Até podemos acreditar que o Flamengo não tinha certeza da resposta que Reinaldo Rueda daria à seleção chilena quando se sentou com o colombiano, nesta segunda-feira, mas tinha pronto um plano B caso recebesse o já esperado anúncio de que precisaria buscar um novo treinador. Em um intervalo de 35 minutos entre as notas oficiais em seu site, o clube rubro-negro anunciou que Paulo César Carpegiani substituirá Rueda.

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O Flamengo já negociava com Carpegiani, técnico do Bahia ano passado, para assumir o posto de coordenador técnico. Aproveitou o embalo para colocar o experiente treinador de 68 anos à frente da equipe. Um nome experiente, conhecido, identificado que, diante da trágica história com técnicos desta diretoria e de um mercado escasso de bons profissionais à disposição, representa uma bola de segurança para um ano em que conquistas não são uma opção para o Flamengo. Mas quão segura?

Desde que Eduardo Bandeira de Mello assumiu a presidência rubro-negra, o clube organizou as suas contas e conseguiu adquirir poder de investimento suficiente para construir um ótimo elenco. Mas a sequência de treinadores passou por diversas lombadas. Algumas por escolhas erradas do clube e outras por questões que não poderiam ser controladas – Mano Menezes pediu demissão e Muricy Ramalho precisou se aposentar por problemas de saúde. Reinado Rueda é outro caso desses.

Rueda dizia para a diretoria do Flamengo que reassumiria a equipe normalmente, nesta segunda-feira, mas na hora H revelou as negociações com o Chile. No mesmo dia, a seleção sul-americana anunciou seu novo treinador, o que corrobora os relatos da imprensa desse país. Claro que alguma coisa estava acontecendo, e Rueda poderia ter sido mais sincero e aberto com o Flamengo, permitindo que o clube seguisse sua vida com um novo treinador um pouco mais cedo. Mas o fato de ter anunciado Carpegiani tão rápido também mostra que o Flamengo não foi pego com as calças na mão. Tinha uma alternativa engatilhada.

A discussão é se foi uma boa alternativa. Carpegiani tem métodos antiquados e não emplaca um grande trabalho há um bom tempo. Não foi mal nem no Coritiba e nem no Bahia. Alcançou seus objetivos, e até esboçou uma briga pela Libertadores em Salvador, mas eram incêndios que precisavam ser apagados. A exigência, agora, é outra. O Flamengo busca conquistas com certo desespero para aliviar a pressão depois de um ano mediano, sendo bonzinho.

O que Carpegiani tem a seu favor é a identificação com o clube, pelo qual foi campeão mundial em 1981 – mais de 36 (!) anos atrás -, e as costas largas que os dirigentes sempre buscam em seus treinadores. Passa mais confiança de que não deixará o Flamengo na mão como alguns dos seus antecessores e pode ser escanteado com relativa facilidade para coordenador técnico, como era o plano inicial, caso as coisas comecem a dar errado ou algum treinador incontestável fique à disposição no mercado.

Porque, neste momento, não existem muitas opções. O Palmeiras, outro cargo brasileiro que inspira tanta cobiça quanto o do Flamengo, precisou apostar em Roger Machado, um jovem com apenas um bom trabalho e outro não tão bom assim em clubes grandes na carreira, depois de se frustrar com o retorno de Cuca, cujas rusgas e desgastes da sua última passagem pela Gávea impediram-no de ser uma opção para a vaga de Rueda.

Outro estrangeiro? Reinaldo Rueda é mais um projeto interrompido no Brasil, como Juan Carlos Osorio e Edgardo Bauza. Saídas compreensíveis, que não deveriam depor contra esse tipo de contratação – como, infelizmente, provavelmente acontecerá. É lei de mercado, para o bem e para o mal: são todos profissionais competentes, o que denota as boas escolhas que os clubes brasileiros estão fazendo, que cumpriram com as condições dos seus contratos para buscarem trabalhos que julgaram ser mais atraentes. Rueda só deveria ter conduzido o processo com mais clareza. Sem ele, Carpegiani é, em português claro, o que tem para hoje.