Luiz Gustavo lamenta o jogo ter ido para os pênaltis contra o Chile (AP Photo/Frank Augstein)

Seleção passou por um teste de nervos e fracassou. Só resta o alívio

Oitavas de final da Copa do Mundo. Em casa, a seleção brasileira enfrenta o Chile, em Belo Horizonte. O Brasil joga mal. O time, mal tecnicamente, sequer consegue vibrar. A tensão domina os jogadores, o nervosismo aumenta os erros. Empate. Prorrogação. Pênaltis. Com um peso gigantesco nas costas, os jogadores brasileiros precisam se preparar para o momento mais difícil emocionalmente no futebol. O Brasil passavam pelo seu teste mais intenso desde o início da Copa do Mundo e acabaria reprovado. Mesmo assim, classificado. Foi quase como um recado divino: para vencer, o Brasil não pode ter mais medo do fracasso do que sede de glória.

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Thiago Silva, o capitão, senta sobre a bola, desanimado, após o apito final do jogo. Os jogadores brasileiros parecem lamentar terem deixado chegar aos pênaltis. Antecipam-se a um fracasso que nem aconteceu ainda. Parecem visualizar as manchetes da derrota, o estigma de fracasso, as críticas duras que virão e marcarão suas carreiras eternamente. “O Chile já venceu o jogo. Resta saber quem ficará com a classificação”, disse Paulo Vinícius Coelho, comentarista da ESPN, durante a transmissão do canal. A tragédia já tinha cores, já tomava forma, as manchetes já começavam a ser feitas. Na cabeça dos jogadores, elas pareciam estar vivas. Diante de um momento tão delicado, o Brasil parecia só temer a tragédia.

As penalidades criam heróis e vilões em profusão, fazem as veias saltarem. É o momento que lembramos de Zagallo gritando com os jogadores antes das cobranças fatais na semifinal de 1998. É o momento que lembramos de Romário cobrando pênalti na final da Copa de 1994, chutando com a bola batendo na trave e entrando. É quando lembramos da trágica cena da bola batendo nas costas de Carlos, em 1986, contra a França. É quando lembramos do craque italiano Roberto Baggio chutando por cima e o Brasil comemorando o tetra. São muitos os momentos épicos na história do futebol construídos em uma cobrança de pênalti.

Em 2014, no Mineirão, o Brasil foi inesperadamente para as penalidades para decidir sua classificação. Inesperadamente, aqui, pode ser lido em vários sentidos. Antes do jogo, porque se esperava que o time vencesse no tempo normal. Era favorito, em casa, contra um adversário que é freguês histórico, com um time bom, apesar dos problemas. Depois do jogo, o inesperado era porque o Chile esteve a centímetros de eliminar o Brasil – que o diga o travessão que Pinilla acertou, no último minuto do segundo tempo da prorrogação.

Futebol envolve emoção. É impossível manter o equilíbrio o tempo todo. Mesmo os jogadores mais experientes e frios têm momentos assim. É bonito ver os jogadores emocionados ao entrar em campo para se aquecer contra a Croácia, ou com os olhos marejados no hino nacional. Só que a cena começou a ser frequente. É verdade que os brasileiros passaram a cantá-lo com vigor, força, vibrando, e isso é positivo. Como o Impedimento disse, o hino brasileiro a capela nesta Copa se tornou o Haka brasileiro. Só que o problema é quando a emoção começa não só a afetar o adversário, mas o próprio time. É normal se emocionar. Lágrimas acontecem. Mas há momentos que é preciso ter controle, porque é neles momentos que se definem as grandes glórias. Contra o Chile, o Brasil não teve. Escapou por um triz de um vexame histórico, que novamente escreveria com palavras tristes a tarde deste 28 de junho.

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Sim, seria um vexame. O Brasil, uma das maiores seleções do mundo, camisa pesada, joga a Copa do Mundo em casa. Só isso seria suficiente para lhe conferir favoritismo, ainda mais contra o Chile. Talvez seja o melhor time chileno desde aquele semifinalista de 1962, mas ainda é o Chile, que teria que lidar com o peso histórico de enfrentar o maior vencedor do futebol mundial na casa dele em uma Copa do Mundo. Em casa. O Brasil é sempre uma seleção pesada, a ser respeitada e forma talvez o grande trio de seleções do mundo ao lado de Alemanha e Itália. Em termos de peso histórico em Copas do Mundo, ninguém tem tanto quanto esses três.

As cenas que se viram no Mineirão eram de descontrole. O gol do Chile veio de um erro, de Hulk, que até fazia boa partida. A seleção desmoronou emocionalmente. Pareceu estar embebida em uma tensão que não passava e era contagiante. A torcida, nas arquibancadas, sentia também, mas, é bom que se diga, desta vez tentou apoiar o quanto pode, inclusive na prorrogação. O segundo tempo do jogo, em vez de melhorar com a conversa no vestiário, piorou. O time parecia amedrontado por esse personagem que tanto falamos, o fantasma de 1950, que ganhava as cores do Chile e tinha como cenário o Mineirão. Um “Mineirazo” parecia estar a caminho. O segundo tempo todo o Brasil pareceu pisar em ovos. Quase tomou o gol algumas vezes e viu o Chile crescer, aproveitando também esse enorme medo brasileiro. O fim do jogo, para os brasileiros, foi um alívio, mas o que se viu a seguir manteve a preocupação em quem assistia.

Luiz Gustavo ajoelhado no meio-campo (como você na foto do post) logo após acabar o jogo. Thiago Silva sentado sobre a bola na lateral do campo foi uma cena demasiadamente emotiva. O capitão do time estava ali, pensativo, parecendo antever as cobranças. Ecoou nos meus pensamentos a sua declaração no dia anterior que “se perdermos, vida que segue”. A vida segue, mas o capitão do time jamais poderia admitir, na véspera, uma possibilidade de derrota assim. Jamais. É claro que a vida seguiria com uma derrota, mas ela é grande demais, incômoda demais, dolorida demais para ser aceita. É preciso lutar contra ela. E isso vale para o discurso também. Especialmente do capitão. Mais ainda em um momento que o time, tão tenso, vai para o momento onde as emoções são mais importantes, os pênaltis.

O Brasil sentiu a responsabilidade. Neymar, seu principal jogador, uma estrela de 22 anos que também sentiu. Não houve um Dunga em campo, um líder que colocasse o time para cima, gritasse, falasse palavrões que tentassem tirar o time dessa enorme nuvem de medo que o sobrevoava.

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Vieram os pênaltis e a vitória por 3×2, graças a duas defesas de Júlio César e ao erro de Jara no pênalti final, e apesar dos erros de Willian e Hulk. Em nenhum momento o Brasil parecia ter o controle dos próprios nervos. E isso, em uma Copa do Mundo, tende a ser fatal. O time precisará trabalhar isso. Como dizem, ninguém quer passar por dificuldades, mas às vezes é nelas que as famílias e os amigos se unem. A seleção brasileira pode usar os momentos de terror que viveu emocionalmente para se unir mais, crescer e corrigir seus próprios defeitos. Porque uma outra situação dessa é pesada demais para um time que tanto sentiu os problemas. Uma outra situação como essa pode não ser mais uma grande dificuldade. Pode ser uma tragédia.

O Brasil acabou avançando às quartas de final com muito mais sorte do que competência e tem que parar para pensar. O time não tem o que comemorar. A única sensação possível para a seleção brasileira é alívio.