Jupp Heynckes contou uma anedota deliciosa nesta sexta-feira, antes da rodada decisiva da Bundesliga. O treinador estava no elevador, quando um casal de idosos também entrou. Ao ver a bolsa do veterano, a senhora perguntou, sem imaginar com quem puxava assunto: “Ah, você torce para o Bayern?”. Ao que o técnico respondeu, sem revelar sua identidade: “Sim, mas é claro!”. Mal suspeitava ela que aquele senhorzinho, que poderia ser seu colega na hidroginástica ou uma companhia para o chá, se tornaria no dia seguinte uma das pessoas com mais títulos na história da Bundesliga. Após a vitória sobre o Augsburg, que definiu a conquista, Heynckes não escondeu a emoção. Ao aplaudir e ser aplaudido pela torcida, ficou com os olhos bastante marejados. Mas demonstrou bem seu caráter, levando Franck Ribéry e Arjen Robben diante da massa, apontando aos craques para que fossem igualmente exaltados. Gigante que engrandeceu outros gigantes.

A conquista do Bayern neste sábado é a oitava de sua carreira. Iguala o mestre Udo Lattek, seu comandante nos tempos de Borussia Mönchengladbach. E também Mehmet Scholl, Oliver Kahn, Bastian Schweinsteiger, Phillip Lahm e Franck Ribéry – os três últimos, fundamentais em seu sucesso como treinador. O diferencial de Heynckes, aliás, se concentra justamente nesta dualidade: ninguém experimentou tamanho sucesso em duas fases distintas de sua vida profissional. O antigo artilheiro ergueu a Salva de Prata quatro vezes como jogador, todas pelo Gladbach. E faria o mesmo como técnico, quatro vezes campeão, todas pelo Bayern de Munique. Lenda de ambos os clubes e, definitivamente, um dos maiores da Bundesliga.

Heynckes disputou 13 temporadas da Bundesliga em seu período como atleta. Surgiu no Borussia Mönchengladbach, seguiu ao Hannover 96 e retornou aos Potros para marcar época. Entre 1970/71 e 1977/78 faturou quatro títulos em oito possíveis. E isso em um tempo no qual tinha a concorrência do Super Bayern de Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Sepp Maier, Paul Breitner e outros mitos. Na primeira conquista, em 1970/71, despontou como goleador dos alvinegros, autor de 19 gols em 33 partidas. Liderou o time que se sagrou bicampeão nacional, dois pontos acima dos bávaros. Tinha ao lado outros ídolos do Bökelbergstadion, entre eles Günter Netzer, Rainer Bonhof, Berti Vogts e Herbert Wimmer. O jovem atacante ainda pôde aprender um bocado sob as ordens do aclamado Hennes Weisweiler, comandante do Gladbach naquele momento. O sucesso do matador, aliás, o levaria à seleção. Foi fundamental na conquista da Euro 1972, atuando na ponta, e também estaria presente no título da Copa de 1974.

Nas três temporadas seguintes ao título de 1971, o Bayern dominou a Bundesliga. Mas a resposta do Borussia aconteceu a partir de 1974/75, com um esquadrão no qual Heynckes já tinha se firmado como uma das grandes lideranças. Na primeira temporada, em um ano fraco dos principais concorrentes, os Potros sobraram na tabela. Heynckes foi o máximo goleador do campeonato, com 27 tentos, faturando a artilharia pelo segundo ano consecutivo. Depois, em 1975/76, o Gladbach se sagrou bicampeão. E confirmaria o tri em 1976/77, em corrida acirradíssima pela Salva de Prata. Treinador no primeiro destes três títulos, Weisweiler seguiu ao Barcelona em 1975, mas os Potros buscaram outro comandante histórico para o seu lugar: justamente Udo Lattek, um dos responsáveis pela máquina do Bayern. Sob o seu comando, os alvinegros também montariam a engrenagem perfeita, com as adições de Uli Stielike, Allan Simonsen, Hans-Jürgen Wittkamp e outros grandes. Heynckes seguia como um atencioso aprendiz, além de matador implacável.

A última temporada profissional de Jupp Heynckes como jogador, por muito pouco, não culminou no tetra da Bundesliga – o que seria um feito inédito. O time perdeu a taça apenas no saldo de gols, para o rival Colônia, treinado por Hennes Weisweiler. O atacante seguia em grande forma e acumulou notáveis 18 gols em 21 partidas, cinco deles anotados na rodada derradeira, em massacre por 12 a 0 sobre o Borussia Dortmund que acabou não sendo suficiente. Aos 32 anos, de qualquer maneira, o ídolo já tinha o seu destino definido. Por sua voz de comando e sua capacidade de analisar o jogo, logo se tornou assistente técnico de Udo Lattek. E em julho de 1979, substituiu o mestre, tornando-se treinador do Gladbach com apenas 34 anos.

Os primeiros oito anos de trabalho no Bökelbergstadion não frutificaram tanto na Bundesliga. Em um delicado processo de renovação, os Potros passaram a frequentar o meio da tabela, até se estabelecerem entre a terceira e a quarta colocação em meados da década. O maior sucesso do novo comandante viria na Copa da Uefa, vice-campeão em sua primeira temporada, derrotado pelo Eintracht Frankfurt na decisão de 1980. Heynckes só teria o gosto de reerguer a Salva de Prata quando mudou de cores e foi para o antigo lado inimigo. Em 1987, assumiu o Bayern de Munique. E depois de um vice para o Werder Bremen de Otto Rehhagel, chegou ao bicampeonato em 1988/89 e 1989/90. Aquele não é dos times mais comentados fora do país. Ainda assim, importante até para ajudar a seleção alemã no tricampeonato mundial. Klaus Augenthaler, Olaf Thon, Jürgen Kohler, Stefan Reuter e Roland Wohlfarth eram algumas das referências da época.

