Na segunda-feira, após cada rodada do Campeonato Holandês, o perfil oficial do Ajax no Facebook mostra vários jornais holandeses, e a reação deles ao resultado do time na rodada. Um deles, o De Telegraaf (cá entre nós, qual mais?) estampava em letras gritantes: “O Ajax luta contra si mesmo”. E na análise imediatamente posterior ao jogo contra o Zwolle, o site da revista Voetbal International falava quase a mesma coisa: “[A falta de eficiência] foi precisamente ao que Frank de Boer se referiu quando disse que o Ajax só tem um concorrente sério ao título: ele mesmo”.

E as reclamações do técnico Ajacied não são mero fricote. Há pelo menos quatro rodadas a equipe vem jogando abaixo de suas possibilidades. Contra o Go Ahead Eagles, a defesa adversária fez bem seu papel, e só uma bola parada deu o 1 a 0 aos Amsterdammers. Ao visitar o Utrecht, no final de semana retrasado, a equipe cansou de perder gols no segundo tempo, além da falha de atenção da defesa que resultou no empate (pensando que houvera falta de ataque, Veltman deixou Steve de Ridder livre para driblar Cillessen e fazer 1 a 1).

Mas foram a 22ª e a 23ª rodadas que mostram haver algo de errado na Amsterdam Arena. Contra o Groningen, o Ajax abriu o placar, mas jogou preguiçosamente. Sofreu o empate e até correu risco de levar a virada, no início do segundo tempo. A melhora só veio quando vieram a campo Christian Poulsen e, principalmente, Sigthórsson, autor do gol da vitória. Mas na rodada passada, enfrentando o Zwolle, novamente a equipe permitiu o empate por 1 a 1. E novamente perdeu muitos gols no segundo tempo.

Se fosse só isso, bastava aprimorar os treinamentos de finalização que se resolveria o problema. Mas há outras indicações de que o Ajax pode jogar fora a liderança e o esperado tetracampeonato por seus próprios erros. O primeiro deles vem ao se observar estatísticas levantadas pelo jornalista Sander Ijtsma, do diário De Volkskrant, em seu blog. Ijtsma gosta muito de levantar dados sobre a ExpG (expectativa de gols), que pode ser levantada pensando na relação entre a taxa de eficiência (número de chutes, dividido pela soma dos chutes totais e dos chutes a gol) e a taxa de defesas de um goleiro.

Aí é que mora o perigo: quando o jogo está empatado em 0 a 0, ou 1 a 1, Ijtsma levantou o dado de que os adversários do Ajax têm, em média, 1,11 na expectativa de gols, quando as partidas estão empatadas. Evidentemente, é bom levar em consideração as variações do futebol. Nada impede que um time possa chutar muito sem levar o menor perigo ao goleiro. Mas o perigo de o Ajax levar gols numa partida é maior, segundo essa estatística. E é bem arriscado supor que Cillessen, o goleiro titular (que volta de lesão na 24ª rodada, contra o Heerenveen), seguirá tendo 95% de defesas durante um jogo.

Até porque a defesa do Ajax anda fragilizada. Nas laterais, Van Rhijn e Boilesen têm tendências claramente ofensivas. E Joël Veltman exibe uma inexperiência que ainda o leva a cometer erros bobos, daqueles que só um garoto ainda comete (problemas nos recuos de bola são os maiores). Fica pesado para Moisander e Cillessen, os melhores do setor, ter de segurar tudo sozinhos.

No meio-campo, Daley Blind ainda não conseguiu render como volante o que vinha rendendo como lateral esquerdo. Além de sempre cair para o lado onde está acostumado a jogar, anda tímido, avançando pouco. Pelo menos, aqui, as coisas são contrabalançadas pelo fôlego inesgotável de Thulani Serero e por Lasse Schöne, provavelmente o melhor jogador do Ajax nesta temporada.

Finalmente, as coisas também andam capengas no ataque. Apenas Kolbeinn Sigthórsson anda merecendo confiança maciça. Bojan nega fogo pelas pontas; Siem de Jong tem a temporada perturbada por lesões, o mesmo mal de Lerin Duarte; e Viktor Fischer caiu demais de produção, a ponto de andar frequentando mais o banco do que o campo nestas rodadas mais recentes.

A sorte do Ajax é ver que os rivais estão ainda mais inconstantes. Se parecia pronto para chegar e disputar a posição, o Vitesse sofreu duro golpe nas últimas três rodadas, caindo de segundo para quarto lugar, com dois empates (1 a 1 com o Feyenoord, 0 a 0 com o ADO Den Haag) e uma derrota (0 a 2 para o AZ). Sorte do Twente, que ganhara do Heerenveen por 2 a 0. Mas que perdeu para o PSV (3 a 2), mesmo conservando a vice-liderança. E que tinha tudo para diminuir a distância em relação ao Ajax para dois pontos, mas ficou no 1 a 1 com o Groningen, em jogo atrasado da 20ª rodada. Sorte do Feyenoord, que recuperou-se com duas vitórias, voltou ao terceiro lugar e ainda sonha com o título.

De todo modo, é pelos tropeços dos rivais que o Ajax ainda tem certo conforto na liderança do Holandês. Mas precisa tomar muito cuidado para não perder um título do qual parece próximo. A solução foi expressada claramente por Frank de Boer: “Não me preocupo com outras coisas, só temos de jogar melhor”. Bingo.