Santa Cruz de 1991, com o jovem Rivaldo

[Santa Cruz 100 anos] E se Rivaldo não tivesse ido para o Mogi Mirim?

Esse é um texto de ficção baseado em fatos nem sempre reais.

Segundo lugar no grupo 3, à frente de Guarani, Grêmio e Palmeiras. A campanha parou nas quartas de final, com derrota para o São Paulo. A participação na Copa São Paulo de 1992 mostrou que o Santa Cruz tinha talentos na base que poderiam recolocar o time na primeira divisão nacional. Por isso, quando Wilson Fernandes de Barros, presidente do Mogi Mirim, fez uma proposta para trocar os promissores Válber e Rivaldo por cinco jogadores, os pernambucanos não aceitaram. Os dois já haviam aparecido bem no time principal em 1991 e poderiam ajudar nas temporadas seguintes.

O objetivo era a campanha na Série B, disputada no primeiro semestre de 1992. O Santa entrou com força na competição. Rivaldo, jogando pela esquerda, e Válber, entrando no meio do ataque em alguns momentos, davam bons sinais. Leto era o jogador avançado pela direita, o que formava um trio ofensivo bastante rápido e habilidoso. No entanto, as estrelas eram Henágio e Sérgio China, ídolos da torcida. Com essa base, os corais passaram com facilidade pelas três primeiras fases. Caíram nas semifinais para o Paraná, mas não fazia diferença. O retorno à Série A estava garantido devido a uma mudança no regulamento, que promoveu os 12 primeiros colocados da Segundona.

O segundo semestre não foi tão feliz. O elenco passou por uma renovação, e alguns jogadores saíram. Válber, artilheiro da equipe na Série B, despertou o interesse de clubes de São Paulo e Rio de Janeiro. Acabou vendido ao Palmeiras, que recebera uma injeção de dinheiro da Parmalat e queria ter um companheiro para Evair. Com tantas mudanças, o Santa Cruz não fez um bom Campeonato Pernambucano e viu o Sport comemorar o bi.

Em 1993, o Santa Cruz apareceu com um time bastante diferente, já projetando a participação na Série A no segundo semestre. No gol estava Marcelo (atual téncico Marcelo Martelote). A dupla de zaga era Júnior Cordel e Paulo César. Mazo e Fernando ficavam no meio-campo, mas ninguém brilhava tanto quanto os dois atacantes. Washington e Rivaldo formavam a dupla ideal. O primeiro, centroavante experiente, multicampeão pelo Fluminense, e o segundo, rápido, habilidoso e criativo.

Sport (Betão, Moura, Sandro, Zinho) e Náutico (Cafezinho, Lúcio Surubim e Paulo Leme) estavam com equipes fortes, mas não havia como segurar aquele ataque tricolor. A Cobra Coral foi campeã em uma decisão relativamente tranquila contra o Náutico: vitórias por 2 a 0 e 3 a 1.

A boa fase se manteve no Brasileirão. O Santa ficou no Grupo C, que classificava duas equipes para uma repescagem antes de chegar à fase final e rebaixaria os últimos quatro. O Tricolor continuou com o ataque forte, mas a defesa atrapalhou. A equipe não conseguiu acompanhar o ritmo de Vitória, Remo e Paysandu, mas terminou na quarta posição e evitou o rebaixamento. Melhor ainda para a torcida: jogou o Náutico para a Segundona.

A presença da Cobra Coral na primeira divisão nacional era o prelúdio para o grande momento do futebol pernambucano. O Sport montou uma grande equipe, com Jefferson, Zinho, Chiquinho e Juninho, um garoto que desistira da faculdade de administração para tentar a sorte no futebol. O Santa Cruz ainda tinha Washington e Rivaldo, além do ídolo Zé do Carmo. Os tricolores confiavam no ataque que arrasara em 1993, mas não deu para segurar o Leão no estadual.

Naquele primeiro semestre, o Santa se dedicou mesmo à Copa do Brasil. A Rivaldo tomou as rédeas da equipe. Sob seu comando, os tricolores eliminaram Sergipe, Vasco, Atlético Mineiro e Grêmio, até chegar a uma histórica final nordestina contra o Ceará. Nas finais, Rivaldo fez três gols e Washington um nas vitórias por 2 a 1 e 2 a 1. Era o primeiro título nacional dos corais, igualando a marca do Sport com o Brasileiro de 1987.

