Hoje, já se pode dizer que aquele estigma do “corintiano, maloqueiro e sofredor” serve somente para embalar a torcida nas partidas do clube paulista. Afinal de contas, há tempos o Corinthians deixou qualquer complexo de inferioridade. Conseguiu títulos nacionais e internacionais. Mas não é exagero lembrar: se toda história tem um “mito fundador”, e se a fase de bonanças alvinegras teve um começo, este foi – e sempre será – o 13 de outubro de 1977. Naquela quinta-feira, o clube do Parque São Jorge deixava de lado o primeiro de todos os complexos: o aflitivo jejum de títulos estaduais. E começava uma segunda parte de sua história, mais alegre.

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Certo, pensando anacronicamente, era só um Campeonato Paulista. Mas naquele tempo em que o mundo parecia, sim, ter fronteiras, ganhar um estadual já era suficiente para trombetear a grandeza ao seu país. E por mais que a sua grandeza tivesse sido constituída ao longo da história – os três tricampeonatos estaduais; as conquistas no Torneio Rio-São Paulo; ídolos eternos como Cláudio Christovam de Pinho, Luizinho e Baltazar -, faltava algo ao Corinthians. O também incômodo tabu sem vitórias contra o Santos no Campeonato Paulista, que durara 11 anos, já era coisa do passado. Mas faltava o título, após o apogeu na conquista do estadual de 1954 (o “título do Quarto Centenário”).

E histórias dramáticas não faltavam para o Corinthians no Campeonato Paulista, desde 1954 – ou melhor, desde 6 de fevereiro de 1955, quando a última rodada do estadual de 1954 foi disputada. Histórias como a do campeonato de 1957: líder invicto até a penúltima rodada (ganhando a Taça dos Invictos, distribuída pelo jornal “A Gazeta Esportiva”, com 37 jogos de invencibilidade), perdeu para Santos e São Paulo os dois jogos finais, vendo o Tricolor de Zizinho e Canhoteiro ficar com o troféu em São Paulo. Histórias como a de 1961: o péssimo primeiro turno no Paulista, com sete derrotas em onze jogos, motivando o apelido de “Faz-me rir” ao time (citando um sucesso de rádio na época, da cantora Edith Veiga). Bem, pelo menos houve tempo de reagir até o sexto lugar naquele ano.

Histórias ainda piores, como a de 1969: a boa campanha foi duramente atingida por um acidente de carro na Marginal Tietê, matando de uma só vez o lateral direito Lidu e o ponta esquerda Eduardo, fazendo o Corinthians se abater. E o que dizer de 1974? Sabe-se lá por que, talvez pelos 20 anos redondos de jejum, chegar à final do Paulista naquele ano parecia um bom presságio de que “naquele ano, ia”. Até porque Roberto Rivellino, palmeirense convertido em corintiano, surgido na base em 1965, era um dos grandes craques do mundo naquele ano, e tinha tudo para enfim conseguir o título que tanto queria. Mas o Palmeiras, matreiro, experiente, brincou com o nervosismo corintiano. E o arquirrival frustrou um Morumbi com três quartos pintados de alvinegro: 1 a 0, jejum mantido e os dolorosos gritos de “Zum, zum, zum, é vinte e um/Zum, zum, zum, é vinte e um”.

1974 doeu mais ainda porque Rivellino recebeu a culpa de tudo aquilo (um pouco pela decepção da torcida, um pouco por excessivas críticas de jornalistas), e se cansou, preferindo mais paz no Fluminense, onde enfim conseguiria troféus na carreira. Era mais um dos craques que haviam fracassado no Corinthians, como Almir Pernambuquinho, Mané Garrincha, Ivair… mas a história continuava. E o vice-campeonato brasileiro em 1976, embora fosse mais uma derrota, já massageava o ego maltratado dos corintianos – até por causa da histórica semifinal contra o Fluminense, num Maracanã inesperadamente invadido por corintianos (fossem ou não ajudados por flamenguistas, botafoguenses e vascaínos). Já dava para esperar a redenção, mais cedo ou mais tarde.

Nem parecia que ela viria em 1977. Afinal, de craque mesmo, aquele time só tinha Palhinha, campeão da Libertadores no ano anterior pelo Cruzeiro. Mas havia muita gente fazendo sua parte. Como Tobias e Jairo, revezando-se com sucesso no gol. Como Zé Maria e Vladimir nas laterais, talvez os dois jogadores mais amados de todos os 107 anos de história do clube. Como Ruço, volante incansável. E como Geraldão e Luciano “Coalhada”, atacantes que não desistiam enquanto não finalizassem, fosse para longe ou nas redes. Sem contar mais gente que ajudava Palhinha no quesito técnico, como Givanildo, Basílio e Vaguinho.

