O Fluminense está numa situação delicada no Brasileirão: é o 18º colocado, com 43 pontos, e depende de uma vitória fora de casa contra o Bahia, mais tropeços de Coritiba e Vasco para escapar do rebaixamento. Um vexame para o atual campeão brasileiro.

Se para o torcedor do Flu a situação é tensa, os rivais estão aproveitando para tirar uma casquinha e recuperar uma questão antiga: a Série B que o clube deve desde os anos 90 e ainda não pagou. Beneficiado em 1996 por uma decisão que anulou o descenso naquele ano, o clube carioca acabou sendo rebaixado na tabela e de fato no ano seguinte. Depois, caiu para a Série C em 98, mas acabou campeão da terceira divisão em 99. Mesmo assim, foi parar no Módulo Azul da Copa João Havelange e acabou na primeira divisão em 2001 sem disputar a segunda.

Mas o Fluminense não é o único: vários outros clubes contaram com uma mãozinha para subir ou para não cair — apesar disso, permanece como o único a não ser rebaixado depois disso. Veja as histórias de viradas de mesa desde 1988, quando o acesso e o descenso foram instituídos no Campeonato Brasileiro.

O superlotado e confuso Brasileirão de 1993

Não dá para cravar que é uma virada de mesa, já que não houve uma decisão para beneficiar apenas um ou outro clube, mas a passagem do Grêmio pela Série B no início dos anos 90 coincide com uma série de alterações nos regulamentos e de critérios inusitados que acabaram favorecendo o clube gaúcho.

Depois de pífia campanha no Campeonato Brasileiro de 1991, com apenas 12 pontos em 19 jogos, o Grêmio ficou na penúltima colocação da primeira fase foi rebaixado, assim como o lanterna Vitória. Ambos os clubes disputaram a Série B de 92, que teve seu formato alterado no início daquele ano: aos 24 times que estavam definidos para a competição, seriam adicionados oito clubes indicados pelas federações sem representante.

As 32 equipes seriam divididas em quatro grupos regionais de oito. Em cada grupo, os três primeiros conseguiam o acesso para a primeira divisão do ano seguinte. Isso mesmo, nada menos que 12 subiriam, quase a metade dos participantes. A intenção da CBF era ter um Brasileirão maior no ano seguinte 1993 — também foi decidido que na primeira divisão não haveria descenso naquele ano.

Definidas as regras, o Grêmio não fez uma campanha brilhante –foi o terceiro colocado do grupo 4 da primeira fase e eliminado na etapa seguinte, ficando com a nona colocação geral–, mas suficiente para conseguir o acesso para o Brasileirão de 1993.

A coisa fica mais estranha agora. O regulamento do Brasileirão de 1993 não era nenhuma maravilha: os 32 participantes foram divididos em quatro grupos de oito. No entanto, nos grupos A e B, não havia descenso e três times de cada chave passariam para a fase seguinte. Já nos grupos C e D, os quatro piores de cada chave seriam rebaixados e apenas dois se classificariam.

O critério de divisão considerou apenas em parte o desempenho no ano anterior — ficaram nos grupos A e B os times do Clube dos 13, mais os Sport, Bragantino e Guarani, os três melhores colocados de fora da entidade no Brasileirão de 1992. Assim, o Grêmio, mesmo com a nona colocação na Série B, entrou em uma das chaves de elite, em que não poderia ser rebaixado — o tricolor gaúcho acabou ficando com a quarta colocação do grupo A (então, de qualquer maneira, não cairia). Ao mesmo tempo, Atlético Paranaense, Portuguesa, Goiás, Náutico e Paysandu, que estavam na primeira divisão, assim como todos os outros 11 times que subiram no ano anterior, corriam grande risco de jogar a Segundona do ano seguinte, já que metade dos times de cada um dos grupos C e D cairia.

Caso Ivens Mendes

Em 1997, surgiram denúncias de manipulação de resultados envolvendo Ivens Mendes, então presidente da Conaf (Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol). O caso nunca fui devidamente esclarecido: a Subcomissão da Câmara Federal encarregada de apurar o caso nunca chegou a concluir seus trabalhos e publicar um relatório; já na Justiça comum, não havia provas para incriminar os envolvidos, pois as gravações das supostas ligações de Ivens para Alberto Dualib, então presidente do Corinthians, e Mário Celso Petraglia, cartola do Atlético Paranaense, eram ilegais e, portanto, não podiam ser utilizadas.

Mesmo sem uma conclusão, a CBF decidiu cancelar o rebaixamento de Fluminense e Bragantino, os dois piores colocados no ano anterior. Assim, o Brasileirão de 1997 teve 26 clubes, dois a mais que em 1996.

