Paul McCartney lotou o Estádio do Morumbi em 2010 (Foto: AP)

Os shows salvarão os elefantes brancos da Copa? Parece que não

Os investimentos realizados pelos governos estaduais para a construção de grandes estádios em cidades que não têm um futebol muito forte preocuparam aqueles que têm respeito pelo dinheiro público. Principalmente Cuiabá, Brasília e Manaus, sem clubes nas duas primeiras divisões do Campeonato Brasileiro e, portanto, menos jogos com grande apelo para dar retorno ao que foi gasto. A expectativa dessas praças é compensar a ausência de bilheteria com outros eventos. Entre eles, shows de música.

Foi a linha de argumentação dos governos amazonense e manauara na inauguração da Arena da Amazônia no último dia 9. Enquanto o governador Omar Aziz (PSD) bradava contra a “imprensa do sul”, o prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) fazia quase que um apelo. Pedia que a iniciativa privada assumisse o estádio e usava justamente a realização de shows como argumento. “Eu gostaria muito que ela passasse para as mãos da iniciativa privada, com ressarcimento aos cofres públicos. Elton John já manifestou interesse de vir, Paul McCartney também. É questão de empresário cuidar disso”, disse, em entrevista à ESPN Brasil. Arthur Virgílo também citou a NBA e o UFC como possíveis atrações.

A NBA ainda está chegando ao Brasil, em outubro fará apenas seu segundo jogo no País. O UFC está em crescimento, mas só Las Vegas, Montreal e Toronto recebem ou receberam mais de uma edição no mesmo ano. Assim, o grosso da conta teria de ser pago com shows. E aí há um problema de mercado. Depois de uma explosão de shows, especialmente entre 2010 e 2011, o Brasil recebeu menos atrações internacionais nos últimos anos. Entre os motivos estão a alta do dólar, menos procura por parte do público, dificuldades com a estrutura e até a distância. E isso afeta todo o Brasil, incluindo até São Paulo e Rio de Janeiro.

As grandes bandas internacionais não costumavam vir para cá. Os americanos do Metallica tocaram no Brasil apenas em 1993 e 1999 antes de aproveitarem o aquecimento do mercado para transformar o País em parada obrigatória. Havia, no coração dos fãs, uma sensação de que aquelas oportunidades eram únicas. Pagava-se qualquer coisa por um ingresso e dormia-se na fila da bilheteria, tudo para não passar o resto da vida morrendo de arrependimento.

Isso mudou bastante. O vocalista James Hetfield veio para cá com a sua trupe do Metallica quatro vezes nos últimos cinco anos, contando o Rock in Rio. Muita gente matou a vontade de ver os seus artistas favoritos e não há mais o mesmo desespero. O preço dos ingressos, porém, continuaram altos. O que caiu, além do interesse, foi a força do real em relação ao dólar. Por isso, há menos demanda para shows internacionais no Brasil. “Quando o dólar sobe, atravanca a vinda de shows internacionais”, afirma o jornalista André Barcinski, blogueiro do Portal R7, especialista em música, com a experiência de alguém que já produziu muitos shows. “Os cachês são todos em dólar, como também frete, impostos, transporte de banda, burocracia, vistos. É uma parte considerável do custo.”

O melhor exemplo para retratar esse momento é o Morumbi, maior estádio da maior e mais rica (e, portanto, a que recebe mais shows internacionais) cidade do Brasil. A casa são-paulina teve uma queda considerável de eventos anuais. Foram sete shows em 2010 (Metallica, Beyoncé, Coldplay, Bon Jovi, Rush, Black Eyed Peas e Paul McCartney), seis em 2011 (Shakira, Iron Maiden, U2, Justin Bieber, Eric Clapton e Pearl Jam) e apenas três em 2012 (Roger Waters, Lady Gaga e Madonna). Waters, ex-baixista do Pink Floyd, atraiu 70 mil pessoas, mas a apresentação da Lady Gaga virou piada na internet e houve até uma promoção da produtora Time For Fun: dois ingressos pelo preço de um. A cantora reuniu apenas 50 mil pessoas, mesmo público de Madonna. Detalhe: em 2008, a Rainha do Pop teve os ingressos esgotados em 24 horas e realizou dois shows extras para dar conta da demanda.

