O futebol alimenta-se de grandes alegrias e também de grandes tragédias. Histórias sobre o que poderia ter acontecido, o que poderia ter sido, trajetórias interrompidas pela crueldade do acaso e circunstâncias que fogem ao controle. Poucas doem tanto quanto o desastre aéreo de Superga, responsável por dizimar o Grande Torino, um dos melhores times da década de quarenta. Dominou o futebol italiano e era a espinha dorsal da seleção. Nunca saberemos quantos feitos ainda poderiam ter alcançado.

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O líder era Valentino Mazzola. Mario Rigamonti, outro jogador do Torino, uma dia disse que Mazzola era metade do time, “e a outra metade é composta pelo resto de nós”. Meia-atacante elegante, é considerado um dos melhores jogadores do seu tempo e está no panteão dos grandes craques da história do futebol italiano. Uma semana depois de assinar contrato com o Torino, visitou a maternidade para dar boas-vindas ao seu segundo filho: Alessandro.

Não dá para medir com exatidão o legado do Grande Torino, por mais que a sensatez nos diga que foi enorme. A representação mais concreta é o filho de Valentino. Sandro Mazzola, 75 anos completos nesta quarta-feira, honrou a memória do pai cada minuto que esteve em campo e se tornou, na Internazionale, um daqueles jogadores que passam a carreira inteira em um único clube. Tornou-se uma lenda bicampeã europeia e tetracampeã italiana.

Tornou-se tudo que se esperava do filho do grande Valentino. Tornou-se um jogador de futebol digno do pai que tinha.

O filho de Valentino

Valentino Mazzola e o Grande Torino

A primeira lembrança de Sandro Mazzola é Bacigalupo. Quem? Valerio Bacigalupo, goleiro do Grande Torino no pós-guerra. Em entrevista ao Corriere, em fevereiro, recordou que entrou no estádio Filadelfia, antiga casa do Torino, de mãos dadas com o pai. A mão direita de Valentino balançava a esquerda de Sandro. A esquerda de Valentino estava sobre a cabeça do filho. Sandro cobrou um pênalti contra Bacigalupo. “Sacudiu os braços como fazia no campeonato. O gol era pequeno, e ele era enorme. Mas ele caiu para um lado, e eu coloquei a bola no outro. Corri o campo comemorando”, disse.

Difícil precisar quando isso ocorreu, ou se de fato ocorreu assim. Estamos falando da memória de uma criança. O certo é que foi em algum momento entre os sete anos que separaram o nascimento de um Mazzola, em 1942, e a morte de outro, em 1949. Esses sete anos foram todo o tempo que Sandro teve para passar com o pai. “Depois de Superga, fui raptado da companhia do meu pai. Nos meus sonhos, ainda brinco com ele”, disse, na entrevista ao Corriere.

Memórias breves e fortes. Os laços entre pai e filho eram fortes. Depois de Valentino se separar da mãe de Sandro, o garoto foi criado pelo pai e aprendeu muito. “Os fundamentos básicos são tudo para um jogador de futebol. Meu pai me ensinou o básico. Sempre vou dever isso a ele. Eu construí uma carreira sobre as habilidades que ele me ensinou. Eu tinha que me tornar um jogador de futebol. Não havia opção. Eu tinha que encontrar paz nos gramados e tentar me conectar com meu pai. Tivemos pouco tempo juntos”, afirmou, à Gazzetta dello Sport.

É comum que filhos de jogadores de futebol sejam influenciados pelo pai e sigam a mesma profissão. Não tão comum assim é que eles consigam alcançar um sucesso parecido.

Por que a Internazionale?

