa do Mundo. Foram duas finais da Liga dos Campeões, em 2000 e 2006, assim como a decisão da Heineken Cup de 2010 – a versão de rúgbi do principal torneio de clubes da Europa. Embora a Copa das Confederações de 1997 não tenha acontecido na França (na época, o torneio não era usado como preparação da sede ao Mundial), a edição de 2003 teve seis jogos disputados no Stade de France. Meses depois, ainda houve a realização do Mundial de Atletismo. E, entre 2004 e 2006, o Stade de France recebeu até mesmo a Corrida dos Campeões, competição com grandes estrelas do automobilismo.

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No entanto, o principal evento sediado pela França desde a Copa do Mundo foi o Mundial de Rúgbi de 2007. Saint-Denis foi uma das 12 sedes do torneio, incluindo uma na Escócia e outra em Gales – em 1999, em edição distribuída pela Europa, o estádio também recebeu um jogo das quartas de final. Sete partidas foram realizadas na cidade, incluindo as duas semifinais e a decisão, vencida pela África do Sul. Até hoje, o Stade de France é o único estádio do mundo a ter recebido as duas finais mais importantes de mundiais de esportes coletivos.

Faltaram apenas as Olimpíadas. O Stade de France estava nos planos de Paris para ser o estádio olímpico da cidade nas candidaturas aos Jogos de 2008 e 2012. O próprio plano urbano de Saint-Denis entrava na jogada, já que boa parte das construções para o evento seriam erguidos na cidade. Na primeira tentativa, a capital francesa ficou atrás de Pequim e Toronto na eleição promovida pelo COI. Quatro anos depois, teve quatro votos a menos que Londres, a cidade escolhida.

O futuro do Stade de France

Apesar de a ideia inicial de ter um clube fixo no Stade de France, a questão já parece parte do passado. Mesmo o Paris Saint-Germain, o mais requisitado para se mudar ao estádio, deixou de ser incluído nos planos. Não à toa, a ideia dos xeiques catarianos para deixar o Parque dos Príncipes, caso o plano de reforma da velha casa não vingasse, era de construir um novo campo, e não se mudar para Saint-Denis.

A partir dos próximos anos, é possível que Saint-Denis passe a dividir um pouco mais os jogos da seleção francesa de futebol. Afinal, vários estádios do país passam por reformas atualmente, enquanto outros três foram ou estão sendo construídos no interior para receber a Eurocopa de 2016. Ainda assim, na temporada em que completará 18 anos de inauguração, o Stade de France será a principal sede do torneio de seleções: serão sete jogos lá, incluindo um de oitavas de final, um de quartas e a decisão.

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A dor de cabeça maior envolve mesmo com a seleção nacional de rúgbi. Há algum tempo os Bleus estão descontentes pela forma como são tratados pela concessionária do Stade de France, com prioridade nas datas apenas para o Six Nations. Além disso, o acordo é considerado financeiramente ruim pela federação nacional. Então, os dirigentes lançaram seus planos de construir o próprio estádio multiuso para o rúgbi. A obra orçada em € 600 milhões, com conclusão prevista inicialmente para 2017, seria construída em um antigo hipódromo na cidade de Évry, sul da região metropolitana de Paris – vista como mais interessante do ponto de vista cultural do que Saint-Denis.

Porém, a construção de outro grande estádio em Paris tornou-se motivo de debate público, desacelerando os planos – atualmente, na fase de preparação do solo e de escolha dos construtores. Há preocupações sobre qual o impacto do novo prédio para a região metropolitana, o projeto social e ambiental por trás da obra. Também os gastos públicos com o investimento nos arredores, em especial nos transportes, já que são estimados € 450 milhões apenas em empréstimos governamentais. E, claro, as consequências que o Grand Stade causaria ano Stade de France. Os franceses mostraram que é possível ter um grande estádio de maneira economicamente viável, mesmo sem um clube. Não querem, agora, contar com dois elefantes brancos que dividam atenções e sejam usados apenas parcialmente.

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