Roger Waters sempre soube usar o espaço de grandes arenas (Foto: AP)

Roger Waters sempre soube usar o espaço de grandes arenas (Foto: AP)

O cenário do ano passado foi ainda pior. Houve uma migração para palcos menores, como a Arena Anhembi, na zona norte, com capacidade para 30 mil pessoas, onde tocaram bandas como Aerosmith, Red Hot Chilli Peppers, Justin Bieber e John Mayer, em 2013. Os shows grandes restringiram-se a Beyoncé e Bon Jovi, no Morumbi, e Black Sabbath, no aeroporto Campo de Marte (70 mil). Bruce Springsteen, que arrasta multidões em todo lugar, apresentou-se para 9 mil pessoas no Espaço das Américas.

E o problema não é só no Brasil. “Esses megashows estão em uma época de crise no mundo inteiro. U2 continua bem, mas fizeram vários shows que não estavam lotados. Acontece também nos Estados Unidos e na Europa, onde você tem lugares para 20 e 30 mil pessoas. Aqui, ou você tem casas noturnas que cabem seis, sete mil ou estádios de futebol”, justifica Barcinski.

Mesmo nos anos em que o Brasil recebeu muitos shows grandes, não houve uma periodicidade suficiente para amenizar os custos das produtoras. Quando há muitos artistas tocando no mesmo lugar, elas dividem o custo do palco e da logística. “Tem a turnê da Beyoncé na mesma época do Aerosmith e de outra banda. Os promotores se juntam para rachar os custos”, explicou.

A agenda de shows para 2014 continua tímida. Há apenas quatro bandas com potencial de grandes shows confirmadas até agora, contando com o Guns N’Roses, que tocou para apenas 11 mil pessoas em Brasília. O Morumbi recebeu o Metallica (o público foi de 65 mil pessoas no último final de semana) e se prepara para as apresentações do One Direction. A turnê de Elton John também vai passar pelo Brasil é o único desses artistas que vai visitar o Nordeste (Salvador e Fortaleza).

Eventos que realmente atraem muita gente são festivais, como o Rock in Rio, Lollapalooza e Planeta Terra. Com a soma dos fãs das diversas bandas, o público chega a 100 mil. O problema é que esses eventos exigem uma estrutura (espaço, quantidade de palcos, atrações de lazer) que não cabe em um estádio. Tanto que os festivais deixaram Morumbi e Maracanã e migraram para espaços mais amplos, como Cidade do Rock, autódromo de Interlagos, Jockey Club de São Paulo e Anhembi.

Shows também não são uma árvore de dinheiro. No período de auge dos espetáculos, o São Paulo chegou a receber R$ 2 milhões pelo aluguel do Morumbi para um show, valor muito acima do normalmente praticado no mercado. Em uma estimativa bastante otimista para o momento atual, os estádios da Copa poderiam conseguir R$ 1 milhão por um grande show. Para pagar as contas da Arena da Amazônia, com manutenção avaliada em R$ 500 mil mensais, Manaus teria de receber seis grandes shows por ano. Pouquíssimos artistas justificariam um investimento desse tamanho da produtora. Paul McCartney é um sucesso de bilheteria em qualquer lugar que faça show – lotou o Arruda, em Recife -, mas dificilmente tocaria em alguma cidade brasileira mais de uma vez por ano.

Por isso, André Barcinski acha difícil que qualquer estádio da Copa, ainda mais em uma capital que está fora do circuito brasileiro de grandes shows, consiga se bancar com música. “Qual show vai colocar ali para ser lucrativo? Eu não consigo pensar”, diz. “Talvez esses grandes festivais de sertanejo, mas quantos você faz em um ano para ter giro de público? Que show, tirando carnaval ou festas folclóricas, que atrai 45 mil pessoas para praças como Cuiabá e Manaus? Nada contra Manaus, mas quando tem show em São Paulo, vêm pessoas do País inteiro para assistir. Não consigo imaginar que isso seja lucrativo.”

