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Se os dirigentes alemães forem mesmo espertos, vão atrás de Klopp

Jürgen Klopp já deu diversas mostras de ser apaixonado por seu trabalho. As declarações do técnico do Borussia Dortmund são ótimas por sua espontaneidade, mas também pelo apreço que costuma demonstrar ao que faz. Some-se a figura aos resultados excelentes que vem acumulando nos últimos tempos e Klopp se tornou um dos treinadores mais cobiçados do futebol internacional. Com todos os méritos, diga-se. Manchester United e Barcelona, de comandantes tão contestados nos últimos tempos, foram os últimos a se interessar no alemão. Foram recusados. A razão? Comprometimento.

>>> Leia o perfil de Jürgen Klopp, escrito às vésperas da final da Champions de 2013

O primeiro a ser rechaçado foi o Barça, ainda no final de semana. “Ninguém precisa se preocupar. Ainda estou um pouco apaixonado por este clube e por como as coisas são feitas aqui”, afirmou. Dias depois, as especulações se tornaram mais fortes em torno do United, especialmente após a demissão de David Moyes. Outra vez, Klopp precisou repetir sua vontade de permanecer em Dortmund: “O United é um grande clube e tenho grande familiaridade com seus torcedores maravilhosos. Mas meu compromisso é com o Dortmund, não dá para romper com as pessoas”.

A relação de Klopp com o Borussia Dortmund traz à tona também a forma como ele tratava o Mainz, seu clube anterior, como a própria casa. “Eu deixei o Mainz depois de 18 anos e pensei: ‘Da próxima vez, trabalharei com um pouco menos de coração’. Disse isso porque nós choramos por uma semana. A cidade toda nos deu uma festa de despedida, que durou uma semana. Para uma pessoa normal, essa emoção é exagerada. Eu pensei que não era saudável trabalhar assim. Mas, depois de uma semana no Dortmund, foi do mesmo jeito. Encontrar isso por duas vezes, ser sortudo assim, é muito incomum”, disse o treinador, em entrevista ao Guardian em maio de 2013. “Assim como todo mundo que trabalha no Dortmund é torcedor do clube, assim também era em Mainz”.

Diante de tantas provas de carinho, é difícil imaginar que Klopp realmente deixará o Signal Iduna Park antes do fim de seu contrato, assinado até junho de 2018. Mesmo com os clubes mais poderosos do mundo lhe fazendo ótimas ofertas, o técnico permanece irredutível. Ainda assim, talvez haja uma proposta que amoleça o seu coração. Por que não convidar Klopp para ser técnico da seleção alemã? Uma grande sacada, que uniria a paixão de Klopp à mentalidade e à tradição do Nationalelf.

Klopp é técnico do Dortmund desde 2008 (Foto: AP)

Obviamente, levar Jürgen Klopp para a seleção não deverá ser das missões mais simples. Primeiro, porque é difícil que pudesse acontecer logo depois da Copa de 2014. Difícil imaginar que tanto a federação quanto o Borussia Dortmund cedessem o comandante por tempo integral, assim como Joachim Löw segue com vínculo até o final da Euro 2016. Segundo, porque é um técnico com enorme mercado entre os clubes, onde existe mais prestígio e se paga melhor. Não é à toa que José Mourinho ou Pep Guardiola nunca foram muito assediados por seleções. Mas, se Klopp pode ser diferente ao recusar gigantes do porte de Manchester United e Barcelona, por que não pode também ser a ponto de aceitar uma proposta da seleção da Alemanha? O ciclo depois da Copa de 2018 está aberto.

Por mais que Löw quebre a pecha de morrer na praia do Nationalelf e conquiste a Copa de 2014 ou a Euro de 2016, convenhamos, ele está longe de ser uma unanimidade. Vários pontos de seu trabalho são contestáveis, como o melhor encaixe dos bons jogadores que tem à disposição ou mesmo a renovação do elenco. A indecisão entre apostar nos novatos ou manter os medalhões, por exemplo, mais atrapalhou do que ajudou na derrocada na Euro 2012. Da mesma forma como o time foi inoperante na Copa de 2010. E o baile tático que Jorge Sampaoli deu no último amistoso preparatório da Alemanha, contra o Chile, deixou muitos cautelosos sobre a capacidade dos alemães no Mundial, por mais que o elenco seja de primeira linha.

Klopp seria um substituto para poucos reclamarem. Afinal, seu trabalho no Dortmund se alinha perfeitamente ao ideal do que precisa ser feito em uma seleção. Sabe muito bem formar jogadores e descobrir talentos; tem capacidade de extrair o máximo de seus atletas, o que é fundamental em torneios de tiro curto; possui conhecimento tático para encaixar novos jogadores no time e mantê-lo em constante aperfeiçoamento. Fora a vantagem de, ao invés de perder jogadores para o Bayern de Munique, Klopp poderá recuperá-los na seleção (brincadeiras à parte sobre o assunto, a tirinha abaixo é impagável).

Klopp

Acima de tudo, há a questão da paixão. Na maioria das vezes, os torcedores não são tão devotos de sua seleção quanto de seu clube. Uma figura como Klopp à frente do Nationalelf, contudo, faz crer que é possível ter um pouco desse fanatismo. O próprio treinador, que se apegou tanto ao sentimento de pertencimento no Mainz e no Dortmund, teria um novo combustível com o nacionalismo – um orgulho ressurgido no futebol principalmente com a Copa de 2006, depois das décadas de conotação negativa que esses termos tiveram, triste herança da Segunda Guerra Mundial.

Confiar em Klopp a longo prazo, por fim, também seria um resgate da tradição entre os técnicos da seleção alemã. Entre Otto Nerz e Berti Vogts, foram apenas seis treinadores ao longo de 72 anos. Cinco deles conquistaram pelo menos uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa. Verdadeiras lendas, como Sepp Herberger, Helmut Schön, Jupp Derwall e Franz Beckenbauer. A partir do final dos anos 1990, a rotação entre técnicos aumentou bastante, sendo que Löw, no cargo desde 2006, é justamente quem mais durou desde então. Klopp não poderia entrar para a lista desses mitos?

Talvez haja uma romantização exagerada da figura de Klopp – mesmo dentro dessas linhas de pensamento que vocês acabaram de ler. Ainda assim, se a mera ideia imaginada se concretizasse, não deixaria de ser um capítulo interessante no futebol alemão. Para os dirigentes da federação, fica a dica. Não custa tentar.

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