Observando o cenário atual do futebol escocês, é difícil imaginar que um dia o país foi forte no esporte. O estilo de jogo da Escócia chegou a ser fonte de inspiração para os tempos áureos da Europa Central, com Áustria e Hungria, mas o cenário atual passa longe disso. Buscando melhores resultados no cenário internacional, os escoceses deram início a uma iniciativa no mínimo diferente: garimpar jogadores na vizinha Inglaterra.

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Durante quatro dias, a Federação Escocesa organizou uma espécie de peneira em Midlands, região central da Inglaterra, tentando atrair jovens com ascendência escocesa entre 14 e 20 anos para defender o país. Cerca de 70 atletas participaram das atividades, alguns deles integrantes de categorias de base de clubes ingleses. A ideia é convencer os garotos a optarem ainda cedo pela Escócia.

“É claro que há um risco envolvido de que você queira que um jogador se comprometa com a Escócia, de que eles façam isso, mas que decidam jogar pela Inglaterra no último minuto. Aconteceu com a gente com o Sam Gallagher, do Southampton. Foi decepcionante e frustante. Mas também tivemos um exemplo positivo com o Ikechi Anya, do Watford, que teve impacto pela seleção”, comentou Mark Wotte, diretor de performance da seleção escocesa.

Há muito tempo a safra de jogadores na Escócia não tem sido lá tão boa, e a ideia da federação é alargar ao máximo a possibilidade de encontrar talentos. “Temos que ampliar nossos horizontes e aceitar que nem todo jogador nascerá na Escócia e passar todo sua juventude lá. Não podemos nos restringir”, explica Wotte, que não vê nenhum problema na estratégia e cita até a Alemanha como argumentação: “Se você olhar para a seleção alemã que venceu a Copa do Mundo, nem todo jogador nasceu na Alemanha”.

Publicamente, não houve uma posição da Federação Inglesa em relação ao programa, e nenhum grande jornal da Inglaterra escreveu alguma crítica à iniciativa. Houve uma resistência aqui ou ali, questionando-se a postura da Escócia do ponto de vista moral, mas é preciso levar em consideração alguns pontos. Primeiramente, há um acordo entre os integrantes do Reino Unido para que jogadores de uma nação não sejam convocados pelo outro sem um acerto entre as partes envolvidas, já que o país em si é o Reino Unido. Seus quatro integrantes jogam individualmente no futebol, mas vale lembrar que nas Olimpíadas, por exemplo, não se vê a bandeira da Escócia ou do País de Gales. Portanto, no caso de algum dos atletas ingleses da peneira ter sucesso futuramente e for chamado para defender a Escócia, ninguém passaria por cima de ninguém.

Também é difícil imaginar que a Inglaterra faria oposição à convocação de algum jogador por parte da seleção escocesa. Para que a seleção inglesa se incomode com alguma possível convocação de um jogador para outra seleção do Reino Unido, esse atleta precisaria ser relativamente talentoso. Sendo relativamente talentoso e com espaço entre os ingleses, a ponto de haver alguma reclamação, o caminho natural é que o próprio atleta escolhesse atuar pela Inglaterra.

Pegando um exemplo bastante conhecido disso, Wayne Rooney, com apenas 16 anos, foi chamado para defender a Escócia, por sua avó ser escocesa. O atacante, hoje no Manchester United, deu uma resposta concisa: “Desculpa, sou inglês”. Claro que o fato de se identificar parece ser o motivo maior da decisão do camisa 10, mas, se a situação fosse invertida (se o jogador fosse escocês), não seria difícil imaginar um jovem Rooney balançado com um chamado da Inglaterra.

Outro que foi abordado para defender a Escócia foi o zagueiro Ryan Shawcross. Convencido de que era melhor do que realmente era, o beque recusou a convocação dos escoceses porque queria conquistar seu espaço na Inglaterra. Acabou não alcançando o objetivo, tendo atuado apenas uma vez com a camisa dos Three Lions.

É perfeitamente justo que a Escócia tente essa iniciativa para se reforçar. Discussão à parte, o caso em si é bastante curioso. O objetivo não é exatamente revolucionar o futebol do país, eles sabem que isso não é possível, pelo menos não apenas com essa medida. Mas há, sim, a ideia de um salto de qualidade na seleção a médio prazo, e, embora não tenha um resultado garantido, é bom expandir os horizontes, como o próprio Mark Wotte definiu.