Curiosidade: Valentino nasceu em Milão e brilhou em Turim; Sandro nasceu em Turim e brilhou em Milão. Deu sorte, de certa forma. O peso de carregar o sobrenome do pai seria pesado demais, sem precisar ser exatamente com a mesma camisa. “Era difícil quando eu era jovem porque todos esperavam que eu tivesse o mesmo talento do meu pai. Mas eu não tinha as mesmas qualidades que ele. Os torcedores às vezes faziam comentários negativos sobre mim e era difícil lidar com isso. Foi tão ruim que eu até pensei em abandonar o futebol. Eu não era um jogador ruim de basquete e tive alguns testes no time do Milan. Joguei futebol e basquete por dois meses tentando decidir o que fazer. No fim, escolhi o futebol”, disse, ao site da Fifa.

A história que o levou à Internazionale começa com o ex-atacante Benito Lorenzi. “O Torino esqueceu-se de todos os herdeiros das vítimas de Superga”, afirma Sandro ao Gazza Mercato. “Minha mãe e meu irmão (Ferruccio, também virou jogador) voltamos a viver em Cassano D’Adda”. Cassano D’Adda é uma cidade da região metropolitana de Milão, onde nasceu Valentino. “Um dia ouvimos que aconteceria a inauguração de um clube da Inter na região, e que Benito Lorenzi  participaria. Sabendo que na área viviam os filhos do grande Valentino Mazzola, queria conhecê-los a todo custo. Ele adorava meu pai e era muito religioso. Pensou que, fazendo o bem aos filhos do grande capitão, Ele, lá no ceu, o faria vencer o scudetto“, afirmou.

Sandro e Ferruccio tornaram-se mascotes da Internazionale. “Eu e meu irmão ficamos sob sua proteção. Entrávamos no San Siro vestidos com o uniforme da Inter e sentávamos ao lado do banco de reservas”, contou ao Corriere. “Se a Inter vencia, Lorenzi fazia que nos dessem as 30 mil liras do bicho da partida”. O dinheiro ajudava muito a família da Mazzola e, assim, Sandro começou sua carreira na Internazionale.

Nas categorias de base, conheceu Giuseppe Meazza. A lenda interista era um dos treinadores e, segundo o site oficial do clube, “teve talvez a maior influência no desenvolvimento de Sandro, tanto como jogador futebol, quanto como ser humano”. Mazzola lembra, em entrevista ao Il Girono, de uma preleção de Meazza antes de um jogo contra o Milan: “Ele nos disse, fumando um dos seus Durbans: ‘Sabem, garotos, eu tenho uma mancha na minha carreira’. Nós, que o considerávamos uma lenda, respondemos em coro: ‘Qual?’. E ele: ‘Joguei seis meses no Milan. Agora, vocês têm que ir para campo e massacrá-los'”.

A estreia prática de Sandro Mazzola com a camisa da Internazionale foi em outubro de 1961, contra o Palermo. A estreia de fato foi em junho: aos 18 anos, fez parte do time de jovens que a Inter colocou contra a Juventus, na histórica goleada por 9 a 1. As duas equipes brigavam pelo scudetto. O confronto direto, em Turim, era decisivo, mas foi abandonado antes do fim por uma invasão de campo de torcedores da Velha Senhora. O regulamento deu a vitória por 2 a 0 para a Internazionale, mas a federação decretou que a partida fosse realizada em outra data.

Àquela altura, a Juventus já havia selado o título nacional e, em protesto, o presidente interista Angelo Moratti colocou o time Primavera em campo. Com Sandro Mazzola, autor do único gol da Inter, de pênalti. Este jogo também marcou a despedida de Giampiero Boniperti. Depois do jogo, Boniperti fez questão de trocar algumas palavras com Sandro: “Eu joguei com o seu pai na seleção nacional. Ele foi o melhor que eu já vi”.

Homem de um clube só

A estreia de Mazzola, no 9 a 1 para a Juventus, foi ao fim da primeira temporada de Helenio Herrera à frente da Internazionale. O pai do catenaccio ficaria em Appiano Gentile até o fim da década, com sucesso estrondoso: três títulos italianos e dois europeus. Promoveu a subida de Sandro para o time principal e lhe disse: “Daqui para frente, você é um jogador da Inter e eu vou transformá-lo em um grande atacante”. Profecia cumprida.

