A decisão do Tribunal Arbitral do Esporte, ao impor uma suspensão de 14 meses a Paolo Guerrero, é bastante discutível. Diante dos indícios de que o uso de substância proibida pelo atacante peruano foi acidental, como os próprios juízes avaliaram, a expectativa era de que a pena de seis meses determinada pela Fifa já fosse suficiente e, de volta às atividades, ele pudesse disputar a Copa do Mundo com a seleção de seu país. Porém, a corte não abrandou ao veterano. Manteve à risca o regulamento da Fifa (que a entidade internacional havia desconsiderado), considerando o período mínimo de 12 meses e máximo de 24 meses à punição. Desta maneira, diante dos apelos da Agência Mundial Anti-Doping e de Guerrero,  o TAS considerou que a sanção apropriada seria de 14 meses, tendo em luz o grau da falta de Guerrero. Algo que já não pode mais ser recorrido.

A Copa do Mundo, sem dúvidas, fará bastante falta à carreira de Guerrero. O centroavante batalhou pelo sonho com a Blanquirroja durante boa parte de sua trajetória. Participou de diferentes edições das Eliminatórias, brilhou em Copas América, fez parte de gerações que não tinham força suficiente sequer para brigar pela zona de classificação. E quando esta parecia ser a sua última chance, aos 34 anos, o centroavante comandou a campanha do time de Ricardo Gareca. Foi a referência técnica e também uma liderança clara, chamando a responsabilidade em vários momentos, até que se arrancasse a vaga na repescagem. O veterano não pôde ajudar seus companheiros a consumarem o triunfo que encerrou o jejum de 36 anos, mas se tornava um reforço importante rumo à Rússia.

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E a ausência do Mundial, a Guerrero, é mesmo algo de orgulho e patriotismo. Difícil imaginar que o torneio pudesse alavancar sua carreira a uma grande transferência ou algo que impulsionasse a sua visibilidade. Ele serviria mesmo para engrandecer sua história de 13 anos defendendo os Incas. Para ressaltar a importância de um jogador instrumental à Blanquirroja ao longo deste século. Quando pensarem no Mundial de 2018, possivelmente, os peruanos se lembrarão do imbróglio que envolveu o seu capitão. Mas certamente a maioria no país preferia ver o seu ídolo em campo, que fosse fazendo uma campanha modesta, ao menos defendendo a honra na competição.

A própria comoção nacional criada ao redor do caso dimensiona bem a adoração por Guerrero. O assunto dominava o noticiário da imprensa local e manifestações aconteciam nas ruas. Ao final, resta a decepção e a raiva com o tribunal por seu veredito. “Desilusão” talvez seja o melhor sentimento para se resumir ao que se passa no país, até pelo envolvimento do capitão nestas últimas semanas de preparação. Já surgem teorias de “complô” contra Guerrero. A mãe do centroavante diz que Claudio Pizarro (!) está por trás de tudo, enquanto o ex-jogador Germán Leguía brada contra a armação da Fifa. Vale lembrar que, teoricamente, há independência total do Tribunal Arbitral do Esporte em seu julgamento.

Guerrero vê seu futuro incerto na seleção, dependendo de outra façanha para chegar à sua sonhada Copa do Mundo. E mesmo no Flamengo há um entrave claro, com o comando técnico aguardando o retorno do centroavante para a sequência da Libertadores e do Brasileirão. Enquanto isso, a seleção peruana precisa seguir em frente, pois há pouquíssimo tempo até a Copa do Mundo. Lamenta-se muito pelo capitão. Mas o cenário atual, tendo em vista o que aconteceu nas duas últimas Datas Fifa, não é tão ruim assim. A Blanquirroja mostrou que pode se virar muito bem sem o homem de frente.

Guerrero faz falta, além da liderança, pela maneira como magnetiza o time. O jogo do Peru até o final das Eliminatórias na América do Sul passava pelo centroavante. Era a bola de segurança, principalmente a partir dos lançamentos longos feitos da defesa, para que o veterano usasse a sua presença física e preparasse a jogada; e também o homem de definição, considerando toda a sua capacidade dentro da área, sobretudo no jogo aéreo, ou mesmo por sua precisão nas bolas paradas. Sem o camisa 9, o time de Ricardo Gareca precisa jogar diferente. No entanto, os resultados recentes animam.

Se teve suas dificuldades contra a Nova Zelândia na repescagem, o Peru fluiu muito bem em seus dois últimos amistosos, contra Islândia e Croácia. Mal comparando, fez um bom trabalho como o do Liverpool sem Philippe Coutinho, no sentido que os jogadores na linha de frente dividiram mais as responsabilidades. André Carrillo e Jefferson Farfán não são centroavantes de área, mas formaram boa parceria no ataque, com Raúl Ruidiaz dando conta do recado quando acionado na função. Além disso, há uma boa fluidez com Édison Flores no meio, tanto pelo lado quanto pela faixa central. Já a proteção de Renato Tapia como volante mais fixo dá segurança aos Incas.

Sem Guerrero, o Peru foi um time bem mais vertical e móvel. As atuações contra Islândia e Croácia renderam avaliações positivas, até pelo futebol convincente apresentado pelos peruanos, contra escolas que não encontraram necessariamente nas Eliminatórias. Obviamente, perde-se um homem de área que pode resolver em uma bola – o que por vezes faltou contra os neozelandeses, mas não atrapalhou tanto assim. Por outro lado, ganha-se no conjunto, o que pode ser útil principalmente em partidas nas quais a Blanquirroja esperará para atacar – como diante da França ou da Dinamarca. E, no fim das contas, Farfán tem assumido bem esse papel de referência técnica, também pela excelente temporada que fez com o Lokomotiv Moscou, essencial para a conquista do Campeonato Russo.

Guerrero ainda pode ser importante nos bastidores da seleção peruana. Sua história vai servir de motivação a mais aos Incas, disso não há dúvidas. Todavia, considerando que a decisão do TAS é definitiva, não se pode fazer nada além de reclamar. A Blanquirroja precisa encontrar caminhos a se reerguer, e nem de longe parece presa a encontrar um jogador que substitua a função do camisa 9 – como Gianluca Lapadula e Claudio Pizarro foram considerados, mas ignorados na lista de 25 nomes. Ainda dá para honrar a oportunidade, 36 anos depois, e buscar uma vaga nas oitavas de final. Agora, por Guerrero.