Só que o Tricolor não soube aproveitar a chance que lhe foi dada. Com uma campanha novamente fraca — só quatro vitórias em 25 jogos –, o Fluminense ficou em penúltimo lugar em 97, a frente apenas do União São João. Sem virada de mesa, o Fluminense teve que jogar a Série B de 98. E foi mal, muito mal: apenas duas vitórias e 11 pontos nos dez jogos da primeira fase. Com a sexta pior campanha no geral, critério usado para definir o descenso, o Fluminense amargou mais uma queda e foi obrigado a disputar a Série C de 99 — competição em que o clube das Laranjeiras se sagraria campeão, conseguindo o direito de disputar a Série B de 2000.

Caso Sandro Hiroshi e Copa João Havelange

O problema é que a Série B de 2000 nunca aconteceu. A culpa disso é de todo o imbróglio do Caso Sandro Hiroshi, que envolvia a disputa entre Tocantinópolis, clube que revelou o jogador, e Rio Branco de Americana, time por onde Sandro passou antes de ir para o São Paulo — as investigações da imprensa ainda acabaram por descobrir a idade adulterada nos documentos do jogador, o popular “gato”. Botafogo e Internacional conseguiram na Justiça desportiva ganhar pontos em suas partidas contra o Tricolor do Morumbi, alegando que o clube paulista tinha inscrito Sandro de maneira irregular.

Os pontos (dois para o Inter e três para o Botafogo) foram suficientes para livrar os dois times do rebaixamento, empurrando o Gama para a degola. Sentindo-se prejudicado, o clube brasiliense acionou a Justiça comum, que acabou por proibir que a CBF organizasse o campeonato. A solução adotada pelo Clube dos 13, responsável pelo Brasileirão 2000, foi criar a Copa João Havelange, englobando clubes das três divisões. As equipes foram divididas em quatro módulos — Azul, que seria equivalente à primeira divisão; Amarelo, a segunda divisão; e Verde e Branco, divisões regionais da terceira — respeitando mais ou menos as regras do Brasileirão de 1999.

Sim, mais ou menos. Porque times que não deveriam jogar a Série A de 2000 foram incluídos no Módulo Azul. Podemos desconsiderar Internacional, Botafogo e Gama — sem resolver o Caso Sandro Hiroshi e em meio a uma guerra de liminares e recursos, era impossível determinar quem deveria ser rebaixado entre os três. Mas houve diferentes critérios entre os outros três rebaixados: o Juventude, que não tinha nada a ver com o rolo, foi mantido no equivalente à primeira divisão, enquanto Paraná e Botafogo-SP tiveram que jogar o Módulo Amarelo. Ainda mais estranhos são os casos de Bahia e América-MG, que não conseguiram o acesso na Série B 1999, e foram incluídos no Módulo Azul, e dele, o Fluminense, que tinha acabado de voltar à segundona e foi direto para o primeiro módulo.

Sem acesso nem descenso, os módulos da Copa João Havelange serviram de base para as divisões do Campeonato Brasileiro de 2001. Além dos 25 times do Módulo Azul, Paraná e Botafogo-SP foram incluídos para não haver injustiças, já que os outros rebaixados de 99 também foram mantidos. Além disso, o São Caetano, o surpreendente vice-campeão da João Havelange (e também vice-campeão do Módulo Amarelo da Copa JH, o equivalente à segunda divisão), foi incluído na Série A.

Portanto, além do Fluminense e a segunda Série B em débito, os outros times beneficiados com essa decisão foram Bahia e América-MG, que não precisaram conseguir o acesso numa segunda divisão para chegar à primeira, e Paraná, Botafogo-SP e Juventude, que não tiveram seus rebaixamentos de 99 concretizados.

Nova década, nova história

De 2001 até hoje, não tivemos viradas de mesa nos rebaixamentos para a Série B. Mesmo clubes como Palmeiras, Grêmio, Corinthians, Vasco e Botafogo caíram, jogaram e subiram na bola, sem decisões de cartolas, sem mudanças de regulamento, sem decisões na justiça. O descenso passou a ser encarado de forma mais natural e menos desesperada.

O caso do Fluminense ficou marcado porque o clube não caiu desde a última vez que foi beneficiado por uma mudança de regulamento, o que não ocorreu com Bahia, Bragantino, América-MG, Paraná, Juventude, Botafogo-SP e até o Grêmio. Por isso ainda se fala em “pagar a B”. E, se o Tricolor carioca está devendo uma passagem pela Segundona, não estaria sozinho nessa.