O seu Deus é Jimmy Hendrix (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Seguidor de Hendrix leva o blues e o rock and roll às ruas de Salvador

SALVADOR - Alguns dias em Salvador e o visitante se acostuma a ouvir o batuque dos blocos de samba, o ritmo da capoeira e a alegria do axé. Faz parte da trilha sonora da cidade que tem cultura e música para qualquer canto que se olhe. Por isso, não espanta que os acordes de uma guitarra elétrica, rapidamente dedilhados por um barbudo sem camisa, conquistem a atenção dos pedestres que interrompem suas caminhadas pelo centro da cidade baiana para entender do que se trata.

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Sentado em um banquinho, com um chinelo no pé esquerdo e o outro descalço para apertar o botão do pedal que fornece a base da guitarra e a bateria, com uma bermuda verde clara e nenhuma camisa para esconder o excesso de peso, está José Eduardo Martins, um músico, um ex-sambista e o responsável por levar o blues e rock and roll às ruas soteropolitanas. O nome artístico é Zeduardo. O ritmo, uma mistura entre a música brasileira e os outros dois estilos. Algo que já foi feito, segundo ele, pela Tropicália e outros artistas. “Mas eu tenho um estilo próprio”, afirma.

Aos 57 anos, toca guitarra “há mais de 40”, mas não ganhava a vida com música até 1994. Sambava, morava em Zurique, e era sustentado pela esposa, uma suíça rica, quando teve uma epifania: viu Jesus Cristo. Pelo menos, o dele. “Estava entediado e vi o vídeo de Woodstock e até então não conhecia nem o Jimi Hendrix. Eu vi aquilo e apaguei. Quando acordei, estava na Bahia tocando blues em cima do Olodum”, conta. “Meu Jesus Cristo é Jimi Hendrix”.

Entre apagar em meio a um solo à frente da televisão e desembarcar na Bahia para tocar guitarra, muita coisa aconteceu na vida de Zeduardo. Mas os detalhes apenas atrapalhariam o misticismo de que os dedos de Hendrix, movimentando-se prodigiosamente, foram o pêndulo que o hipnotizou e o fez deixar uma vida confortável para se dedicar a outra, mais humilde, e ao mesmo tempo mais empolgante. “Eu não sei o que aconteceu… Eu sei, na verdade, mas prefiro pensar que eu não sei”, tenta explicar, recolhendo as notas e deixando as moedas que são jogadas na caixa da guitarra, vermelha e branca.

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“Dilma deveria dar mais dinheiro para o povo”, critica, com uma barba branca e desgrenhada que o deixa parecido a Karl Marx. “A burguesia deixa as coisas mais complicadas. Eu quero ter muito dinheiro, mas não vão gostar do que eu vou fazer com ele”, avisa. O que você vai fazer com ele? “Espera eu ganhar que eu mostro. Por enquanto, tenho apenas três reais”, despista, apontando para os trocos que foram deixados pelos pedestres.

Ele esteve na Itália, vizinha da Suíça, para gravar discos e diz que recebe muitos convites para entreter os italianos com a sua habilidade, mas nunca os aceita. Atualmente, mora na comunidade hippie de Arembepe, a 50 quilômetros de Salvador, formada por “guardiões do espírito de Woodstock”. “Prefiro tocar nas ruas de Salvador. Posso continuar fazendo isso? Preciso aproveitar que os gringos estão passando”, pede. E os dedos, com unhas grandes o bastante para dispensar a palheta, voltam a dedilhar, esforçando-se para deixar Jimi Hendrix orgulhoso.