Conversas sobre o futuro do futebol brasileiro podem ser novidade para muita gente, mas aqui na Trivela a gente tem elas há pelo menos dez anos – e quem duvida disso pode dar uma olhada na capa da primeira edição da revista Trivela. O problema não é simples, não é de fácil resolução e nem existe um caminho claro para o futuro. Fingir que ele não existe, entretanto, como têm feito os atores mais importantes deste processo até hoje, é a única garantia de que nada nunca vai mudar.

Em 2014 tivemos Bom Senso e os 7 a 1 para acordar os sonolentos hipopótamos do nosso futebol – a saber, jogadores, clubes, CBF e Globo. Não a Globo como empresa de comunicação, mas a Globo como “dona” dos clubes, na medida em que sabe que é o dinheiro dela que garante que eles continuem existindo, e que ela faz uso desse poder da pior forma possível, a da chantagem, como fez no episódio em que dinamitou o Clube dos 13.

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Os jogadores não acordaram, e é injusto esperar que acordem. Uma parte deles acordou, e embora isto esteja longe de ser suficiente, é bom, e pode ajudar. Os clubes nunca vão acordar por um simples motivo: não existem “os clubes”. Existem pessoas que hoje mandam nos clubes, e que estão preocupadas exclusivamente com a próxima eleição destes clubes. Motivo idêntico ao que faz com que a CBF não se mexa.

Sobra portanto a Globo. Como dissemos acima, a dona do nosso futebol. A responsável por tudo o que nele acontece, de bom ou de ruim. Uma dona, hoje, ilegítima. Mas que poderia muito bem se comportar como dona legítima, e trabalhar para que esse futebol se torne algo melhor do que é hoje não só no curtíssimo prazo.

A Globo acordou, como mostra a matéria de Daniel Castro no UOL: “Em reuniões com os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, marcadas a partir da próxima quinta-feira (7), a Globo vai exigir melhor qualidade do futebol e fará um alerta: se os espetáculos não melhorarem e a audiência não subir, dentro de alguns anos o esporte deixará de ser interessante para a TV aberta.

A emissora apresentará aos dirigentes dos times um estudo que mostra que o futebol vem perdendo cerca de 10% da audiência a cada ano. Se continuar assim, em dez anos passará a ser um produto relevante apenas para a TV paga. Vai “morrer” na TV aberta, sua principal fonte de sustento atualmente.”

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Legítimo, penso eu, levantar o problema. Ilegítimo, porém, jogar o problema no colo dos clubes como se a Globo não tivesse sido parte deste problema desde sempre. Como se não fosse ela que desse adiantamentos enormes a dirigentes corruptos e incompetentes sabendo que o dinheiro não seria usado para melhorar o produto que ela exibe. Como se não fosse ela a responsável pela manutenção do status quo por meio da distribuição de dinheiro.

É bom, porém, que a Globo tenha acordado. E pode ser ainda melhor se ela deixar seu lado “negócios” se sobrepor a seu lado “influência política”. Se ela perceber que se continuar tratando o futebol sem encará-lo como negócio, em breve terá influência política enorme sobre um deserto. Se ela ajudar a tomar medidas como as sugeridas abaixo. Que são boas, sim, para o futebol brasileiro, mas que são, sobretudo, boas para o produto que a Globo tem, e do qual cuida tão pouco.

Maior isonomia na distribuição do dinheiro

Pode ser bacana ficar de bem com o Corinthians, com os corintianos, com o Flamengo e com os flamenguistas dando aos dois clubes uma parcela exagerada do dinheiro disponível. Pelo motivo óbvio: não adianta ter um – ou dois ou três – clubes lotados de craques, porque eles terão 19 jogos para fazer durante o ano, e ninguém se interessará por ver esse um clube lotado de craques jogando contra onze baguás. Basta ver o que acontece hoje com as audiências dos campeonatos Espanhol, modelo para o qual caminha o nosso com a atual distribuição, e Alemão, no qual prevalece uma distribuição menos cruel.