A rivalidade ficou acirradíssima para o Campeonato Brasileiro. Foi um momento mágico do futebol pernambucano. O Sport teve um início discreto, mas fez uma grande campanha na segunda fase. Chegou a vencer o São Paulo bicampeão mundial por 5 a 2 na Ilha do Retiro, e todos ficaram de olho na dupla Juninho-Chiquinho. O Santa Cruz ficou no grupo D da primeira fase, e jogou União São João e Internacional para a repescagem. Na segunda fase, tiveram duelos épicos contra o Corinthians de Marcelinho Carioca e o Guarani de Amoroso e Luizão.

Quanto mais o Sport jogava, mais o Santa Cruz queria jogar. E o Brasil ficava de olho nos dois camisas 10 de Pernambuco. Quem era melhor, Juninho ou Rivaldo? O jogador coral era mais cotado, até por ser duas temporadas mais experiente, mas o rubro-negro é que teve a oportunidade de jogar as quartas de final, roubando a vaga do Bahia na última rodada. O Leão caiu diante do Palmeiras de Edmundo, Válber e Evair, e quem realmente comemorou foi o Náutico, que retornou à Série A após um duro duelo com o Goiás na Segundona.

A temporada de 1995 começou bem quente. O Santa Cruz investiu ainda mais, agora já montando seu time em torno do craque Rivaldo. O técnico era Fito Neves, que realizara grande trabalho no Vitória dois anos antes. O Sport se acomodou com a boa campanha do Brasileirão e não fez um bom estadual. O grande concorrente foi o Náutico do técnico Mauro Fernandes. O Tricolor ficou com o título após vencer as duas partidas da final contra o Timbu.

A Cobra Coral ainda teve a Libertadores. O clube sentiu o impacto de sua primeira grande competição internacional. Passou em segundo lugar de seu grupo na fase de grupos (atrás do Palmeiras), mas caiu diante do Olimpia nas oitavas de final em um jogo de arbitragem polêmica em Assunção.

No segundo semestre, começava a surgir uma tensão em Recife. Juninho e Rivaldo recebiam propostas de clubes mais ricos, mas Sport e Santa Cruz relutavam em liberá-los devido ao nível da rivalidade do momento. O futebol de Pernambuco era a grande novidade no cenário nacional da época, aparecendo como a grande força do Nordeste. Ninguém queria dar margem para o rival.

Os dois ídolos carregaram suas equipes para campanhas dignas no Brasileirão. Nenhum conseguiu se classificar para as semifinais, mas o Santa Cruz terminou na sexta posição, sua melhor colocação desde o quinto lugar de 1978, e o Sport ficou em oitavo, a mesma do ano anterior.

Em dezembro, não deu mais para resistir. Rivaldo acertou com o Palmeiras, que precisava se recuperar depois de uma temporada sem títulos. Juninho foi para o Vasco. As duas transações foram confirmadas na mesma semana, que foi rotulada pelo Jornal do Commercio como “O fim da era de ouro do futebol pernambucano”.

O Santa Cruz se acomodou com os milhões da Parmalat. Fez contratações ruins, abrindo espaço para um grande domínio do Sport no estadual. Pior, foi rebaixado no Campeonato Brasileiro em 1997. Rivaldo foi o grande nome da campanha espetacular do Palmeiras no primeiro semestre de 1996, rapidamente recebendo oportunidade na Seleção e uma proposta do Deportivo de La Coruña. Três anos depois, já no Barcelona, foi eleito o melhor jogador do mundo.

Apesar do sucesso mundial, Rivaldo nunca desvinculou sua imagem do Santa Cruz. Sempre que o Barcelona cruzava com o Lyon na Liga dos Campeões, surgiam reportagens sobre os históricos duelo entre o atacante e Juninho, já conhecido como Juninho Pernambucano. E ambos sempre diziam que tinham muito orgulho de terem participado do que era tido como o grande momento do futebol de Pernambuco.

Em 2011, ambos decidiram voltar ao Brasil. Combinaram de retornar por Santa Cruz e Sport, para fazer um último grande duelo para a torcida de sua terra.

CLIQUE AQUI PARA VER AS OUTRAS PARTES DO ESPECIAL DOS 100 ANOS DO SANTA CRUZ