Mazzola fez dez gols em sua primeira temporada com a camisa da Internazionale. No total, somaria 116 em 417 partidas, muitas delas como capitão. Uma, em especial, foi o seu primeiro Derby della Madonnina. Em fevereiro de 1963, marcou o gol mais rápido da história de Internazionale x Milan. Precisou de apenas 13 segundos.

Além da Internazionale, Sandro Mazzola defendeu apenas a seleção italiana, pela qual foi campeão europeu de 1968 e vice mundial, no México, dois anos depois. A grande questão no time nacional era se ele conseguiria atuar ao lado de Gianni Rivera, uma dessas dúvidas que assolaram dezenas de técnicos de seleções.

Feruccio Valcareggi achava que não. Escalou Mazzola titular nas três primeiras partidas da fase de grupos e apenas na última, contra Israel, colocou Rivera em campo ao lado dele – no segundo tempo. No mata-mata, usou a estratégia de usar Mazzola no primeiro tempo e Rivera no segundo contra México e Alemanha. Somente na decisão contra o Brasil colocou os dois juntos em campo: a seis minutos do fim, quando a vaca já havia ido para o brejo.

Houve uma possibilidade real, porém, de a Juventus se tornar mais uma equipe honrada pelo futebol de Sandro Mazzola. Foi no final da temporada 1966/67, pouco depois da derrota para o Celtic na final da Copa dos Campeões. O ex-jogador relembra: “Era maio e eu estava saindo do treinamento em Appiano Gentile. Andei para o meu carro e percebi que havia outro estacionado ali, com placa de Turim. Um motorista saiu do carro, era a primeira vez que eu via um carro com telefone. Ele me passou para Gianni Agnelli, que marcou um café da manhã comigo”.

Na reunião, Agnelli falou sobre Valentino e o Grande Torino, preparando a oferta quase irrecusável: uma concessionária da Fiat, o que garantiria a Sandro uma boa renda mesmo depois da aposentadoria, e o dobro do salário. “Minhas pernas balançaram. Eu pedi um dia para pensar”, afirmou. Sandro buscou conselhos com a sua mãe Emilia. Depois de ouvir tudo, Emilia silenciou-se por um instante e explodiu: “Seu pai se reviraria no túmulo se ouvisse isso! O filho do capitão do Torino na Juventus! Rejeite!”.

Não se brinca com uma mamma italiana nervosa. Sandro rejeitou.

O ápice

Mazzola chegou a ser o segundo colocado da Bola de Ouro, prêmio de prestígio concedido pela revista France Football ao melhor jogador da Europa. Foi em 1971, quando liderou, como capitão, a Internazionale ao título do Campeonato Italiano daquela temporada, o único que Sandro conquistou sem Helenio Herrera. Ficou em segundo lugar, atrás de um tal de Johan Cruyff, o que não é demérito para ninguém.

O grande momento da sua carreira, porém, foi em 27 de maio de 1964. Era a final da Copa dos Campeões da Europa, em Viena. Mazzola havia feito um grande campeonato, marcando contra Monaco, Partizan e duas vezes no Borussia Dortmund. Foi um dos artilheiros, com sete gols. A Internazionale chegou à decisão para enfrentar o temido Real Madrid, já pentacampeão europeu. Ainda perfilavam de branco Gento, Di Stéfano e Ferenc Puskás.

Mazzola acabou com o jogo. Marcou duas vezes. Acertou um belo chute de fora da área e aproveitou erro de José Santamaría para entrar na área e tocar na saída do goleiro Vicente. A Internazionale conquistou o título europeu, que defenderia com sucesso no ano seguinte.

Após o jogo, Mazzola conversou com Puskas. Ouviu do craque húngaro tudo que um filho que precisa constantemente lidar com a sombra de um pai famoso quer ouvir: “Garoto, eu joguei contra o seu pai e você o deixaria orgulhoso. Pegue minha camisa”.