A janela de transferências da Bundesliga movimentou-se como poucas vezes em sua história. E, pasme, o Bayern de Munique nem teve tantos créditos nisso. Dos 18 clubes que disputam a primeira divisão, 11 quebraram o próprio recorde de negociação mais cara. Pode até dizer um pouco sobre a tentativa de alavancar o campeonato em relação às outas ligas europeias, em especial a Premier League. Entretanto, tem significado ainda maior sobre os processos internos na Alemanha. O fortalecimento da Bundesliga vem sendo notável, mesmo sem jorrar tanto dinheiro quanto em países vizinhos. Além disso, com um projeto bastante particular na política de contratações.

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Os clubes da elite alemã desembolsaram cerca de €550 milhões em novos jogadores. Esta é a quinta temporada consecutiva em que a Bundesliga supera o próprio recorde na janela de julho e agosto, um crescimento de 18% (€87 milhões) em relação a 2015/16 e de 155% em relação a 2011/12 (€338 milhões) – o último ano antes do crescimento paulatino. Ainda assim, o Campeonato Alemão aparece atrás de outras ligas. Representa 78% do montante investido na Serie A em 2016/17 e apenas 38% do total da Premier League. O patamar atual dos alemães equivale àquilo que os ingleses já desembolsavam em 2006/07.

A questão na Bundesliga não é bem se equiparar à Premier League, embora os alemães tentem aumentar o seu nível de arrecadação para não perder terreno além de suas fronteiras. O investimento forte corresponde justamente aos ganhos de mercado, em um país que pode não oferecer tanto em direitos de transmissão e prefere não exagerar na arrecadação com ingressos, mas permanece com ótimas possibilidades comerciais por ser a economia mais forte da Europa. Não à toa, a tendência é que o recorde volte a se quebrar em 2017/18, quando entrarão em vigor os novos valores da televisão local, distribuindo €1,16 bilhão por ano – €1,1 milhão a menos do que a Premier League, mas €530 milhões a mais em relação ao contrato anterior. A perspectiva, de certa forma, permitiu gastos maiores já nesta janela, com a certeza de reembolso em breve.

Investimento alto em jogadores na Alemanha, porém, não quer dizer que os clubes fizeram loucura para contratar opções medianas. Obviamente, o patamar de recorde para muitos dos 11 times era relativamente baixo. O que chama mesmo a atenção é o fato de que, mesmo pensando no agora, muitos dos negócios também olham para frente. Destes 12 jogadores que quebraram a banca (considerando que, no RB Leipzig, há dois empatados), 10 deles têm 25 anos ou menos, enquanto sete sequer haviam passado dos 23 no momento da assinatura. E ainda há Renato Sanches, que pode ser o novo recordista do Bayern, caso parte de seus bônus previstos em contrato seja ativada. O projeto alemão de formação de talentos, aliás, atinge uma nova fronteira: além das pratas da casa, começa a também exercer forte influência sobre algumas das maiores promessas da Europa, saindo de ligas intermediárias.

O perfil geral do mercado na Alemanha investiu pesado em jovens talentos. O Borussia Dortmund serve de maior exemplo: não trouxe ninguém além dos 25 anos e conseguiu pinçar três dos sub-20 mais cobiçados da Europa – Ousmane Dembélé, Emre Mor e Mikel Merino. Além dos aurinegros, equipes como Borussia Mönchengladbach, Mainz 05 e Hamburgo tomaram caminhos parecidos. Bayer Leverkusen, Schalke 04 e Wolfsburg não deixaram de confiar em um ou outro veterano, mas também descarregaram suas fichas sobre jovens. Já o RB Leipzig fortaleceu o seu interessante projeto na primeira divisão – dos sete novos nomes, o único acima dos 22 anos é Kyriakos Papadopoulos, de 24, trazido por empréstimo.

No fim das contas, as contratações têm significado maior para o próprio equilíbrio interno da Bundesliga. Elas apontam para a competitividade do campeonato, com o Borussia Dortmund querendo diminuir a diferença para o Bayern de Munique e boa parte dos demais almejando cavar uma vaga nas copas continentais. A própria reestruturação dos elencos de alguns dos principais demonstra isso. O que quase sempre é feito sem se pautar no imediatismo e na pressa, mas pensando alguns passos à frente.

Abaixo, os 11 recordes de transferência quebrados na atual temporada:

Augsburg (Schmid, €5,3 milhões)

Bayer Leverkusen (Volland, €20 milhões)

Borussia Dortmund (Schürrle, €30 milhões)

Borussia Mönchengladbach (Kramer, €15 milhões)

Darmstadt (Bezjak, €3 milhões)

Hamburgo (Kostić, €14 milhões)

Hoffenheim (Kramarić, €10 milhões)

Ingolstadt (Tisserand, €3 milhões)

RB Leipzig (Keïta/Burke, €15 milhões)

Mainz 05 (Córdoba, €6,5 milhões)

Schalke 04 (Embolo, €22,5 milhões)

*Bayern de Munique (Renato Sanches, €35 milhões, caso os bônus atinjam mais €5 milhões)