Após uma reunião com o secretário de Segurança Pública e o comando da polícia do estado, o Sindicato dos Atletas de São Paulo decidiu suspender a paralisação que estava programada para o próximo final de semana, mas manter o estado de greve. Isso significa que a rodada do Campeonato Paulista será realizada como planejada, enquanto o órgão paulista continua buscando algumas reivindicações junto ao poder público, clubes e federação.

O presidente do Sindicato dos Atletas, Rinaldo Martorelli, ex-goleiro do Palmeiras, não quis especificar o que mais está pleiteando – acha que atrapalharia as negociações -, mas um dos pontos é a responsabilidade dos clubes, empresas privadas, de garantir a integridade física dos seus funcionários. Ele já conseguiu com o secretário de segurança Fernando Grella um reforço policial para os jogadores e contato direto com o comando da polícia.

A PM estava no CT Joaquim Grava quando torcedores organizados do Corinthians invadiram uma propriedade privada, ameaçaram funcionários fisicamente e furtaram celulares. Havia, segundo o próprio Martorelli, 13 viaturas no local, que retiraram os infratores. Mas ninguém foi preso. “A PM agiu de acordo com as informações que tinha e agiu muito bem”, ponderou. A partir de agora, tudo vai mudar, porque a terceira conquista do Sindicato dos Atletas é a promessa de que a PM, enfim, vai colocar pessoas que cometem crimes na cadeia.

“Se os agressores fizerem isso de novo, não vão passar impunes”, disse. “Jamais posso duvidar da palavra da secretaria do Estado. É um fato inédito (ter a polícia à disposição). Precisamos valorizar essa conquista”. Ele conta com a imprensa – e, já que é assim, lá vai – para divulgar essas determinações, de modo a intimidar os agressores. “A partir de agora, não vão ter tanta coragem. Há um aparato policial para coibir”, explicou.

Ele quantificou. Essas conquistas são 90% do que Martorelli está tentando atingir. Os outros 10% serão negociados com os clubes, Ministério Público, Ministério Público do Trabalho e Federação Paulista de Futebol. Caso não haja mais avanços em duas semanas, a paralisação voltará a ser considerada. 

O neoliberal futebol brasileiro não tem vergonha nenhuma de recorrer ao Estado quando as coisas apertam. Já havia feito isso com a Timemania, por exemplo. Agora, quando é hora de pagar impostos, os clubes querem facilidades, perdão de dívidas, e os atletas levam parte do salário como direitos de imagem. A polícia será ainda mais mobilizada do que já é para garantir a segurança de um evento privado, em vez de patrulhar as ruas, e 90% do plano do Sindicato dos Atletas para lidar com a violência dos torcedores é esconder os jogadores atrás de um cordão policial.

Martorelli criticou os clubes, é verdade. Disse que a maioria dos êxitos da polícia são secretos, enquanto as suas falhas são públicas, como se ela fosse o FBI brasileiro. O ex-goleiro alegou que viu documentos que comprovam que a PM prende, sim, muitos “arruaceiros”. O que acontece muitas vezes é que o clube e até mesmo políticos intercedem para que eles sejam soltos. “Não dá para dizer que não tem responsabilidade e dar ingressos”, exemplificou.

No entanto, essa pressão está muito fraca. Depois do indivíduo que pega um pedaço de pau e tenta acertar a cabeça de um jogador de futebol, os clubes são os principais responsáveis por essa violência, porque mantém uma relação promíscua de troca de favores com as organizadas. Enquanto esse laço não for rompido, convocar a Swat para escoltar a delegação ou coibir os vândalos nas arquibancadas não vai adiantar.

A paralisação não foi retirada da mesa. Os clubes, segundo Martorelli, estão dispostos a conversar, mas um final de semana sem jogos e todos os prejuízos financeiros que isso acarretaria, com televisão, patrocinadores e federações, seriam uma motivação gigantesca para os dirigentes finalmente se distanciarem da parte mais violenta da torcida.

Outras categorias não têm o mesmo privilégio de bater na porta da secretaria de Segurança Pública. Os mesmos “baderneiros” que querem agredir os atletas gritam “imprensa f… da p…” nos estádios e ameaçam jornalistas. Algum deles ganhou escolta para ir trabalhar nos jogos?