O Santa Cruz que dominou Pernambuco nos anos 1970 (Foto: Reprodução/Placar)

[Santa Cruz 100 anos] A década de ouro: domínio em Pernambuco e projeção nacional

Em 2010, a diretoria do Santa Cruz tinha o objetivo de chegar ao ano do centenário na primeira divisão, da qual se despediu em 2006 e para a qual ainda não conseguiu voltar. Alguns percalços, dois anos sem promoção, impediram que esse projeto fosse concretizado. Nos últimos anos, porém, o clube pernambucano, atual tricampeão estadual, voltou a se parecer um pouco mais com o que era nos seus dias mais gloriosos.

É fácil confundir o Santa Cruz com um time simpático que enche o seu estádio, mesmo nas divisões inferiores, mas que não incomoda ninguém. Esquecer que na década de 1970, incomodou tanto que venceu o Palmeiras de Ademir da Guia, o Flamengo, no Maracanã, e foi semifinalista do Campeonato Brasileiro. Deixar escapar que, regionalmente, começou em 1969 um domínio que só seria freado cinco anos depois.

É sobre esse período especial dos 100 anos de vida do Santa Cruz, que envolve também a inauguração oficial do Estádio do Arruda, que vamos falar nessa terceira parte do nosso especial que celebra o centenário do Cobra Coral.

A espinha dorsal

O Santa Cruz viveu um jejum respeitável na década de 1960. Foram dez anos sem conquistas entre o título pernambucano de 1959 e aquele que deu início à hegemonia que durou cinco anos, até 1973. A fórmula do sucesso envolveu alguns jogadores formados na base e, embora em meia década a rotatividade de jogadores tenha sido considerável, uma espinha dorsal que participou do pentacampeonato pernambucano.

Antes de se tornar um dos treinadores mais vitoriosos do Nordeste, com seis títulos estaduais, Givanildo de Oliveira era apenas Givanildo, o responsável por desarmar as jogadas dos adversários e iniciar as investidas ofensivas do Santa Cruz. Volante rápido, de bom passe, o olindense chegou em 1966, depois de se destacar nos campos de várzea da periferia da sua cidade natal.

Ao seu lado, contratado um ano antes do CRB, de Alagoas, estava Luciano Veloso, meia artilheiro e de muitos apelidos. Era chamado de Coalhada porque o seu cabelo black power e o bigodinho o deixavam parecido com o personagem de Chico Anysio. Seus 174 gols em 409 jogos transformaram-no na Maravilha do Arruda e no segundo maior artilheiro da história do clube.

Sem saber, com Luciano Veloso, o Santa Cruz havia contratado mais do que um armador que sabia fazer gols como poucos. Havia contratado, também, a mística. Um baita pé quente que, durante os seus 17 anos de carreira, quebrou três jejuns consideráveis de títulos: o de dez anos do Santa Cruz, em 1969, o de 12 do Sport, em 1975, e o mais famoso de todos, a fila de 23 anos do Corinthians que terminou nos pés de Basílio, em 1977.

Ele disputou 126 dos 131 jogos da campanha do pentacampeonato pernambucano, segundo levantamento do Diário de Pernambuco. Foi o mais participativo dos cinco títulos e também o maior artilheiro, com 69 gols, ao lado de Fernando Santana.

O time que foi semifinalista do Brasileiro em 1975. Diferente, mas ainda com algumas peças-chave

O time que foi semifinalista do Brasileiro em 1975. Diferente, mas ainda com algumas peças-chave

Fernando ignorou as restrições que seu pai tinha com o futebol, que naquela época ainda era visto como uma profissão inferior, e foi um dos jogadores mais importantes do Santa Cruz entre 1962 e 1973. No comando do ataque, fez mais gols que qualquer outro nos estaduais de 1969, 1970 e 1972.

À sua direita, havia Betinho, ponta que chegou do Botafogo apenas em 1971, mas nem por isso tem menos importância. É o jogador que mais vezes marcou no Estádio do Arruda com a camisa do Santa Cruz e o primeiro a balançar as redes da nova casa da torcida tricolor, inaugurada oficialmente com 65 mil lugares em junho de 1972, depois de uma ampliação que contou com a mão-de-obra e a doação da própria torcida.

No ataque, os dois tiveram a ajuda de Ramon, que começou a sua caminhada no futebol profissional no final do Pernambucano de 1969. No ano seguinte, já era mais utilizado e marcou seis vezes, uma delas na vitória por 2 a 0 sobre o Náutico que garantiu o bicampeonato. Em 1973, já era ídolo quando foi artilheiro do Campeonato Brasileiro, o primeiro de um time do Nordeste, com 21 gols, mais até que Pelé, que fez apenas 19.

O jogo do penta

Não é de hoje que os regulamentos do futebol brasileiro são completamente malucos. O Campeonato Pernambucano de 1973 teve três turnos. O pior time do primeiro foi eliminado do segundo. Os dois piores do segundo ficaram fora do terceiro. O Santa Cruz ganhou os dois primeiros, mas ainda assim precisou disputar um jogo-extra com o Sport, que foi o melhor time do último turno.

A partida foi na Ilha do Retiro, com público e arrecadação recorde na época. Foram 36.459 pessoas para uma renda de 227 mil cruzeiros. Ramon abriu o placar aos 7 minutos e repetiu o golpe aos 36 do segundo tempo. O Sport não teve nenhuma chance de ameaçar o pentacampeonato do Santa Cruz, como escreveu o Diário de Pernambuco do dia seguinte.

