Seleção feminina, 30 anos: onze jogadoras que marcaram a história da modalidade no Brasil

O futebol feminino não demorou muito tempo para chegar ao Brasil depois de ter começado a ser praticado do outro lado do oceano, lá na Inglaterra. A modalidade, contudo, custou para se livrar das garras do conservadorismo incutido em terras tupiniquins, que por um longo período da história atingiu o Legislativo e fez com que mulheres fossem proibidas por lei de se envolverem com esportes de qualquer natureza. Por esse motivo, foi apenas em 1986 que o país foi representado por atletas do sexo feminino no futebol. A seleção brasileira feminina completa 30 anos em 2016.

Há três décadas, no 22 de julho daquele ano, a primeira seleção brasileira feminina entrou em campo em duelo contra os Estados Unidos, pela fase de grupos do Mundialito. E embora o caráter da partida não tenha valido grandes coisas no sentido competitivo, aquele jogo, aquela reunião de jogadoras vestindo a camisa da seleção nacional, foi um marco no contexto histórico do futebol feminino, na questão discriminatória e na luta pela emancipação da mulher na sociedade brasileira.

LEIA MAIS: Daniela Alves, medalha de prata em 2004 e 2008, será auxiliar na seleção feminina sub-20

De 1986 à 1988, quando a CBF fez a primeira “convocação” oficial de atletas para a seleção feminina, o time do Brasil composto por mulheres participou de três confrontos. Um contra a seleção americana, que havia sido montada pouco tempo antes da disputa do torneio, outro diante da China, e outro com a Austrália. Na primeira partida, os Estados Unidos levaram a melhor, vencendo as brasileiras por 2 a 1. No segundo, no entanto, um empate por 1 a 1 com as asiáticas. O Brasil, com ainda uma série de fragilidades por ser uma equipe recém-juntada, sem muito entrosamento e sem uma sequência de treinos, voltou a ser derrotado pelas australianas, que já estavam uma década à frente na modalidade.

Foi, então, a partir da primeira “convocação” feita pela confederação que o futebol feminino começou a engatinhar no país. Aliás, no mundo. E o Brasil acompanhou o avanço a nível internacional da modalidade. Isso em partes, já que sempre estivemos atrás de muitos países se tratando de apoio, patrocínio, incentivo e visibilidade. O que é um enorme desperdício de talento, visto que sempre tivemos, ao longo da história jogadoras incrivelmente habilidosas, competentes e que carregam o sucesso e a reputação brasileira nas costas. Marta está aí para provar isso.

As aspas anteriormente usadas para falar da primeira convocatória se referem ao fato da seleção nessa época ser composta somente por atletas do Esporte Clube Radar, que cedeu 16 jogadoras de 18 convocadas para a disputa de um torneio realizado na Espanha, onde a seleção brasileira feminina colocou as mãos em seu primeiro troféu internacional, e outro na China. Este, por sua vez, foi organizado pela Fifa, e foi nele em que o Brasil aplicou a primeira goleada da modalidade: o histórico 9 a 0 sobre a seleção da Tailândia.

LEIA TAMBÉM: CBF dá raro prêmio ao mérito com Emily Lima no comando da seleção feminina

Mas foi da primeira Copa América e Copa do Mundo feminina, ambas em 1991, em diante que o cenário de troféus, êxito e reconhecimento mundial começou a se desenhar. De lá para cá, foram sete medalhas e seis títulos. Isso sem falar nos relevantes escalões atingidos pela Seleção, que ainda não venceu o principal torneio mundial, nem ganhou o ouro nas Olimpíadas – os dois mais importantes triunfos da modalidade -, mas sempre esteve na cola das americanas.

Passados 30 anos, e muitas ótimas jogadoras, nosso amigo leitor Fábio Moino teve a ideia de montar a seleção feminina de todos os tempos. Foi ele, inclusive, quem nos sugeriu esta pauta. Na arte abaixo produzida por Fábio, que é designer, ele escala onze atletas que marcaram a história do futebol feminino no Brasil. E enfatizou que apesar da escolha, “muita gente boa ficou de fora, como Kátia Cilene, Fanta, Andréia, Daniela Alves, Márcia Taffarel, Maravilha, Rosana e etc”.

selecaofeminina

Para fechar a meta brasileira, a escolhida foi Meg. A goleira participou das Copa de 1991 e 1995 e da Olimpíada de 1996. Ou seja, foi a primeira grande arqueira da seleção. Antes de atuar como goleira de futebol, ela jogou na mesma posição pela seleção feminina de handebol. Como começou tarde no esporte dos pés, acabou atuado em poucas competições pelo Brasil. Apesar disso, suas grandes defesas o colocam na seleção de todos os tempos de Fábio, que chegou a considerar Andréia para a posição, mas diz que ” Meg pareceu uma escolha mais acertada e segura”.

A dupla de zaga destacada é formada por Aline Pellegrino, que usou a braçadeira de capitã por oito anos, e Tânia Maranhão. A primeira hoje é responsável por coordenar o Departamento de Futebol Feminino da FPF, conforme a Trivela informou nesta entrevista exclusiva com a ex-jogadora. Embora a segunda tenha jogado na época anterior a de Aline na Seleção, ambas chegaram a ser uma dupla nas Olimpíadas de 2004 e 2008, e na Copa do Mundo de 2007, da qual o Brasil quase saiu campeão. Uma curiosidade é que aos 41 anos, Tânia Maranhão foi campeã brasileira pela Marinha/Flamengo, neste ano.

Já as laterais são ocupadas pela lateral direita Fabiana e pela lateral esquerda Juliana Cabral. Esta tem, atualmente, sua voz muito ouvida nas transmissões de jogos femininos feitas pela ESPN. Ju Cabral atuava mais como zagueira, mas a escolha no canto esquerdo da retaguarda se deu para não deixar a excelente jogadora que foi de fora da seleção de todos os tempos (e por ser sua posição secundária). Fabiana, por sua vez, joga pelo time nacional feminino desde 2008 e é uma verdadeira referência na lateral direita.

O meio-campo da equipe de todos os tempos, claro, não poderia ser diferente, com Formiga e Sissi o comandando. Para Fábio, a última seria a capitã da seleção dos sonhos. Sissi foi a antecessora de Marta na honra à camisa 10, e é uma pena que as duas não tenham jogado lado a lado. Com ótimas campanhas mundiais, conquistou junto ao Brasil o terceiro lugar da Copa de 1999 e hoje trabalha com futebol feminino nos Estados Unidos. Já Formiga dispensa discrições. A meio-campista que não para nunca e mantêm uma regularidade fenomenal é, sem dúvidas, um dos maiores nomes da modalidade no país.

As atacantes escolhidas por Fábio são Pretinha, Roseli, Marta e Cristiane. As duas primeiras acompanharam a fase inicial de desenvolvimento do futebol feminino brasileiro e mundial. As duas últimas, não. No entanto, são tão importantes para o esporte praticado por mulheres quanto Pretinha, que dedicou 21 anos de sua carreira à Seleção, e a habilidosa Roseli. Enquanto isso, no banco de reservas, quem as instrui é René Simões, cuja curta passagem pela seleção feminina foi um divisor de águas de tão emblemática.

[Agradecemos imensamente ao nosso amigo leitor Fábio Moino pela sugestão e contribuição.]