Quer ter um filho bom de bola? Marque a cesariana para 5 de fevereiro. Não é certeza de que nascerá um craque, mas as chances são grandes. Cristiano Ronaldo, Hagi, Tevez, Neymar, Edu Coimbra, Cesare Maldini. Todos marcados na história do futebol, todos nascidos no mesmo dia. Vá saber o que os astros ou qualquer outro tipo de força oculta têm a ver com tamanha coincidência. O que dá para afirmar é que a mística começou em 1910, com Francisco Varallo.

O argentino não é o nome mais famoso de todos esses citados. O atacante, inclusive, se tornou mais conhecido justamente por sua morte, aos 100 anos. Foi o último sobrevivente entre os jogadores que disputaram a Copa de 1930. O fato de estar em campo no Estádio Centenario naquele 30 de julho, aos 20 anos, ajuda a dar o devido destaque a Varallo. Mas não dimensiona o talento do craque idolatrado por Boca Juniors e Gimnasia.

Nascido em La Plata, Varallo não demorou a despontar. A estreia do garoto aconteceu ainda em 1924, defendendo o Ferro Carril Sud, pouco antes de seguir ao 12 de Octubre, time onde também atuavam seu pai e quatro tios. Já em 1928, quase foi parar no Estudiantes. Chegou a disputar três jogos pelos pincharratas. E, mesmo sendo um defensor, impressionou ao marcar 12 gols. O problema é que os donos do 12 de Octubre eram torcedores do Gimnasia. E, além de melarem o negócio, armaram para que Varallo defendesse o clube que amavam.

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Não levou muito tempo para que Varallo emplacasse no Gimnasia. Em sua estreia, convertido atacante, o prodígio anotou nove gols na vitória por 9 a 1 do terceiro elenco. O suficiente para que se juntasse ao primeiro time. Em seu segundo ano, foi primordial na conquista do Campeonato Argentino de 1929, até hoje o único da história do clube. De virada, os triperos bateram o Boca Juniors na decisão, com aquele garoto entre os titulares no ataque. O sucesso com a equipe de La Plata também o alçou à seleção, convocado pela primeira vez em 1930 e já levado para a Copa do Mundo.

Varallo foi titular em quatro dos cinco jogos da Argentina na Copa. Não teve a importância de Guillermo Stabile ou Luis Monti, mas manteve seu lugar cativo com o técnico Francisco Olazar. O atacante pôde até mesmo deixar seu gol, na vitória por 6 a 3 sobre o México na fase de grupos. A única ausência aconteceu na semifinal, contra os Estados Unidos, quando uma lesão no joelho o afastou do time. Ainda assim, o novato forçou sua volta. Sentiu na pele a derrota por 4 a 2 para o Uruguai na decisão, diante de 93 mil olhares no Centenario – que, a seu ver, intimidaram seus companheiros e tornaram o título impossível. Lamentou especialmente a bola que acertou no travessão, quando o placar ainda era de 2 a 1 a favor da Albiceleste.

De volta do Mundial, Varallo foi incorporado pelo Vélez. Participou de uma turnê por diversos países das Américas, na qual o time acumulou 20 vitórias e apenas uma derrota em 25 duelos. Seu destino, contudo, já estava selado. Com o início do profissionalismo no futebol argentino em 1931, o atacante se tornou uma vedete no mercado. Acabou contratado pelo Boca Juniors por 8 mil pesos argentinos, o suficiente para construir a casa onde viveu pelo resto da vida. Não queria se juntar aos xeneizes, por gratidão ao Gimnasia, que o livrou do serviço militar. Mas foi com a camisa azul y oro que fez ainda mais história.

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Foram três títulos argentinos com o Boca. Pouco diante da fúria de Varallo para marcar gols e da parceria implacável que formou com Roberto Cherro. Tinha tanto moral que tornou-se amigo de Carlos Gardel. Maior artilheiro do país em 1933, manteve média de 0,87 gols por jogo pelos xeneizes. Foram 181 bolas na rede, que o fizeram o maior goleador da era profissional do clube até 2008, quando Palermo o superou. O atacante ainda conquistaria o Campeonato Sul-Americano de 1937 pela Argentina. Porém, naquela época, as lesões no joelho já o atormentavam. E acabaram por abreviar sua carreira em 1940, quando tinha 30 anos. Um desperdício para uma carreira que foi notável, mas poderia ter sido maior.

De qualquer forma, não é nada que diminua El Cañoncito. “Qual era meu estilo? Pegava a bola, driblava um ou dois e chutava de qualquer lado. Se entrava em campo e não metia um gol, não era Varallo. Fazia um gol e a torcida rugia”, declarou certa vez, em entrevista ao Olé. “O melhor que me aconteceu foi jogar no Boca e ser campeão. Para triunfar no Boca, é preciso ter sangue. Se não tem, tchau, está acabado”. Algo que não lhe faltou. As tantas homenagens que recebeu nos últimos anos de vida representam esse brio e essa qualidade em campo. E o colocam em um lugar de honra, à frente de tantos craques nascidos em 5 de fevereiro.