Incentivo financeiro à contratação de craques

Aqui vale um elogio a um campeonato ruim, e no qual o mecanismo que estamos propondo até pode não ser tão bom: a MLS. A MLS é ruim, seus jogos são ruins, seus times mais ainda. Mas ela tem craques. Porque os times são incentivados a terem craques. Tudo bem que, lá, isso não funciona, porque o time tem dois craques e nove baguás que não conseguem dar um passe, mas no Brasil isso é necessariamente diferente.

A Globo precisa incentivar os times a gastar dinheiro com craques. São os craques que trazem interesse para os campeonatos – ou alguém acha que a Costa Rica deu audiência similar à Itália na Copa do Mundo? São os craques que podem fazer o Brasileirão interessante para outros países. E não é difícil estabelecer esse incentivo. Basta separar parte do dinheiro disponível e carimbá-lo para isso. Seu time leva 20 dinheiros, e tem mais esses cinco aqui para contratar jogadores que estejam nesta lista aqui – a Globo pode até escolher quem entra na lista. Bom para o campeonato, para os clubes e para a emissora.

Uso da força política para tornar o calendário decente

Uma visão de curto prazo pode dar a entender que a boa audiência do Paulistão é uma boa para a Globo nos primeiros meses do ano. Só que essa boa audiência traz um custo para os grandes paulistas que é cobrado com juros do Brasileirão.

Os estaduais não são todos iguais, e nem devem assim ser tratados. São importantes em alguns estados, podem ser preservados em outro formato em outros. Mas não podem ter o tamanho que têm hoje, nem podem impor aos clubes o ônus que impõem hoje.

Uso da forca política para mudar a administração dos clubes

Há uma e apenas uma medida que pode mudar tudo no futebol brasileiro da noite para o dia: a responsabilização dos dirigentes. Em português claro: o presidente do clube de futebol tem que responder com seus bens pelas dívidas do clube. O clube não pagou, o governo toma os bens do dirigente. É assim com as empresas, não há porque ser diferente com os clubes.

É evidente que ninguém pode responder pelo passado, mas que se faça uma renegociação de dívidas decente agora, e que os dirigentes sejam responsáveis por essas dívidas. De início, já afastamos um bom número de aventureiros que deixará de se candidatar. Além disso, permite-se que os que querem trabalhar sério o façam sabendo que todos os concorrentes vão ser cobrados para que também trabalhem sério.

Uso da força política e financeira para obrigar os clubes a formarem uma liga

A CBF é uma entidade nefasta, e enquanto estiver sob sua batuta, o Brasileirão nunca será organizado empresarialmente, como produto. O mais interessante disso é o seguinte: todas as partes desta equação, mesmo as menos legítimas, saem ganhando se os clubes se organizarem para formar uma liga. A CBF, por exemplo, não precisa do Brasileirão para nada. Não é mais como era antigamente, quando podia simplesmente incluir ou excluir times do torneio em troca de votos ou influência política. A mina de ouro da CBF é a seleção, que pouco ou nada tem a ver com o Campeonato Brasileiro.

Para os clubes, a vantagem é evidente, e está explícita em muito o que está escrito acima. Uma liga pode se organizar melhor, se preparar melhor como produto, ter um calendário decente para jogadores e torcedores.

Finalmente, para a Globo, no primeiro momento, pode parecer que a existência de uma liga ameaça seu monopólio sobre nosso futebol. Essa é a visão de quem atualmente manda no esporte da Globo. Uma visão de negócios, porém, não tem como não enxergar a vantagem de negociar com uma liga ao invés de negociar com políticos mesquinhos e despreparados. Além disso, o que dá poder à Globo são o dinheiro e a audiência que ela tem, e que nenhum concorrente chega perto de ter. Por fim, é melhor ter uma influência baseada em coisas tangíveis sobre um campeonato decente, ou uma audiência mafiosa sobre um campeonato ruim? Parece evidente que a primeira alternativa é a melhor.

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Se a Globo está insatisfeita, pode mudar isso. Basta que alguém com poder na empresa se debruce sobre o assunto por cinco minutos. Sempre, porém, há a alternativa de se fingir de morto e jogar a culpa no colo de um “outro”. Confortável, mas, no médio prazo, fatal para o produto.