Ronaldo e Romário jogaram juntos em 1997 e foram uma dupla sensacional (Foto: AP)

[Camisa 9 do Brasil] A Seleção tem uma interrogação no ataque, mas também está muito mal acostumada

A situação das pernas de Fred deixa a nação em pânico. Talvez seja exagero, mas, caso o atacante do Fluminense fique fora da Copa do Mundo de 2014, é a primeira vez em muito tempo que a torcida não tem o nome do artilheiro do torneio na ponta da língua para apostar no bolão. Porque, entre 1986 e 2006, não havia nenhuma dúvida que Careca, Romário e Ronaldo fariam mais gols que qualquer outro camisa 9 do planeta.

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Nem sempre foi assim, é verdade. Desses, apenas Ronaldo conseguiu levar a Chuteira de Ouro do Mundial. Romário foi o craque de 1994, mas fez menos gols que o russo Oleg Salenko e o búlgaro Hristo Stoichkov, assim como Careca ficou a um tento de igualar a marca do inglês Gary Lineker em 1986. Independente de terem chegado à artilharia ou não, todos eram de altíssimo nível e unanimidades. A torcida sabia que, na hora de mandar a bola para o barbante, o matador estaria lá.

O problema começou a aparecer em 2010. Dunga demorou muito para encontrar seu homem de confiança. Luis Fabiano, nem em seus dias mais gloriosos, chegava perto de seus antecessores. Mas vinha em uma fase com a camisa amarela que não dava tantas brechas para se questionar. O que dizer então, caso Fred não tenha mesmo condições físicas, e a dúvida de Luiz Felipe Scolari seja Jô ou Alan Kardec? Hernane ou Leandro Damião? São todos jogadores competentes, mas nenhum do nível ao qual a torcida brasileira ficou acostumada.

Abundância de artilheiros

Mesmo antes de Careca ser o titular da seleção brasileira, em 1986, havia muito mais opções. Reinaldo, por exemplo, foi o maior jogador da história do Atlético Mineiro e certamente seria o principal atacante em 1978 e 1982. Jogou as três primeiras partidas do Mundial da Argentina, mas se machucou e foi substituído por Roberto Dinamite na fase final.

Em 1982, as versões divergem. Telê Santana acreditava que Reinaldo estava muito distraído com problemas extracampo e isso estava atrapalhando a recuperação da lesão no joelho. “Andaram botando na cabeça dele que ele é intelectual, que precisa ajudar os índios, o Lula, o Frei Betto. Aí o Reinaldo, em vez de treinar e fazer tratamento, vai a Brasília fazer palestras, fica dando entrevista”, disse Telê em entrevista à revista placar de 13 de novembro de 1981, segundo o livro Sarriá 82.

O próprio Reinaldo, em entrevista à mesma publicação, 31 anos depois, disse que sua ausência em 1982 foi política. Ele usava a sua exposição para tentar combater a ditadura militar, que acabaria apenas em 1985. Comemorava gols com o punho erguido, em alusão aos Panteras Negras.

Sem Reinaldo, Baltazar e Roberto Dinamite foram testados. O treinador escalou o craque do Vasco nos três amistosos antes da vitória da seleção brasileira sobre a Alemanha Ocidental, por 1 a 0, na qual Careca foi o titular. Telê chegou a dizer que “encontrou o homem”. O problema é que, de última hora, Careca sofreu um estiramento e acabou cortado da convocação final. O técnico levou Roberto e Serginho, que mal havia participado da preparação.

A Era de Ouro
Careca foi reserva em 1982, mas titular incontestável nos dois mundiais seguintes (Foto: AP)

Careca perdeu a Copa de 1982, mas titular incontestável nos dois Mundiais seguintes (Foto: AP)

Serginho foi titular na Espanha e fez apenas dois gols. Quatro anos depois, no México, o imponderável não atrapalharia mais Telê. Nas duas Copas do Mundo seguintes, Careca foi indiscutível. Não era exatamente um centroavante de pouca mobilidade, como Serginho. Tinha presença de área, mas também saía da área para trocar passes e fazer a jogada evoluir. Sobretudo, sabia finalizar como ninguém: fez cinco gols em 1986 e mais dois em 1990.

Romário também não era jogador de ficar fixo na área esperando a bola chegar na primeira metade de sua carreira. Foi apenas com a idade e com o deterioramento do físico que ele se tornou o terror da grande área. Antes, era rápido, muito técnico e caminhava em direção ao gol com a bola dominada.

Ainda em ascensão no Mundial de 1990, o Baxinho foi essencial em 1994. Primeiro, para classificar a seleção brasileira, que precisava ao menos empatar com o Uruguai, pelas Eliminatórias. Depois de brigar com Carlos Alberto Parreira, foi chamado, segundo ele, por influência de Ricardo Teixeira para o jogo decisivo no Maracanã, depois da lesão de Müller. Fez os dois gols, levou o Brasil para os Estados Unidos e foi o craque do tetracampeonato.

Foi a última Copa do Mundo de Romário, que ficou fora de 1998 por lesão e, apesar do apelo popular, foi preterido por Felipão em 2002. Não pudemos ver como seria uma dupla com o Ronaldo em um Mundial, mas houve um aperitivo na na Copa América e na Copa das Confederações de 1997. O ponto alto da parceria foi a decisão do torneio da Fifa contra a Austrália. Cada um deles fez três gols na goleada por 6 a 0 – no total, o Baxinho foi às redes sete vezes e o Fenômeno, quatro.

Ronaldo virou o centroavante da seleção brasileira depois de Romário. Três edições foram suficientes para ele se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo. Dois dos 15 gols que marcou foram na decisão de 2002 contra a Alemanha, e três na edição de 2006, quando estava fora de forma e dividia o ataque com Adriano.

O problema é tão grave assim?

Em teoria, era para ser Adriano o centroavante da seleção brasileira na última Copa do Mundo e na próxima, mas foram vários os problemas que interromperam sua carreira em alto nível. Luis Fabiano sofreu com algumas lesões e nunca teve o poder de decisão dos seus antecessores. Mesmo Fred, que viveu alguns bons momentos no Lyon, não conseguiu uma carreira de destaque internacional.

O que contribui para a aflição da torcida é uma certa teimosia de Luiz Felipe Scolari, que faz questão de armar o time com um centroavante, alto, bom de cabeça, mesmo que os jogadores dessa posição não inspirem muita confiança – seja ela física ou mesmo técnica. Ele poderia adiantar Neymar, como fez Mano Menezes. Afinal, nem Careca, nem Ronaldo e nem Romário eram exatamente os jogadores de referência como quer Felipão.

Assunto para outro texto. A seleção brasileira, nos últimos tempos, sempre teve um camisa 9 no qual poderia confiar. A bola, nos pés desses craques, tinha destino certo. Agora, precisa torcer para as pernas de Fred aguentarem o tranco. Sem um centroavante incontestável, o time de Luiz Felipe Scolari pode ganhar a Copa do Mundo. Mas já começaria o torneio sob uma desconfiança que não é comum à Seleção.