Vice em 1990/91, Heynckes terminou demitido no início da temporada seguinte, diante da sequência ruim do clube. Uli Hoeness classificaria aquela como a “pior decisão” de sua carreira como dirigente. Depois disso, o treinador seguiu uma caminhada peregrina. Teve seu auge na Espanha, principalmente à frente do Real Madrid, vencendo a Champions de 1997/98. Já na Bundesliga, exceção a uma curta passagem pelo Eintracht Frankfurt, se restabeleceu apenas a partir de 2003. Passou períodos no Schalke 04 e no Borussia Mönchengladbach. Aposentado por dois anos, voltou a trabalhar como interino no Bayern em 2009, dirigindo o time por cinco jogos após a demissão de Jürgen Klinsmann. Reabriu suas portas no mercado e assumiu logo depois o Bayer Leverkusen, com o qual emendou uma série de 24 rodadas de invencibilidade e foi vice-campeão em 2010/11. Para que, enfim, retornasse de vez ao Bayern.

E por mais que a primeira temporada tenha sido decepcionante, com três vice-campeonatos em 2011/12, Hoeness não cometeria o erro pela segunda vez. Jupp Heynckes iniciou a atual dinastia do Bayern, com a tríplice coroa em 2012/13. Depois de 23 anos, o veterano teve o gosto de receber a Salva de Prata, se tornando já naquele momento o treinador mais velho a conquistá-la. Foi uma campanha irrepreensível dos bávaros, somando 91 pontos, ainda hoje recorde histórico da liga. Acumularam 29 vitórias, marca também inigualada, assim como o saldo positivo de 80 gols – com 98 marcados e apenas 18 sofridos. Apesar da maneira como acabou preterido em sua transição por Guardiola, parecia um grand finale na Bundesliga. Mas teria mais.

O que Jupp Heynckes conseguiu nesta edição do Campeonato Alemão não deixa de ser incrível. Que se pondere a falta de competitividade dos concorrentes, não se nega a maneira como o veterano reergueu a equipe. Voltou para vencer 18 de seus primeiros 21 compromissos na Bundesliga. Não alcançará uma pontuação fantástica como aquela de 2012/13, até pelos tropeços com Carlo Ancelotti. Ainda assim, têm um aproveitamento pessoal que se aproxima daquela campanha. E não se nega a grandiosidade de uma conquista que chega com cinco rodadas de antecedência. A oitava de Heynckes, que que o coloca entre os indivíduos com mais títulos na história. São 1.033 partidas na liga, em uma trajetória insuperável.

A façanha de Jupp Heynckes nesta Bundesliga, além do mais, não se mede apenas na frieza dos números. É necessário valorizar o lado humano do que proporcionou o treinador. E fica evidente a maneira como o Bayern cresceu desde então. Os jogadores ganharam confiança e muitos deles aumentaram a sua produtividade. Veteranos como Franck Ribéry e Arjen Robben voltaram a render. Novatos como James Rodríguez e Corentin Tolisso se afirmaram. Mesmo que a rotação empreendida pelo comandante nem sempre agrade, ele sabe muito bem como gerir egos. Prepondera seu estilo firme e sem rodeios, que sabe ir direto ao ponto com os atletas, mesmo pertencendo a diferentes gerações.

Já do ponto de vista tático, se percebe também a melhora do Bayern de Munique. O estilo do treinador é bastante definido, com sua defesa bem protegida e o ataque vertical, que aposta na velocidade. Fazendo o simples, como em sua passagem anterior, emenda vitórias com uma facilidade tremenda. Os bávaros podem não exibir um futebol vistoso durante parte do tempo, e fizeram atuações mornas, apesar da sequência invicta. Ainda assim, quando o seu jogo se encaixa, o estrago é grande. Basta ver o que aconteceu com o Borussia Dortmund no último final de semana, naquele que possivelmente será o triunfo mais lembrado desta campanha.

Heynckes prefere botar os pés no chão. Não quer comemorar muito, porque, afinal, seu grande objetivo é outro: a Liga dos Campeões. Para alguém com seu espírito vencedor, a exigência sempre atinge o nível máximo. E as chances dos bávaros na competição são consideráveis, apesar da concorrência pesadíssima. Quem sabe, para chegar à final, o que não acontece ao clube desde 2013. Ou, melhor ainda, para (individualmente) conquistar o título pela terceira vez – o que seria outro recorde em sua carreira condecorada, se igualando a Bob Paisley e Carlo Ancelotti.

E mesmo que os quase 73 anos pesem sobre as costas, talvez este ainda não seja o final de Heynckes. O treinador indica que a passagem curta não deve se alongar, mas o Bayern parece empenhado em fazê-lo mudar de ideia e continuar por mais alguns meses. Sabendo de sua sede por vitórias, não há de se duvidar. Conhecendo seu currículo carregado de taças, é de se imaginar que as marcas possam se ampliar mais. Este é Jupp Heynckes, o homem que sintetiza as capacidades e as virtudes do futebol alemão. Um vencedor nato.