O Santa Cruz ditou as regras da peleja, dominando as ações de tal forma que somente aos 60 minutos é que Gilberto fez sua primeira defesa, em chute direto do zagueiro Lima. Tendo o escore a seu favor, dominando todas as ações, revelando excelente espírito de luta e marcando por pressão, o Santa Cruz não teve trabalho em chegar ao título, tendo inclusive cozinhado o jogo ao máximo, diminuindo o ritmo das ações e começando as jogadas outras vezes de sua defesa, com a pelota atrasada para o goleiro

Santa Cruz: Gilberto; Gena, Paulo Ricardo Antonino e Botinha; Erb, Luciano e Givanildo; Valmir (Zito), Ramon e Fernando Santana (Zé Maria).

Sport: Adeildo; Djair, Lima, Cidão e Marcos; Ronaldo (Meinha), Odilon e Draílton; Ditinho, Maranhão (Mário) e Ivanildo.

Fernando Santana, apaixonado pelo Santa Cruz, foi dispensado no final daquele ano e guardou rancor. Até hoje não gosta muito de falar sobre o seu período no Arruda. Não pode, porém, dizer que não deu o troco. Em 1974, assinou com o Náutico e ajudou o Timbu a continuar sendo o único clube hexacampeão de Pernambuco – de 1963 a 1968.

O atacante marcou o gol da vitória do Náutico sobre o Santa Cruz na decisão do segundo turno do estadual daquele ano. O alvirrubro ganhou as duas partidas por 1 a 0, em ambas com gol de Lima, e até hoje é o único que conseguiu ser campeão pernambucano seis vezes seguidas.

O orgulho do Nordeste

O Bahia havia feito boas campanhas na Taça Brasil e até conquistado a primeira delas, em 1959, mas, no Campeonato Brasileiro que surgiu em 1971, nenhum clube nordestino havia jogado uma partida de semifinal até o Santa Cruz enfrentar o Cruzeiro, no Arruda, em 7 de dezembro de 1975.

E por pouco essa campanha histórica não terminou na primeira fase. O clube pernambucano avançou com apenas um ponto a mais que o Goiânia, sexto colocado. Classificavam-se cinco em cada grupo. Por outro lado, o resto da campanha foi praticamente impecável.

Na segunda fase, os times do Grupo 1 enfrentavam os do Grupo 2 em turno único. O Santa Cruz jogou contra Fluminense, Cruzeiro, Corinthians, Atlético Mineiro, Palmeiras e América, à época um time forte no Rio de Janeiro. Ficou em segundo lugar no seu grupo, com cinco vitórias, quatro empates e uma única derrota, com a mesma campanha do Internacional, que somou mais pontos porque naquele torneio a vitória a partir de dois gols de diferença valia mais.

Seis das dez equipes da segunda fase passaram para a próxima e receberam a companhia de dois times da repescagem. O Santa Cruz, desta vez contra os times do próprio grupo, ganhou cinco jogos, empatou um, perdeu outro, e liderou a chave. Conseguiu o direito de medir forças com o Cruzeiro na semifinal.

O Arruda não estava lotado, mas quase 40 mil pessoas viram Fumanchu abrir o placar, de pênalti, para o time da casa, aos 32 minutos do primeiro tempo. O time do técnico Paulo Emílio, porém, não soube se defender. Zé Carlos e Palhinha apareceram como raios nas costas da defesa e viraram o jogo para o Cruzeiro. Fumanchu, novamente da marca do cal, empatou, antes de Palhinha, mais uma vez aproveitando a falta de atenção da zaga, fazer o gol da vitória dos mineiros.

Houve reclamações de impedimento nesse lance, mas, pelas imagens abaixo, parece que Palhinha estava mesmo em posição legal. Fica difícil creditar a derrota à arbitragem, principalmente porque o Romualdo Arppi Filho marcou dois pênaltis a favor do Santa Cruz, quarto colocado daquele nacional.

E teve mais

O Campeonato Brasileiro de 1975 foi o auge do Santa Cruz, mas não necessariamente os últimos dias vitoriosos daquela década. Foram mais três campeonatos estaduais, em 1976, 1978 e 1979, os dois primeiros com a ajuda do atacante Nunes, que depois brilharia com a camisa do Flamengo.

Levou também a Fita Azul, uma espécie de premiação de honra que a CBD concedia às equipes que ficassem invictas em excursões internacionais.  O time pernambucano ganhou a dele em 1980 com vitórias sobre as seleções do Kuwait, Bahrein, Catar, Dubai, Abu Dhabi, Romênia e clubes como Al Ain, Al-Hilal e Paris Saint-Germain, durante um mês de excursão, no ano anterior, pelo Oriente Médio e Europa.

O Santa Cruz foi rebaixado em 2006, em 2007, e ficou na primeira fase na Série C em 2008. Teve que disputar a quarta divisão em 2009. Ficou de 1995 a 2005 sem títulos estaduais. Atualmente, está longe daqueles dias de glória, mas disputa a Série B e é o atual tricampeão pernambucano. O presente e o passado do clube são mais do que suficientes para convencer a garotada que o Cobra Coral é um gigante do Nordeste que está em fase final de reconstrução.