A Trivela entrou em contato com as secretarias de cultura do Mato Grosso e do Amazonas. A assessoria do governo mato-grossense afirmou que haverá uma reunião na próxima semana para discutir o assunto, mas não há um plano estabelecido no momento. A reportagem não foi atendida pelo governo amazonense até o fechamento deste texto.

Distância não ajuda

As bandas com nível de fama para encher um estádio costumam viajar com equipes de 70 a 80 pessoas. O pagamento não é por show, mas mensal. Salário mesmo. Então, ao sair em turnê, quanto mais shows forem programados, melhor. E isso no Brasil é um grande problema. Para começar, a viagem geralmente é longa. “Perdem dois dias com todo mundo no avião, durante 12 horas, e a banda pagando a equipe sem usá-la”, argumenta Barcinski.

As dimensões do Brasil desmotivam as pessoas a viajarem para outras praças e os artistas a marcarem muitos shows de uma vez só. A agenda acaba sendo restrita a Rio de Janeiro e São Paulo, de vez em quando Belo Horizonte e Porto Alegre. O gasto para pular do Sudeste para outras regiões do Brasil é muito grande e não compensa o problema. Nos Estados Unidos, é mais fácil subir no ônibus e passar por cidades ricas como Nova York, Boston e Filadélfia em pouco tempo, ou San Diego, Los Angeles e São Francisco. “O cara toca no Rio de Janeiro e em São Paulo. Não vai tocar em Cuiabá. Eu já fiz muitas excursões internacionais. O trajeto era sempre o mesmo: Santiago, Buenos Aires, Rio e São Paulo. É tudo aéreo, caro para caramba. Tome custos de passagem, frete”, conta.

Ano passado, Beyoncé tocou no Morumbi ano passado (Foto: AP)

Beyoncé tocou no Morumbi ano passado (Foto: AP)

A saída poderia ser local. Afinal, o cenário musical brasileiro é bastante amplo, com muitos seguidores. Mas, ainda assim, falta potencial para encher estádios. Aí, o problema é a falta de urgência que o público sente para pagar um ingresso caro por um show de Skank, Ivete Sangalo ou Luan Santana. Estão toda hora na televisão e às vezes fazem shows de graça no interior, em um esquema de permuta com as rádios locais, e mesmo nos grandes centros, como na Virada Cultural, de São Paulo.

Outro obstáculo para grandes shows nacionais é a cultura dos festivais. Várias grandes cidades têm o seu. “Durante três, quatro dias, tem Claudia Leitte, O Rappa, bandas de pop, sertanejo, toca tudo. Quando eles voltam, não conseguem fazer shows na cidade do mesmo tamanho. O evento é muito maior que eles sozinhos. Isso está prejudicando muito o mercado de shows individuais dessas bandas”, comenta Barcinski. “Se a Ivete Sangalo fizer show em São Paulo, sozinha, eu duvido que ela lote o Anhembi.” E é difícil fazer um festival nacional dentro de um estádio pelos mesmos problemas de infraestrutura dos internacionais.

Não é apenas Manaus e Cuiabá que podem passar por apuros por causa da queda de frequência de grandes shows. A partir do meio do ano, quando a Arena Corinthians e o Allianz Parque forem inaugurados, o São Paulo terá dois concorrentes pelos principais eventos. Se o estádio de Itaquera sai atrás por causa da localização, o do Palmeiras fica bem próximo do centro e já levou vantagem em relação ao Morumbi. Os dois shows do One Direction este ano seriam no antigo Parque Antártica, mas foram transferidos para a zona sul por causa do atraso das obras.

Não é impossível fazer os estádios renderem, mas não é tão fácil quanto o discurso dos políticos indica. Amazonas, Mato Grosso, Distrito Federal e outros governos estaduais – o Náutico anda levando muito pouco público para a Arena Pernambuco -, vão precisar de muita imaginação e competência para compensar a falta de receita com o futebol. Podem começar aceitando que o Paul McCartney não é uma varinha mágica que transforma prejuízo em lucro.

VEJA AS OUTRAS MATÉRIAS DO ESPECIAL SOBRE OS NOVOS ESTÁDIOS BRASILEIROS