Equipe do Santa Cruz de 1917 (Divulgação)

[Santa Cruz 100 anos] A um passo da eternidade

“O Santa Cruz nasceu e vai viver eternamente”. A frase é de Alexandre de Carvalho, um dos fundadores do clube que completa cem anos neste dia 3 de fevereiro de 2014. As imponentes palavras faziam-se presentes em uma placa afixada no hoje abandonado largo da Santa Cruz, local de fundação da instituição homônima, a qual foi roubada há alguns meses e será reposta como parte das comemorações do centenário. O que poucos sabem que é a famosa frase tem uma origem um tanto quanto pueril: alguns fundadores queriam gastar o (pouco) dinheiro em caixa do recém-nascido clube para a aquisição de… uma máquina para fazer caldo de cana.

Pudera! Os onze adolescentes, todos com idades entre 14 e 16 anos, que batiam bola no pátio de uma igreja e resolveram fundar um clube jamais vislumbrariam o tamanho que o Santa Cruz ganharia com o passar do tempo. Felizmente, Alexandre falou grosso e a sede daqueles moços não falou mais alto que a sua ambição. Afinal, haja caldo de cana para refrescar e energizar os milhões de torcedores que o consagrariam como “o mais querido”, apelido mais afável de um clube que também atende por “o Terror do Nordeste”, nas demonstrações de orgulho de seus adeptos e em seu próprio hino.

O “time dos meninos”, como era conhecido na época de sua fundação, cresceu e apareceu. Viu o encarnado juntar-se às suas cores originais, o branco e o preto. Viu em Lacraia o seu primeiro jogador e treinador negro. O mesmo Lacraia desenharia o escudo que, com uma modernização aqui e outra acolá, segue na camisa tricolor até hoje. E só não consta como fundador do clube porque faltou à reunião daquele dia 3, afundado com a cara nos livros com os quais estudava para o vestibular de engenharia. Mas fez questão de assinar a ata mesmo assim. Ainda que ele fosse de classe média como os demais rapazes, a cor da sua pele bastou para que o Santa ganhasse popularidade entre as classes menos favorecidas, acostumadas a serem barradas na festa daquele tal “foot-ball”.

Mas para o clube arrebatar as massas de vez, precisava também de títulos. E foi então que o Santa Cruz viu o surgimento do seu primeiro grande craque. Tará, nascido no mesmo 1914 que o clube, foi o herói das três primeiras conquistas corais no Campeonato Pernambucano, entre 1931 e 33. É até hoje o maior artilheiro da história do Santa, com 207 gols. Outras 24 taças estaduais chegariam à sua sala de troféus, sendo três delas conquistadas em supercampeonatos, como o torneio ficava conhecido quando a sua decisão era feita em um triangular entre os três grandes clubes da cidade.

Quem um dia teve de incomodar a paróquia para bater uma bolinha viu também o surgimento de um “Mundão”. As chamadas “Repúblicas Independentes do Arruda” foram levantadas com a ajuda dos torcedores do clube, que doaram material de construção e até mesmo ofereceram-se como mão de obra. Numa época de construção de obras faraônicas por todo o país, o clube conseguiu empréstimos do poder público para construir um verdadeiro colosso, o terceiro maior estádio particular brasileiro. E que hoje, com o encolhimento da capacidade do Morumbi e do Beira-Rio, encontra-se quase em empate técnico com o estádio do tricolor paulista nesta estatística.

O Arruda veio em boa hora, pois foi naquela década de 70 que o Santa viveu a sua melhor fase. Entre 1971 e 1980, o Santa foi dominante dentro de seu quintal, conquistando seis títulos do Pernambucano. Os três primeiros fizeram parte da campanha do pentacampeonato consecutivo, que começara a tomar forma em 1969. E a boa fase do clube cruzou as fronteiras do estado. O escrete coral fez também grandes campanhas no Campeonato Brasileiro, com destaque para a de 1975, quando o Santa esteve a alguns minutos da final, na qual enfrentaria o Internacional de Falcão em jogo único, como anfitrião. E também para a de 1978, quanto o Santa caiu diante do próprio colorado, depois de se manter invicto por 27 jogos nas três primeiras fases do torneio.

O Santa Cruz nunca mais chegou tão longe. Porém, o agora quarentão estádio do Arruda acabou recebendo a celebração de dois títulos nacionais. Sim, dois. Em 2005, o Santa venceu a Portuguesa e até deu volta olímpica com troféu improvisado para comemorar o retorno à Série A e o título da Série B, momentos antes do Náutico fazer o impossível (ou o Grêmio fazer o impossível, dependendo do seu ponto de vista) na famosa Batalha dos Aflitos. O vice-campeonato veio de fato, mas a festa do título já acontecera de direito. Oficialmente, a primeira conquista nacional do clube veio a alguns meses do centenário. Ao bater o Sampaio Corrêa, o Santa levantou a taça da Série C, um título pequenino quando comparado à história do clube, mas essencial do ponto de visto simbólico, visto que marcava o seu renascimento, depois de anos de penúria, humilhação e incerteza.

E põe incerteza nisso. Por alguns anos, o Santa Cruz esteve muito mais próximo da extinção do que da eternidade. Atolado na lama da Série D, chegou a receber a extrema unção dos mais desesperados. Por linhas tortas, a cobra coral deu a volta por cima. A torcida, mesmo muitas vezes descrente, não arredou o pé do Arruda. E serviu de base de sustentação para o reerguimento do clube, que comemorou o mais inesperado dos tricampeonatos e devolveu a instituição a um lugar digno no cenário nacional. Sua paixão virou notícia mundo afora e ganhou simpatizantes por todo o Brasil, que a usam como exemplo para cornetar os seus estádios vazios em tardes de domingo muito menos sofridas.

Tudo isso não quer dizer que o futuro do Santa ainda não esteja envolto em grandes dúvidas e enormes desafios. Mas nós vamos deixar para comentar a esse respeito na próxima sexta-feira, porque hoje o dia é só de festa. É dia de brindar com champanhe, cerveja ou, por que não, com um caldo de cana fresquinho, saído da máquina.

Os rivais costumam tratar com escárnio o fato dos próprios torcedores do clube o chamarem de “Santinha”. Tudo uma questão de intimidade, demonstração de carinho de uma gente simples a quem o Santa Cruz não tem mais nada a provar, até porque já é de casa. E é bom que os torcedores dos demais clubes também se acostumem com a sua presença. Afinal, quem vai viver eternamente não há de sumir de nossas vistas por um bom tempo.

Ricardo Henriques, o Calhau, é blogueiro da Trivela e bisneto de Jorge Silva, ex-zagueiro do Santa Cruz

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