Não poderia fazer muito mais de uma hora desde que ele havia cobrado uma falta no contrapé do goleiro do Barcelona e decidido a final do Mundial de Clubes de 1992. Nos vestiários, em meio a garrafas de champanhe e gritos de alegria, Raí anunciou que se despediria do São Paulo na final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras, alguns dias depois, para jogar em um clube francês.

A história acabou não sendo exatamente assim e Raí ficou até o final da Libertadores do ano seguinte, antes de acertar com o Paris Saint Germain por U$ 2,7 milhões. A saída do capitão do time, sete vezes campeão pelo São Paulo e autor de 101 gols vestindo branco, vermelho e preto foi apenas a mais simbólica de uma equipe que soube se reinventar em pouco tempo. Apesar de muitas vezes falarmos do “São Paulo de 1992 e 1993″ como uma coisa só, o técnico Telê Santana usou um time muito diferente naquela vitória por 3 a 2 sobre o Milan, que completa 20 anos nesta quinta-feira e levou o bicampeonato mundial para o Morumbi.

O lateral direito Vítor, por exemplo, foi vendido para o Real Madrid que, a princípio, queria Cafu. “Tive proposta do Real Madrid, mas o Vítor foi no meu lugar como experiência”, contou o ex-jogador. “O São Paulo não queria me liberar antes do Mundial. Era para ter ido eu em vez dele. No fim, a negociação não deu certo e eu fiquei”.

O zagueiro Adílson havia se transferido para o Guarani, e Válber passou a formar a dupla de zaga com Ronaldão, o novo dono da braçadeira de capitão. Pintado foi para o Cruz Azul, do México. Dinho e Doriva tornaram-se titulares no meio-campo, reforçaram a marcação e deram liberdade para Toninho Cerezo atuar mais avançado, auxiliando Leonardo na armação para Palinha e Müller.

Cerezo fez muito mais que auxiliar Leonardo. Assumiu o vácuo deixado por Raí e, aos 38 anos, foi o principal jogador em campo e fora dele. Foi reserva de Juninho Paulista nas três partidas do Campeonato Brasileiro anteriores à decisão em Tóquio, mas Telê Santana não poderia ignorar o retrospecto dele contra o Milan. O ex-jogador de Roma e Sampdoria enfrentou o adversário daquela noite de 12 de dezembro 11 vezes e perdeu apenas duas.

“O Milan era uma grande equipe, que se compactava bem, então você tinha que usar a virada de jogo”, disse Cerezo. “Se a fizesse bem, pegava sempre um lateral no mano a mano com um ponta, então não daria tempo para a defesa do Milan se recompor”. A orientação do vovô do elenco foi seguida à risca. André Luiz dominou na esquerda e achou Cafu no outro lado de campo, atrás da linha de impedimento dos italianos. O cruzamento, “meio de voleio”, encontrou Palhinha, que fez o gol.

Cerezo ainda marcou o segundo e deu o lançamento para o terceiro, aquele que Müller fez de calcanhar, meio sem querer. A inteligência e a experiência do veterano foram fundamentais para o bicampeonato mundial, mesmo sem Raí, Adílson, Vítor e Pintado. E essas ausências não fizeram do São Paulo uma equipe necessariamente pior. “Era um time tão bom quanto, mas faço uma ressalva”, disse Ronaldão. “A (equipe) de 1993 era muito mais equilibrada tecnicamente. Ganhamos Recopa, Supercopa, Libertadores e Mundial. Não se chega a esse patamar sem qualidade”.

Os melhores momentos do bicampeonato mundial: