Hernanes entrou em campo no primeiro jogo do Brasil, contra a Croácia (AP Photo/Ivan Sekretarev)

Seleção está perdida e temos uma proposta: coloque Hernanes, Felipão

A vitória nos pênaltis sobre o Chile é daquelas que chega sem esperar, quando o time parece nem mesmo ser capaz de conseguir. Os pênaltis consagraram Júlio César e empurraram o Brasil às quartas de final da Copa do Mundo que joga em casa, mas o que se viu em campo é preocupante. Se o time da Copa das Confederações estava na ponta da língua, com posições bem definidas, um desenho claro taticamente e funcionando muito bem, o que se vê agora é um time que não parece ter definido nem onde jogam seus principais jogadores e é carente de ideias.

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Onde joga Hulk? A posição onde ele fica mais confortável é aberto pelo lado direito, com liberdade para vir para o meio com a bola e finalizar. E Oscar? Onde costuma jogar com mais frequência é pelo centro, como armador, dando velocidade ao time. O problema é saber onde esses jogadores atuam na seleção. Um ano atrás parecia claro. Passada a cardíaca vitória nos pênaltis sobre o Chile, isso não passa nem perto de ser claro.

Felipão insiste em trocá-los de suas posições onde mais rendem, mas não parece ter um motivo claro para isso. É para Neymar jogar mais confortável e decidir mais? Não parece ser o caso. Neymar atua pelo centro, mas é um atacante, não um meia. E contra o Chile, menos ainda, porque sua limitação física pela pancada que levou impediu mais ainda.

O Brasil de Felipão não parece saber o que fazer. Não é mais que não tem um plano B, uma forma de jogar diferente da sua principal, como se via na Copa das Confederações. Não tem sequer um modo principal de jogar. Oscar tem atuado mais pela ponta do que pelo meio, notadamente pela direita. Hulk tem jogado muitas vezes pela esquerda, onde não é tão bom quanto na direita.

Nesse cenário de problemas da seleção, Felipão errou nas alterações contra o Chile, que poderiam ter ajudado o time a não sofrer tanto quanto sofreu. Tirou Fred, que poderia ser sacado, já que participava pouco do jogo, mas colocou Jô. Não resolveu o problema do meio-campo e colocou um jogador pior tecnicamente em campo, que mal conseguia ficar de pé nos lances. Jô, como se diz no popular, pareceu um cemitério de jogadas. Ele não matava a bola, matava as jogadas que passavam por ele. A esperança, talvez, fosse a bola aérea e o time tentou muitas vezes isso. Inutilmente. O Brasil jogou uma alteração fora.

A segunda substituição também foi desperdiçada. Fernandinho, que não fazia um jogo tão bom quanto contra Camarões, mas estava melhor que a apatia de Paulinho nos jogos anteriores, deixou o gramado para a entrada de Ramires. Em um jogo onde a posse de bola era mais do Chile e o Brasil sentia dificuldades em fazer a bola passar pelo meio-campo, Ramires não parece o jogador mais indicado. É um volante que dá dinâmica, velocidade e conduz a bola, não é alguém que se caracterize pelos passes. Tanto que Felipão costuma usá-lo como meia pela direita, dando mais força de marcação quando precisa trocar Hulk – foi assim contra o México, quando não contou com o atacante. Ramires entrou mal, errou muitos passes e não deu mais força de marcação. O time piorou.

Para piorar a situação, Felipão ainda demorou para usar a terceira substituição. Só o fez no segundo tempo da prorrogação, quando tirou Oscar, muito mal no jogo, para colocar Willian. A alteração poderia ter sido feita antes, no segundo tempo, ou mesmo antes de começar a prorrogação. Foi pouco tempo para Willian mostrar alguma coisa. Felipão parecia estar vendo outro jogo e não quis ousar mudar algo mais radicalmente – por exemplo, tirar Jô, em vez de Oscar, para tentar ganhar o meio-campo do cansado time chileno. Mas esse é o menor dos erros nas alterações. O problema é não ter soluções para o time.

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Jogadores do Brasil nervosos durante a disputa de pênaltis  (AP Photo/Andre Penner)

Jogadores do Brasil nervosos durante a disputa de pênaltis (AP Photo/Andre Penner)

Problemas na defesa e para o próximo jogo

Na defesa, também há problemas. Daniel Alves segue deixando muitos espaços na defesa, quase um convite ao adversário. E o problema é tão sério que Maicon precisará ser preparado para jogar urgentemente. Mais do que isso, é preciso que a marcação no meio siga mais forte. Fernandinho melhorou o time em relação a Paulinho, mas ficou bem aquém do que poderia. Luiz Gustavo não fez uma partida tão fantástica, mas ainda foi um dos melhores do time. Suspenso do próximo jogo, será um problema substituí-lo. Não há alguém com sua característica na reserva – o convocado para esse papel é justamente Fernandinho. Será preciso encontrar um outro jogador para fazer o que ele faz.

Em princípio, será possível colocar Fernandinho no papel de Luiz Gustavo e colocar Hernanes ou mesmo Paulinho no time. Só que como tem jogado o Brasil, com Luiz Gustavo tendo que virar um terceiro zagueiro quando o time ataca com os dois laterais, talvez não seja suficiente jogar assim. Então, parece bem possível – e eu diria que até provável – que Felipão teste David Luiz. Há Henrique também no elenco capaz de fazer isso, mas aí parece improvável mesmo para Felipão colocar o jogador do Napoli para fazer isso. Parece mais fácil que David Luiz faça a função de Luiz Gustavo e Dante entre na zaga. Ainda mais com James Rodríguez como adversário.

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Mas e aí, o que fazer?

O principal problema do Brasil é meio-campo. Contra o Chile, um time técnico e que gosta de jogar com a bola, foram muitos os momentos que a seleção ficou assistindo aos passes do adversário sem saber o que fazer para impedir. Oscar não tem conseguido ser o jogador que cria jogadas, nem que segura a bola para dar ritmo ao time no setor mais crucial do futebol, especialmente o futebol que jogamos atualmente. Então é preciso mudar.

Antes da Copa, o que se falava era a possibilidade de colocar Willian no lugar de Oscar. O meia do Chelsea vive melhor fase, terminou a temporada melhor e vinha entrando bem na seleção. O fez novamente neste jogo contra o Chile. É um jogador que pode dar força em chutes de fora da área e bons passes, além de ter velocidade. Em características, é o mais parecido com Oscar para substituí-lo.

Só que talvez haja uma opção até melhor para tentar corrigir o problema: Hernanes. O jogador da Internazionale é o que alguns na América do Sul costumam chamar de “todocampista”, ou como na Inglaterra chamam de “Box to Box”. É um jogador que defende e ataca com vitalidade, dá ritmo ao time e tem como característica principal o passe. Algo que está muito em falta no time de Felipão. Hernanes pode ser o que é Vidal no Chile, em um time que o meio-campo é um LATIFÚNDIO IMPRODUTIVO.

Outro problema que o Brasil precisa trabalhar é o centroavante. Fred tem sido pouco produtivo para o time, Jô, então, menos ainda. Se um estava mal em campo, o outro entrou ainda pior. Na partida contra o Chile, o centroavante estava para fazer número. Neymar, sentindo lesão depois de entrada no seu joelho, se movimentou menos. Então, se era preciso deixar Neymar mais parado no ataque por conta disso e tirá-lo de campo não era uma opção (e não era, seria loucura tirar o craque do time nessa situação), então por que não colocá-lo como centroavante e entrar com outro jogador no meio, Willian ou mesmo Hernanes?

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Lembremos que Mano Menezes fez um trabalho para lá de contestável na seleção, mas no fim do seu trabalho testava o Brasil sem um homem de área. Armava mal o time, que não conseguia jogar bem, mas pensava nessa possibilidade. Felipão precisa ao menos estudar essa possibilidade, se não como algo definitivo, como uma opção para jogos em que isso possa ser necessário, como foi neste contra o Chile.

Vale também lembrar que o Brasil de Felipão jogou algumas vezes no 4-3-3 com uma trinca de meio-campo formada por Luiz Gustavo, Paulinho e Hernanes, com Oscar, Neymar e Fred como atacantes. Talvez seja o caso de repetir essa formação, mas com Hulk no lugar de Oscar, que jogou muito pouco.

Hulk falhou no gol que o Chile marcou, mas foi de longe o melhor jogador do Brasil em campo no Mineirão. Buscou o jogo, foi quem mais chutou a gol, cinco vezes, quem mais driblou, oito vezes, e, mais importante que qualquer estatística, foi quem chamou a responsabilidade em diversos momentos do jogo. Em um jogo em que faltaram protagonistas, Hulk foi quem mais se aproximou disso. E por esse motivo não pode deixar o time.

O que é evidente é que o Brasil precisa mudar. Precisa trabalhar mais as jogadas, ter mais a bola. Será importante estudar as alterações que o time precisa fazer. Mudar jogadores, como os citados, é importante, mas será mais importante ainda estudar esses problemas para não repeti-los. Nas quartas de final, o desafio será maior e não há mais alívio nos jogos. E repetir os erros cometidos contra o Chile dificilmente ficará impune.


É jogo decisivo para a seleção brasileira. E o Mineirão certamente estará pintado de verde e amarelo. Mas não será fácil calar a torcida chilena. Por tudo o que os fanáticos por La Roja já demonstraram nas outras partidas, estão entre os mais barulhentos deste Mundial. Na galeria, as fotos da partida e os principais lances que rolarem.