O centenário do Santa Cruz está sendo comemorado em um momento em que a sua torcida acredita firmemente que os piores dias da história do clube já ficaram para trás. Sobre eles, já escrevi aqui. No entanto, ficam no ar algumas perguntas. Depois da tempestade, o que esperar da bonança? E mais importante ainda: quais são os riscos do tempo voltar a fechar pelas bandas do Arruda?

Nas últimas seis temporadas, o objetivo do Santa era bem claro: fugir do inferno e sobreviver às suas chamas. Para os mais entusiasmados, 2014 continua sendo parte desta trajetória e o final feliz ficaria reservado para o retorno à elite do futebol brasileiro, em pleno ano do centenário, ainda que o desfecho sonhado originalmente fosse disputar a Série A já no ano das celebrações. Se o tetracampeonato pernambucano vier de brinde, ninguém acharia ruim, obviamente.

Tamanho otimismo não é de todo enganoso. Na Série B de 2013, a Chapecoense, equipe de bem menos peso no cenário nacional, aproveitou o embalo do acesso conquistado no ano anterior (e o nível mediano da concorrência) para repetir a dose e pegar uma via expressa rumo à primeira divisão. O modesto Icasa quase fez Juazeiro do Norte viver o mesmo sonho. Na esperança de cumprir roteiro semelhante, o Santa vai seguindo um bom preceito: manter uma base vencedora e reforçá-la de forma pontual.

O fato da camisa tricolor pesar mais do que a dos clubes citados faz com que a sua candidatura ao acesso imediato seja vista de forma mais respeitosa, mas também que carregue uma boa dose de pressão. Ainda mais no emblemático “ano do centenário”, que tem gerado mais decepções do que alegrias futebol brasileiro afora. O torcedor coral tem mesmo que sentir que o clube é grande demais para a Segundona. Mas precisa reconhecer que a sua estrutura atual não está à altura de suas tradições e ambições.

Para quem andou pelos porões do futebol nacional nos últimos tempos, é recomendável cautela. Firmar-se sem sustos na parte de cima da tabela da Série B já significaria um recomeço digno. Há sim a obrigação de pensar alto e os exemplos de Chapecoense e Icasa são animadores, mas há também o outro lado da moeda. O Paysandu, outro clube que está comemorando o seu centenário esta semana, não conseguiu se segurar na Segundona, após anos na mesma árdua batalha pela redenção que o Santa enfrentou.

Em 2014, sai de cena o tricolor que tinha a obrigação de passar o carro em cima de equipes menores e volta aquele que tem a responsabilidade de encarar rivais de tradição e, em alguns casos, até mesmo maior poder financeiro. O estadual será um bom momento para o clube adaptar-se ao seu novo status. Com o Náutico montando um time modesto, no ano seguinte a uma campanha pífia no Brasileirão, e o Sport se reconstruindo após a apressada demissão do técnico Geninho, o Santa entra no Pernambucano com um certo favoritismo, o que não vinha acontecendo de forma muito declarada, mesmo depois de iniciada a trajetória do tri.

Descontada a questão da preparação física ainda estar longe do ideal, as primeiras semanas desta temporada servem de alerta: não basta confiar na manutenção de uma base, ainda há muita coisa a aperfeiçoar no funcionamento da equipe. Na Copa do Nordeste, apesar da classificação às quartas de final, o clube teve dificuldades para se impor mesmo contra os reservas do Vitória da Conquista, o lanterna da chave. E tudo ficará mais complicado daqui em diante, já que o regional será disputado de forma intercalada com o Pernambucano.

Novas pendências

Mesmo se as coisas continuarem funcionando em campo e o Santa retornar rapidamente à Série A, o que pode evitar que um novo rebaixamento venha logo em seguida? Aí está um problema que também aflige os seus grandes rivais. A desastrosa campanha do Náutico no Brasileiro de 2013 deve ser relativizada, tendo em vista que, além do abismo financeiro entre o alvirrubro e os do Sul e Sudeste, houve também uma total falta de planejamento e capacidade de gestão. Mas a realidade para equipes de estados como Pernambuco, Bahia e Santa Catarina é a seguinte: não há espaço para erros na montagem do time. Qualquer deslize implica no perigo real e imediato de rebaixamento.

Com as cotas de TV sendo negociadas de forma individual, competir financeiramente com clubes de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul será sempre impossível. Resta aos clubes nordestinos buscar outras formas de se tornarem competitivos. Revelar jogadores, identificar talentos na região, estabelecer filosofias de jogo bem definidas e manter as contas em dia (contrastando com as gastanças desenfreadas e irresponsáveis dos clubes mais endinheirados) são alternativas que devem deixar de ser vistas como melhorias e passarem a ser encaradas como necessidades.

O Santa precisa melhorar em tudo isso, assim como os seus vizinhos, mas também na questão do faturamento. O presidente do clube, Antônio Luiz Neto, sempre bradou que o maior patrocinador da cobra coral é a sua torcida, como forma de inflamar a massa tricolor a comparecer regularmente ao estádio do Arruda. Grandes bilheterias, no entanto, não serão suficientes para sustentar o clube que tem a ambição de voltar a frequentar a elite do futebol nacional. É injusto continuar jogando no colo dos torcedores toda a responsabilidade.

