O Estádio Nacional de Lima estava especialmente preparado para a noite histórica. Todos os peruanos sabiam da importância da ocasião que surgia nas Eliminatórias. Tinham consciência sobre a grandeza da oportunidade de retornar a uma Copa do Mundo depois de 36 anos. Os torcedores coloriram as arquibancadas em vermelho e branco. E os jogadores carregavam ao campo o peso da responsabilidade. A tensão sobrou durante os 90 minutos. A Colômbia, que também jogava por um lugar no Mundial, não facilitava para os Incas e saiu na frente. Contudo, uma falha de David Ospina em cobrança de falta de Paolo Guerrero, combinada com os gols do Brasil sobre o Chile, permitiu a comemoração de ambas as seleções. O empate por 1 a 1 colocou a Colômbia na Rússia, enquanto o Peru vai à repescagem. O suficiente para que a Albirroja continue alimentando seu sonho.

A atmosfera arrepiante se sentia nos arredores do estádio, e aumentava absurdamente dentro dele. As arquibancadas pulsavam, com os torcedores se empenhando a agigantar a sua seleção desde a entrada no campo. Força que se evidenciou principalmente durante a execução do hino nacional. Os jogadores peruanos cantavam a plenos pulmões. Alguns, sequer seguravam a emoção e tinham os olhos cheios de lágrimas. Era a chance de oferecer ao país aquilo que diferentes gerações não conseguiram. Porém, não seria fácil para os Incas lidarem com o fardo durante boa parte do tempo.

Ricardo Gareca escalou o Peru com uma proposta ofensiva. Precisando da vitória diante dos riscos maiores, os anfitriões tinham iniciativa e tentavam pressionar a Colômbia. Porém, havia uma clara dificuldade em trabalhar a bola. A criação dos Incas era praticamente nula. Forçava as jogadas com Guerrero, que encarava a defesa colombiana, mas não levava perigo à meta de Ospina. Os Cafeteros até conseguiam finalizar mais, mas também sem dar trabalho a Pedro Gallese. Era um jogo travado, em que as duas equipes almejavam o resultado. Só que ninguém desejava se arriscar, diante de tudo o que estava em jogo.

Sem Jefferson Farfán, o Peru depositava todas as suas fichas em Guerrero. Era ele o personagem da noite, o responsável por tentar decidir. E o centroavante ficou a um triz de marcar aos 39 minutos, em cruzamento da direita. Ele raspou a cabeça na bola, ficando a centímetros de acertá-la em cheio. Demonstrou sua clara frustração ao socar o gramado depois. É preciso dizer, entretanto, que a Colômbia também fazia um ótimo trabalho na marcação. Carlos Sánchez era um gigante na cabeça de área, enquanto Davinson Sánchez oferecia muita energia no combate. Ao final do primeiro tempo, o empate por 0 a 0 aumentava a cobrança sobre as equipes.

E o ataque rodado da Colômbia faria a diferença aos 10 minutos. Em um chutão da defesa, Duván Zapata ganhou pelo alto. Radamel Falcao García lutou contra os defensores e James Rodríguez chegou batendo, para estufar as redes. O sistema defensivo peruano apenas assistiu. Os Incas não deixavam de demonstrar vontade, mas faziam uma atuação inócua, afobada demais na construção, ansiosa demais na conclusão. Naquele momento, a classificação soava como um milagre. Seria preciso achar um gol em um lance isolado. Contar com sorte. Pois ela sorriria aos peruanos, graças a uma combinação de fatores.

No Allianz Parque, o Brasil começou a fazer sua parte contra o Chile. Abriu dois gols de vantagem. E o revés dos rivais era justamente o que o Peru precisava. Por conta do saldo de gols, o empate já seria suficiente aos Incas. Só que estava difícil de buscar o gol. Gareca fez as mudanças deixando a equipe ainda mais ofensiva, com Yordi Reyna e Raúl Ruidíaz dando novas opções ao ataque. Do outro lado, José Pekerman reforçava a sua marcação para garantir o resultado, evitando depender de qualquer eventualidade.

Apesar das substituições, a confiança continuava depositada em Guerrero. E, aos 30 minutos, veio a bola que todos esperavam. Um pé alto ofereceu uma falta na entrada da área para o Peru. O centroavante se preparou ao chute. Na final da Copa do Brasil, acertou o travessão. Contra a Argentina, parou em Romero. E desta vez? O veterano não teve a calma necessária na ocasião, sem perceber que Sandro Meira Ricci indicava dois lances na cobrança. Bateu direto. Para sua sorte, contou com a benevolência de Ospina, que também não pensou muito e agiu pelo instinto no momento decisivo. Guerrero mandou no canto, com veneno, mas o goleiro não foi com a mão suficientemente firme. Transformou o lance irregular em legal, ao dar o segundo toque e permitir que a bola entrasse. O Estádio Nacional explodia, em meio à pura ocasionalidade.

Os 15 minutos finais foram ainda mais arrastados. A Colômbia preferia gastar o tempo e se garantir com o empate. O Peru até chegou a ensaiar uma pressão, visando a vaga direta, mas a falta de tranquilidade continuava pesando contra. E à medida que o apito final se aproximava, ciente do que acontecia em São Paulo, ainda mais com o terceiro gol brasileiro, os Incas optaram por administrar a posse de bola. A deixa para a cena belíssima com o término da rodada: os dois times comemoravam. Os colombianos, num alívio imenso, por todos os erros que cometeram nesta reta final de campanha. Os peruanos, esperançosos por manterem viva a chama de disputar a Copa do Mundo, celebrando por mais uma chance, agora contra a Nova Zelândia. Os torcedores rodeavam e abraçavam os heróis.

A Colômbia se classifica à sua segunda Copa do Mundo consecutiva sabendo que precisa se reencontrar. O time oscilou demais sobre a campanha, mas acabou se garantindo em meio ao equilíbrio nas Eliminatórias e graças a resultados importantes fora de casa. Há jogadores qualificados em todos os setores, embora o encaixe não venha sendo tão satisfatório. Além disso, o próprio trabalho de José Pekerman, excelente no ciclo anterior, sofre seus questionamentos. Mas, com a vaga no Mundial carimbada, fica mais fácil de se deitar no divã e analisar as mudanças. Os Cafeteros possuem potencial para ao menos fazer um papel digno na Rússia.

Do outro lado, o Peru ainda possui mais uma etapa a superar. Durante a Copa das Confederações, a Nova Zelândia demonstrou possuir um time organizado, longe de ser uma baba. Mas não são eles que jogam com a história do seu lado. A chance de completar uma caminhada épica para todo um país, que deseja a Copa do Mundo há décadas. O teste de fogo foi importante aos Incas, especialmente pelo gosto de vingança sobre o Chile por 1998. Agora, precisam se concentrar para que tudo se concretize. A atuação nesta terça não foi boa, e os peruanos precisam estar agradecidos pelo resultado não ser fatal. A sorte, de qualquer forma, muitas vezes joga ao lado de times que ficam na memória.