O Campeonato Africano de Nações está longe de ter o prestígio da Copa Africana de Nações. Os nomes podem até confundir, mas o Chan é uma iniciativa criada para incentivar o futebol local. Disputada pela primeira vez em 2007, a competição conta com 16 seleções formadas apenas por jogadores em atividade no próprio continente. Pois, neste domingo, o torneio conseguiu ir além de sua meta singela de fomentar as ligas nacionais. Ela serviu para reafirmar o sentido nacional de um país que ainda tenta juntar os cacos de uma guerra civil. A Líbia conquistou um título de futebol pela primeira vez em sua história, pouco mais de dois anos depois de uma revolução política que afetou diretamente o esporte no país.

A redenção dos Guerreiros do Mediterrâneo já tinha começado a ser escrita em 2011. Mesmo mandando seus dois últimos jogos pelas Eliminatórias em campo neutro por conta da guerra civil que estourava, a Líbia conquistou a classificação para a Copa Africana de Nações. Técnico do time na época, Marcos Paquetá tinha dificuldades até mesmo para entrar em contato com seus jogadores, diante do caos vivido no país. A confirmação da vaga aconteceu em 8 de outubro, semanas depois da queda do ditador Muammar Gaddafi. Por isso mesmo, o feito foi comemorado sob a bandeira do novo regime instaurado. Já em 2012, outro motivo de orgulho, com o vice-campeonato na Copa das Nações Árabes.

Desde o ano passado, o futebol no país teve sua normalidade restabelecida. Em junho, a seleção pôde entrar em campo novamente no país, enfrentando a República Democrática do Congo pelas Eliminatórias. Já o Campeonato Líbio, interrompido em 2010/11 e não realizado nas duas temporadas seguintes, foi retomado no último mês de setembro, com o início de uma nova edição. Uma reorganização que certamente impulsionou os líbios na Chan 2014.

Por sua seleção principal já ser baseada praticamente inteira nos jogadores locais, a Líbia entrava no torneio como um dos times mais credenciados ao título. Treinada por Javier Clemente, comandante da seleção espanhola nas Copas de 1994 e 1998, a equipe não teve uma campanha brilhante, mas foi copeira o suficiente para ficar com a taça. Os Guerreiros do Mediterrâneo empataram cinco de seis jogos na competição. A fórmula do sucesso? A eficiência da defesa, que só sofreu quatro gols, e a competência nos pênaltis. Assim, a equipe eliminou Gabão e Zimbábue nos mata-matas, antes de superar Gana na final.

libia
Clemente ressaltou o peso da conquista para o país de uma maneira geral logo após a decisão: “Essa vitória é boa para o povo líbio, para o crescimento do esporte e a estabilidade social. Eu coloquei muita paixão nesse time, eles jogaram com entusiasmo e orgulho. Mereceram totalmente esse troféu. Espero que essa vitória tenha sido importante para a Líbia e para sua população”. E os efeitos desse orgulho foram sentidos em várias cidades do país.

Antes do pontapé inicial, o novelista Hisham Matar foi poético para traduzir o sentimento de seus compatriotas: “Esperança e desespero casaram o coração líbio a uma pequena bola amarela no estádio da Cidade do Cabo”. As praças do país foram ocupadas por multidões, reunidas em torno dos telões que transmitiam a partida. Já depois da vitória, as ruas seguiram tomadas por milhares de jovens empunhando a bandeira do país liberto. “O futebol tem nos reunido em amor por uma Líbia. Recuperamos o sorriso novamente”, declarou Ali Zoghdani, mais um daqueles que enfrentavam a pesada chuva em Trípoli para celebrar.

É simbólico o primeiro título líbio vir logo após a queda de Gaddafi. Afinal, o ditador sempre apostou muito no futebol como forma de legitimar seu poder. Em 1982, quando o país recebeu a Copa Africana, Gaddafi aproveitou a cerimônia de abertura para atacar seus inimigos políticos e divulgar o ‘Livro Verde’, que descrevia a ideologia de seu regime. Já a seleção foi vice-campeã daquele torneio, derrotada justamente por Gana. Era o período de ouro da equipe, que ficou a um empate de se classificar à Copa de 1986 e que, ainda assim, não levantou nenhuma taça, como fez agora. Melhor assim.

O atual governo líbio percebeu a importância da conquista deste domingo. A festa do título foi transformada em feriado nacional e se transformou na maior comemoração vista no país desde a queda de Gaddafi. E a empolgação continuará com a chegada dos jogadores, que passarão pelas principais cidades, mas também por locais como Sabha, devastada pelos confrontos mais recentes. Uma ascensão que os líbios esperam que siga pelo menos até 2017, quando o país sediará a Copa Africana de Nações – torneio que deveriam receber no ano passado, o que a guerra impediu. Desta vez, esperam, para conquistar a África de maneira inapelável. E também para unir ainda mais o seu povo.