Pressionado pela mudança do Náutico para a Arena Pernambuco (por mais que até aqui a relação entre alvirrubros e o palco da Copa seja de muita frieza e péssimos resultados esportivos) e pelos planos de remodelação da Ilha do Retiro, a ideia de reformar o Arruda e transformá-lo em “Arena Coral” deve ganhar corpo nos próximos anos. Outro ponto em que o Santa está devendo em comparação aos seus maiores adversários é na questão do centro de treinamento. O clube até tem um, o CT Valdomiro Silva, mas se encontra sucateado a ponto de nem receber mais as visitas do time principal. Enquanto isso, Náutico e Sport têm CTs que serão utilizados por seleções estrangeiras durante a Copa do Mundo.

Existe uma negociação em andamento para que um grupo de investidores construa um shopping onde hoje fica a sede social do clube e, em troca, modernize o Arruda, o CT Valdomiro Silva e levante de uma vez por todas as estruturas do novo CT, que ganhou o nome de Rodolfo Aguiar, dirigente do clube durante os áureos anos 70. Para que o acordo seja fechado, o Santa Cruz precisa parcelar todas as suas dívidas com o Governo, pois só assim terá certidões negativas para firmar negócios deste porte.

Dormindo com o inimigo

Nos anos 70, o Santa adotou uma forma bastante moderna e democrática de administração, com a formação de um colegiado. Aos poucos, este expediente foi sendo deixado de lado, na medida que o clube foi caindo na mão de figuras centralizadoras, que usavam o clube em proveito próprio, muitas vezes com aspirações políticas. Ou seja, nada muito diferente do que se vê pelo Brasil. Para a instituição coral, as consequências foram devastadoras. Anos de péssimas gestões trouxeram não apenas decepções esportivas, mas a acumulação de dívidas. Não foram raras as vezes que rendas de bilheteria acabaram penhoradas por oficiais de justiça, ainda no calor da partida.

Para quem recebe a visita constante de cobradores, um bom começo é não desperdiçar oportunidades de ganhar dinheiro para liquidar as dívidas. Por exemplo, o Santa poderia ter um departamento de marketing que exista de verdade e não apenas no nome de um diretor. Às vésperas do centenário, o clube não foi sequer capaz de lançar produtos comemorativos, os quais os torcedores estão ansiosos para adquirir. Só na noite de hoje, dias depois da festa, será lançado o novo uniforme do clube para a temporada.

No ano passado, quando Flávio Caça-Rato aparecia o tempo todo na mídia e alcançava o status de “ídolo cult” nas redes sociais, foi o jogador quem teve de tomar a iniciativa de lançar uma linha de camisas com o seu nome, sem que o Santa ganhasse nada por isso, ainda que as suas cores nela estivessem estampadas. Quem também lucra com a marca do Santa Cruz sem que nada seja revertido para o clube é a maior torcida organizada do clube, a Inferno Coral.

Seus líderes têm trânsito livre com o presidente Antônio Luiz Neto, que declarou esta semana que o clube e a organizada mantêm “uma relação independente e harmoniosa”. Será mesmo independente? O presidente da torcida chegou a sentar-se à mesa da diretoria durante a coletiva que marcava o retorno de Carlinhos Bala, em 2012. Será mesmo harmoniosa? No ano passado, cerca 50 membros da Inferno Coral invadiram um treinamento para “conversar” com o então treinador, Sandro Barbosa, que balançava no cargo. Não houve violência, felizmente, mas nada justifica tamanha liberdade para intimidar um profissional do clube.

O que o Santa Cruz ganhou com toda esta intimidade? Três jogos sem mando de campo na Copa do Nordeste de 2014, depois que marginais da organizada tricolor entraram em confronto com marginais de uma organizada do CRB, em Maceió. Além do prejuízo financeiro (a projeção é de que o clube deixou de arrecadar aproximadamente R$ 1,2 milhão), o prejuízo histórico: o jogo do último domingo, contra o Bahia, que marcaria o centenário do clube, não teve como palco o Mundão do Arruda lotado, sendo realizado no acanhado Lacerdão, em Caruaru.

Nada que abalasse o carinho do presidente coral, que até emprestou as dependências do clube para uma festa da organizada e foi pego de surpresa quando questionado sobre a pintura que ela deixou nos muros do ginásio do clube. Pintura que levava o nome da torcida e não do clube, assim como acontece com a maioria dos gritos de guerra entoados nos estádios. Antônio Luiz Neto, que entrou para a história como o presidente que tirou o clube de uma grande enrascada, pode também ficar marcado pela passividade com que lida com a organizada, quando poderia defender os interesses do clube e da imensa maioria de sua torcida, a exemplo do que vem sendo feito no Palmeiras e, principalmente, no Cruzeiro.

No seu aniversário de cem anos, além de festejar sua história e sua inegável capacidade de sobrevivência, o Santa tem algumas sérias reflexões a fazer. Se o torcedor coral continuará sendo “o principal patrocinador do clube”, como seu presidente adora repetir, não serão apenas os resultados em campo que servirão de recompensa pela dedicação dispensada. Se já ficou estabelecido que o Santa Cruz “nasceu e vai viver eternamente”, é preciso garantir que as festas do bicentenário, tricentenário, quadricentenário e afins não sejam marcadas apenas pelo alívio de escapar do pior, mas também pelo orgulho de ter alcançado o que de melhor o clube pode conquistar no cenário nacional.

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