Aderbal Lana nasceu em Uberlândia, mas seu nome se transformou em sinônimo do futebol do Amazonas. Desembarcou para trabalhar em Manaus pela primeira vez durante os anos 1980, após treinar diferentes equipes do Centro-Oeste. Não demorou a conquistar taças e a protagonizar boas campanhas à frente do Nacional, relevante no cenário brasileiro àquela época. O início de uma relação profunda, que atingiu seu ápice na virada do século, com o São Raimundo tricampeão da Copa Norte, vice da Série C e semifinalista da Copa Conmebol. E, aos 70 anos, o comandante continua empilhando taças do Barezão. Neste final de semana, conquistou o seu nono título no Campeonato Amazonense, o primeiro do recém-criado Manaus FC, e o 13° estadual da carreira.

Nacional, São Raimundo, Rio Negro, Fast, Penarol, Sul América, Princesa. O currículo de Aderbal Lana abarca quase todas as principais equipes do Amazonas, campeão pelas três primeiras citadas. O Manaus seria mais um a preencher a lista, confiando na tarimba do treinador para chegar ao seu primeiro título. O veterano foi trazido em meados de abril, visando a reta final do Barezão. Então técnico da equipe, Igor Cearense (ex-meia de passagens por Fortaleza, Flamengo e Coritiba) foi ‘rebaixado’ ao cargo de auxiliar, enquanto Lana transmitiria os seus conhecimentos a um elenco bem organizado, mas que ainda precisava dar um passo além para se afirmar no cenário estadual. Em 15 jogos sob as ordens do novo comandante, o Gavião acumulou oito vitórias e sete empates.

Terceiro colocado na fase de classificação, o Manaus provou a sua força nos mata-matas. Primeiro, eliminou o Fast nas semifinais, até pegar o maior campeão local na decisão. O histórico, porém, não pesou ao Nacional diante dos novatos. O Gavião venceu o jogo de ida por 1 a 0, graças ao gol de Wesley Napão aos 46 do segundo tempo. Já no reencontro, neste sábado, Negueba encaminhou a conquista inédita com um gol de falta aos 22 do primeiro tempo. A reação tardia do Nacional, empatando nos acréscimos da etapa complementar, de nada adiantou. O placar igualado em 1 a 1 consagrava o Manaus na Arena Amazônia, diante de modestos 2.881 pagantes.

Apesar de toda a experiência e do passado vitorioso, Aderbal Lana não se conteve. Foi às lágrimas, enquanto era erguido pelos jogadores. “Eu tenho certeza do que eu faço. O título foi importante porque, na minha opinião, a equipe em que estou trabalhando serve como modelo diferente ao futebol manauara. Por isso, acredito que possa alcançar séries melhores no Brasileiro. Fico feliz. Os jogadores colaboraram, o Igor foi importante, os roupeiros e massagistas. Estou emocionado. Eu sei o que eu tenho na mão e sei enxergar o futebol do adversário. É mais um título de alguém ultrapassado em cima dos inteligentes”, declarou após o jogo, ao Globo Esporte local.

Fundado em 2013 por dois ex-dirigentes de outros clubes locais, o Manaus referenda o seu trabalho. O clube conquistou o acesso à elite logo em seu primeiro ano, mas nas últimas três edições do Barezão fez apenas figuração, sem avançar à fase final. Investindo no elenco, chegou ao título em 2017, o que também representa passos maiores nos próximos meses. A conquista vale as vagas para a Copa do Brasil, a Copa Verde e a Série D em 2018. Se o Gavião tem a intenção de subir mais degraus na pirâmide nacional, o planejamento precisa ser intenso pensando em 2018.

Lana não confirmou se continuará à frente do Manaus para a sequência da jornada. O veterano sabe que a aposentadoria está próxima, mas a chance de fazer história também se coloca novamente em suas mãos. Pode não ser um treinador de ponta do futebol nacional, sem emplacar em outros centros. Contudo, o que fez no Amazonas merece muitíssimo respeito. É raro encontrar um profissional na história do futebol brasileiro que possua tamanha dominância regional. Lana será sempre uma referência, agora renovada.

PS: O número de títulos de Aderbal Lana no Amazonense diverge conforme a fonte. Os depoimentos dados ao Futebol do Norte e ao jornal A Crítica, no entanto, indicam que este foi o nono. Foram quatro pelo Nacional (1986, 1991, 2012, 2015), três pelo São Raimundo (1997, 1998, 1999), um pelo Rio Negro (1989) e um pelo Manaus (2017). Em 1985, ele participou apenas da campanha do Brasileiro pelo Nacional, no início do ano, sem ficar para o estadual, conquistado em dezembro; já em 2002, deixou o clube no meio do campeonato, com o título invicto faturado por Paulo Galvão.