Clássicos costumam ser naturalmente tensos. Ainda mais quando são decisivos. E mais ainda quando significam tanto ao momento de ambos os clubes. O Botafogo tentando ratificar a excelente fase, enquanto briga por dois títulos de projeção que não conquista há tempos. O Flamengo almejando dar a volta por cima em um momento de crise, na estreia do novo técnico. Mas, ao final, a cautela pesou muito mais do que a ambição no jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil. Os dois rivais fizeram um embate no qual pouco buscaram a vitória. O empate por 0 a 0 acabou sendo o mais condizente com os 90 minutos de parco futebol no Estádio Nílton Santos. E que teve a contribuição do árbitro Anderson Daronco para esfriar de vez, com as expulsões desmedidas de Alex Muralha e Joel Carli na reta final do segundo tempo.

O clima conturbado na noite chuvosa do Rio de Janeiro começou antes mesmo do início do jogo. Afinal, por mais que a torcida do Botafogo prometesse uma festa nas arquibancadas, o entorno do estádio foi tomado por confusões, com o uso de balas de borracha e de bombas de gás lacrimogêneo. Nada que influenciasse a partida, mas certamente tirou um pouco do brilho da ocasião.

Em seu primeiro jogo à frente do Flamengo, Reinaldo Rueda não trouxe novidades drásticas, até pelo pouco tempo de trabalho – no máximo, demonstrou confiança em Cuéllar e mudou as laterais. Por mais que não criasse muitas ocasiões de gol, o Fla começou melhor. Tinha a posse de bola e tentava encontrar espaços no campo de ataque. O Botafogo conseguia manter a solidez defensiva, mas tinha muitos problemas para contragolpear, sem encadear as jogadas. Faltava aos rubro-negros aproveitar o momento. A primeira finalização aconteceu apenas aos 16 minutos, para defesa segura de Gatito Fernández.

O Botafogo melhorou a partir dos 20 minutos. Passou a se impor mais no campo de ataque, equilibrando as ações, e ameaçava principalmente nas jogadas pelos lados, mandando a bola na área. Já aos 27, a melhor chegada dos alvinegros. Bruno Silva tentou emendar o voleio, mas errou o alvo. O meio-campista, aliás, era quem mais chamava a responsabilidade na sua equipe, mas a defesa rubro-negra conseguia se safar. O jogo era morno, até que Gatito Fernández salvasse o Bota e (principalmente) a arbitragem pouco antes do intervalo. O paraguaio operou um milagre à queima-roupa em chute de Berrío, em lance incorretamente invalidado pela arbitragem, por uma bola que não tinha saído conforme o assinalado.

Para o segundo tempo, o Flamengo voltou com mais atitude. Everton aparecia bem, mantendo sua boa fase recente. E o ponta possibilitou a melhor oportunidade aos rubro-negros, aos 10 minutos. Sofreu uma falta em local perigoso, na entrada da área. Diego cobrou no capricho, mas a bola explodiu no travessão antes de ser neutralizada pela defesa. O Botafogo não tinha sucesso em seus contra-ataques, com os zagueiros flamenguistas prevalecendo, e via os rivais encontrando mais espaços. Não era bem uma pressão, mas o Fla se impunha e deixava a zaga alvinegra em apuros. Enquanto isso, o jogo de nervos descambava a entradas mais ríspidas. Aos 20, Rodrigo Pimpão deu um carrinho duríssimo em Orlando Berrío e ganhou o cartão amarelo. Suspenso para a próxima partida, foi substituído por Guilherme, mas também obrigou a saída do colombiano por lesão.

Rueda, todavia, não agradou nas substituições. Primeiro, tirou Berrío para a entrada de Márcio Araújo, adiantando Willian Arão. Depois, sacou Everton, um dos melhores do time, para recobrar a ofensividade com Vinícius Júnior. E o prodígio não ficou nem 10 minutos em campo, por culpa da lambança de Daronco. Alex Muralha levantou a perna em uma bola alçada e se estranhou com Joel Carli. O árbitro, então, interveio com um rigor exagerado e expulsou ambos os jogadores – o capitão botafoguense já tinha levado o amarelo pouco antes. Foram minutos de confusão até que os dois saíssem de campo e a partida fosse retomada, com Thiago entrando na meta do Fla e Marcelo recompondo a zaga do Bota, após as saídas de Vinícius Júnior e Roger. A partir disso, o duelo se arrastou até o final. Os dois times mal atacaram, acumulando erros até que o apito soasse.

Pode não ter faltado aguerrimento a botafoguenses e flamenguistas, como se viu nas próprias divididas. Contudo, os dois times ficaram devendo. O setor de criação foi praticamente nulo, por mais que o Flamengo conseguisse trabalhar a posse de bola, orquestrado por Diego. Uma partida aquém da ocasião. Reinaldo Rueda terá mais tempo para tirar suas primeiras conclusões sobre o time, especialmente depois das alterações que pareceram precipitadas. Jair Ventura, por sua vez, necessita de uma solução para os desfalques sentidos de Carli e Pimpão. Para sua satisfação, ao menos, o gol no reencontro no Maracanã valerá bastante, após não ter sofrido tentos em casa. Talvez a deixa para que os rubro-negros ataquem mais e os alvinegros executem melhor seu plano de jogo de aguardar os contra-ataques. A esperança de que o bom futebol (ou ao menos a emoção) apareça no jogo de volta, como não aconteceu no Nilton Santos.