Uma das grandes dificuldades do Arsenal nos últimos tempos se escancarava nos jogos de peso. O aproveitamento dos londrinos contra os principais adversários da Inglaterra vinha sendo baixo. E o gosto amargo persistia principalmente contra o rival Tottenham. Que se leve em conta o excesso de empates, os Gunners não venciam o Dérbi do Norte de Londres pela liga desde março de 2014, com direito à sentida derrota na temporada passada, que reafirmou a campanha superior dos Spurs na competição. Neste sábado, porém, o time de Arsène Wenger deu o seu troco. Teve uma atuação bastante segura contra o Tottenham, anulando as principais virtudes dos visitantes. Claramente superior e com uma ajuda da arbitragem (a mesma que prejudicou na derrota contra o Manchester City, na rodada passada), o Arsenal fez a alegria da torcida no Estádio Emirates com a vitória por 2 a 0.

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Se a escalação usada contra os Citizens não agradou, desta vez Wenger apostou no seu potencial ofensivo. Alexandre Lacazette, Mesut Özil e Alexis Sánchez compunham o trio de frente no 3-4-3, com destaque também para a parceria entre Granit Xhaka e Aaron Ramsey no meio. Já o Tottenham espelhava a formação dos oponentes, com Harry Kane, Dele Alli e Christian Eriksen compondo o tridente utilizado por Mauricio Pochettino. De qualquer maneira, não seriam as individualidades que resolveriam.

Afinal, este não foi exatamente um dérbi de grande qualidade técnica, apesar de toda a intensidade. Desde os primeiros minutos, as duas equipes buscavam o ataque, ameaçando lá e cá com bastante velocidade. As defesas, entretanto, conseguiam prevalecer. Apesar da vontade, eram raras as chances de gol. O Tottenham tinha mais posse de bola, mas pouco fazia diante da enorme solidez defensiva do Arsenal, pressionando bastante a saída dos adversários. Além disso, as escapadas de Héctor Bellerín pelo lado direito eram um incômodo constante aos visitantes.

Se houve algum momento bom para o Tottenham na primeira etapa, ele aconteceu por volta da meia hora de jogo. Eriksen acertou a base da trave com um tiro rasante e Kane cabeceou para uma defesa plástica de Petr Cech, sem soltar a bola. Mas foi só. E logo o Arsenal conseguiria resolver o jogo, com dois gols em cinco minutos. O primeiro tento nasceu em uma falta discutível anotada pelo árbitro, na lateral do campo. Özil cobrou em direção à área e Shkodran Mustafi, ligeiramente impedido, cabeceou para dentro. Depois, o segundo tento nasceria a partir de uma roubada de bola de Özil no meio. Lançando também em impedimento, Lacazette arrancou pela direita e cruzou para Alexis Sánchez chutar com violência na pequena área. Vale dizer, no entanto, que apesar das irregularidades nos dois lances, ambas as posições ilegais eram difíceis de serem marcadas. E não tiravam exatamente os méritos dos alvirrubros no bom primeiro tempo que faziam.

Atordoado ao final do primeiro tempo, o Tottenham voltou com mais ímpeto do intervalo. Colocava-se no campo de ataque, mas parava no compactação muito bem executada pelo Arsenal. Laurent Koscielny, sobretudo, era um gigante para marcar Harry Kane e comandar a linha defensiva. Quando recuperavam a posse, os Gunners sabiam controlar o jogo e até levavam perigo nos contra-ataques, especialmente com Alexis Sánchez, exibindo uma fome de bola imensa. Não fosse Lloris, o chileno poderia ter feito mais.

A partir dos 30 minutos, os dois treinadores fizeram as suas cartadas. Pochettino, que já tinha tirado Moussa Dembélé para a entrada de Harry Winks, sacou Kane e Alli, apostando na presença de área de Fernando Llorente e na velocidade de Heung-Min Son. Pouco adiantou. Já Wenger resguardava o Arsenal, com Francis Coquelin no lugar de Alexandre Lacazette, enquanto Alex Iwobi renovava as energias para os contragolpes na vaga de Mesut Özil – bastante aplaudido pela torcida, especialmente pelo empenho ao longo dos 90 minutos. Nas arquibancadas, a torcida da casa espezinhava os rivais. E, apesar da pressão dos Spurs, Cech manteve a sua meta invicta. Nos acréscimos, Sánchez ainda quase marcou o terceiro. Não fez falta. A vitória merecidamente era do Arsenal.

Wenger, tão malhado pelos insucessos do Arsenal, desta vez recebe sua dose de elogios. Fez o simples e conseguiu frear o aclamado ataque do Tottenham ao longo dos 90 minutos. Uma partida pragmática, mas ainda assim muito boa dos Gunners, trabalhando com perfeição dentro do que foi designado. E a energia oferecida pelos jogadores, sobretudo dos protagonistas, valeu demais à equipe. Por outro lado, Pochettino não conseguiu adaptar o seu Tottenham à ocasião. A equipe que voa na Liga dos Campeões perdeu seus dois últimos jogos grandes na Premier League, depois de cair também diante do Manchester United.

Tanto Arsenal quanto Tottenham estão no mesmo bolo da tabela. Os Gunners assumem a quinta colocação, com 22 pontos, um a menos que os Spurs, que estacionam em terceiro – podendo deixar Manchester United e Chelsea se desgarrarem. E enquanto Pochettino se volta à visita ao Dortmund na Champions, que poderá valer a liderança no “grupo da morte”, potencialmente facilitando o caminho para as oitavas, o Arsenal tentará manter o embalo para o próximo teste de fogo na Premier League: a visita ao Manchester United, no primeiro final de semana de dezembro. Um duelo para Wenger encarar José Mourinho e, quem sabe, confirmar a recuperação.

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