Ainda assim, aquele time só embalou com o título do segundo turno, vencendo o Palmeiras na final, em 31 de agosto, e garantindo lugar no terceiro turno (formado por dois quadrangulares semifinais). No quadrangular, contra São Paulo e Portuguesa, o começo foi periclitante. E uma derrota para o Guarani – 1 a 0, no Pacaembu, em 21 de setembro de 1977 – deu origem à primeira anedota da virada para o título. Fala-se que Oswaldo Brandão, o “Velho Mestre”, técnico do time campeão de 1954 que voltara naquele 1977, trancou os jogadores no vestiário do “próprio da municipalidade”. Sequer deixou entrar Vicente Matheus, eminência parda, já um sinônimo de dirigente corintiano (no melhor e no pior sentido). E Brandão falou, entre o ameaçador e o paternal: “Vocês sabem o que precisam fazer, daqui por diante, né?”.

O Corinthians precisava vencer. E venceu o que restava no terceiro turno: 1 a 0 no Botafogo de Ribeirão Preto, 1 a 0 na Portuguesa, 2 a 1 no São Paulo, quadrangular semifinal vencido. Chegou à final, na qual tinha até menos técnica, nome por nome, do que uma Ponte Preta que tinha talvez o grande time de sua história: Carlos, Jair (futuramente Picerni), Oscar, Polozzi, Dicá… restava a raça e a pressão irrespirável da torcida corintiana, nos três jogos disputados no Morumbi.

Na primeira partida, um gol que simbolizou involuntariamente a raça: 1 a 0, com Palhinha dividindo a bola na área com Carlos, vendo-a bater no seu rosto e indo para as redes. E era para o título ter vindo na segunda partida: 146.082 pessoas (para sempre o maior público da história do Morumbi), domingo de sol, jornais estampando que era naquele 9 de outubro de 1977 que o jejum terminaria. Não foi. Pior: foi de virada, 2 a 1 para uma ótima Ponte Preta. Pior ainda: Palhinha sofrera uma lesão muscular e estaria fora do tira-teima. O roteiro de mais uma decepção estava traçado.

Naqueles quatro dias, entre a segunda e a terceira partida, ocorreu a segunda anedota. Oswaldo Brandão, técnico que sempre estava disposto a uma palavra de força, viu Palhinha, seu destaque. O diálogo: “Dá para jogar, Palha?” “Não dá, seu Brandão. Dói até para andar.” “Dá para andar, Palha? Você tem muita sorte de poder andar com dor. A minha dor nem pode sair da cama…” Brandão lembrava a dor que manteve privada: o filho Márcio Brandão estava com câncer, em fase terminal. A lembrança sutil bastou para que Palhinha fizesse o grupo todo prometer: não sairia do Morumbi, no 13 de outubro de 1977, sem o título. E como quem não queria nada, ainda na programação, Brandão olhou para Basílio e disse: “Com essa perna direita é que você fará o gol do título”.

Veio o 13 de outubro. E veio um jogo polêmico, com a expulsão de Rui Rei, destaque no ataque da Ponte, que para sempre dividirá opiniões. O gol demorava, demorava… a prorrogação parecia no horizonte. Até aqueles 36 minutos do segundo tempo, quando o corintiano viu algo para depois não ver mais nada: Zé Maria cobrando falta, Vaguinho desviando de cabeça na trave, Vladimir tentando cabecear (“Não posso errar de jeito nenhum”, foi o pensamento depois revelado por aquele que mais vezes jogou pelo Corinthians), Oscar tirando em cima da linha, e Basílio balançando as redes, no “mito fundador” de um novo momento na história do clube.

Naquele momento, Basílio pareceu aéreo. No vestiário, ouviu de um repórter que tinha entrado para a história. E perguntou, ingênuo: “História de quem? Do Fantasma ou do Tio Patinhas?”. Hoje, o camisa 8 já não é mais ingênuo. Guardando os caracteres do placar manual em sua casa – presente de um corintiano que estava no Morumbi naquela noite, dado muitos anos depois -, até hoje atendendo pedidos de fotos de corintianos, Basílio guarda no íntimo a gostosa certeza de que foi ele quem abriu uma fase mais alegre na história corintiana. Uma fase na qual o Corinthians ganhou algo que lhe vale muito – até mesmo na fase atual, em que precisa levar a sério a valiosa vantagem na liderança do Campeonato Brasileiro: a certeza de que é, sim, um time vencedor. Certeza que começou ali, por volta das 23h do 13 de outubro de 1977.