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Seedorf, o negócio surreal que ajudou a transformar a realidade do Botafogo

A cena vivida no Aeroporto do Galeão naquele dia 6 de julho parecia surreal. Há pouco mais de um ano e meio, Seedorf era recepcionado por mais de 2 mil botafoguenses, ensandecidos pelo astro que acabavam de ganhar. Ainda assim, alguns céticos praguejavam contra o negócio que parecia improvável. Afinal, por mais que o holandês já tivesse demonstrado sua abertura em vir ao Brasil, o que tinha atraído o multicampeão a um clube sem conquistas relevantes há tempos? A resposta veio dentro de campo.

Com a camisa alvinegra, Seedorf conquistou o Campeonato Carioca e recolocou o Botafogo na Libertadores após 18 anos. Sobretudo, ajudou a resgatar um orgulho que estava perdido havia algum tempo. O meia dá adeus à torcida alvinegra de cabeça erguida, ainda que muitos já lamentem sua ausência na Libertadores. Seedorf se vai como um grande ídolo do clube. Não no patamar de Garrincha, Nilton Santos ou Didi, maiores lendas do panteão botafoguense. Mas como um líder, alguém a ser lembrado com carinho pela torcida. E, diante de tantos craques que defenderam a Estrela Solitária, isso não é pouco.

Seedorf foi pioneiro em uma novidade no futebol brasileiro. Foi o primeiro jogador renomado do futebol europeu a encerrar a carreira no Brasil. Talvez tenha aberto um caminho percorrido cada vez mais vezes nos próximos anos, graças à renovação do poderio econômico dos clubes brasileiros. Mais do que a simples transferência, o veterano é um exemplo de sucesso. Tanto por seu profissionalismo quanto pelo bom planejamento feito pelo Botafogo para ter o craque. Se o clube não contará mais com o meia, será apenas por decisão pessoal.

Nesses 18 meses de futebol brasileiro, Seedorf impressionou. Primeiro, pela forma física que mantinha aos 37 anos. Depois, também por tudo o que continuava a produzir com a bola nos pés. A classe e o talento permaneciam intactos, por mais que a idade tenha chegado. Acabou o Brasileirão como um dos melhores do torneio, conduzindo os alvinegros a uma ótima campanha. Os problemas do clube foram parecidos com os de outros anos, perdendo força na reta final, mas com um final diferente ao conseguirem ainda alcançar o objetivo. E o holandês ajudou bastante nesta reação, sendo voz ativa dentro de campo.

Brazil Soccer Seedorf

E não foi só dentro de campo que Seedorf deixou sua marca. Fora dele, também teve presença marcante, principalmente ao expor os problemas do futebol brasileiro. Estendeu sua mão ao Bom Senso Futebol Clube e se queixou de alguns processos primitivos que ainda vigoram por aqui, como a falta de pré-temporada e de um planejamento decente dentro da maioria dos clubes. Comentários que deveriam ser ouvidos atentamente não apenas por terem sido ditos por um grande jogador, mas por alguém que tem um vasto conhecimento do funcionamento do futebol – e que, ainda bem, não se cansa de demonstrar isso.

Seedorf poderia ter mais alguns anos de carreira como jogador. A qualidade técnica e a dedicação permitiriam, sem dúvidas. A despedida acontece de maneira repentina, mas por pura questão de oportunidade. A crise do Milan deixou uma porta escancarada ao veterano, na qual ele queria entrar. A inteligência e a liderança fazem crer que, mesmo sendo um iniciante, o holandês possa fazer uma boa carreira como técnico, ainda que seja colocado logo na fogueira. Sua decisão plenamente compreensível. Ainda mais quando se olha para trás e se vê a carreira esplendorosa que percorreu durante 22 anos, por Holanda, Ajax, Real Madrid, Milan e Botafogo.

Ao Botafogo, resta repensar sua trajetória sem seu principal jogador. Por mais que os alvinegros estivessem cientes que a estadia de Seedorf acabaria em poucos meses, ela veio bem antes do esperado, em um início de temporada que se desenha bastante importante. No entanto, por mais que a Libertadores não dê tanto tempo para isso, a própria passagem do veterano deixou algumas lições quanto ao planejamento que serão aproveitadas pelo clube. Que, por sua parte, também pôde ensinar ao inaugurar uma ponte inédita entre os clubes brasileiros e os jogadores europeus.

Para relembrar, abaixo o vídeo da bela recepção que Seedorf teve no aeroporto: