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Sócrates, 60 anos: a rica herança deixada pelo Doutor

O futebol passou a ser mais vazio depois daquele 4 de dezembro de 2011. Vazio em presença física e convívio, mas não em lembranças e ideais, deixados como rica herança. Sócrates completaria 60 anos nesta quarta-feira, se ainda estivesse vivo. E é lógico que faz falta. Dentro de campo, pelo craque de estilo único que foi. Mas fora dele ainda mais, pela lucidez de seu raciocínio e a visão que fugia do lugar comum. Sócrates foi, sobretudo, um grande exemplo. De como o simples jogo pode amplificar a voz de quem luta por melhorias na sociedade. Como ele mesmo dizia, “dê os meus gols por um país melhor”.

Logicamente, Sócrates não chegaria tão longe nos gramados se não fosse o talento. A inteligência nos movimentos e nos toques rápidos, para tornar o desengonçado corpo esguio em símbolo de elegância. Só que, tão importante quanto a sua técnica, também era a liderança. Foi o ícone em momentos importantes do Corinthians e da Seleção. Por mais que o sonho criado em ambos não tenha se concretizado por completo, o Doutor se eternizou.

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Na Copa de 1982, o título de campeão do mundo não veio, apesar das atuações magníficas da seleção e de seu capitão. “Agora, deixo apenas a frustração intensa, talvez a maior da minha vida, por não conquistar o título que eu, no íntimo, alimentava tanto. Eu queria que este diário terminasse com a seguinte frase: Obrigado, torcida. Somos campeões!”, escreveu à Revista Placar, logo após a derrota para a Itália.

Já a Democracia Corintiana foi um sucesso em seu microcosmo. Porém, não evoluiu àquele que era o objetivo velado de muitos dos líderes do movimento: a conscientização do Brasil sobre a importância das Diretas Já. A derrota nas urnas frustrou Sócrates. O meio-campista optou por mudar-se à Itália, defender a Fiorentina, afastar-se do país – o que não aguentou por muito tempo, na saudade que o fez encerrar a carreira no Brasil.

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“Caminhando com dificuldades naquele mar de gente, pude como raras vezes na vida me sentir muito mais brasileiro. Os rostos eram plenos de esperança e de entusiasmo. A euforia ultrapassava qualquer expectativa que pudesse ter tido. O grito ‘Diretas Já’ há tanto tempo engasgado em nossas gargantas era a bandeira que representava os que sofreram nas mãos da ditadura e a busca por um caminho mais justo e nosso. Como aliás, era a Democracia Corintiana que de há muito provocava extensas discussão sobre a redemocratização do país. Aquele movimento provocou profundas transformações na sociedade brasileira. Quem poderia imaginar que 20 anos depois tivéssemos um legítimo representante do povo portando a função presidencial. Nada será mais belo do que aquilo que vivemos naquele período”, analisou tempos depois, já com a sabedoria de quem pode rever o passado.

E se Sócrates não fosse um craque? Se sequer tivesse tornado um jogador profissional, optasse por seguir a carreira de médico em Ribeirão Preto? Nunca saberemos o que aconteceria. O pensador seguiria existindo, por mais que a vida não levasse aos mesmos caminhos, que o futebol não o tornasse uma figura pública. Poderia se tornar político? Quem sabe. Sua postura libertária não indicava muito isso, mas o Doutor tinha totais capacidades para isso. Uma mostra foi dada na Placar de 1982, quando imaginou um plano de governo para o Estado de São Paulo. “O brasileiro busca basicamente trabalho, educação, saúde e alimentação. Tudo o mais decorre daí”, escreveu.

A única certeza? Que Sócrates faz falta, por tudo o que foi e pelo que representou. Resta o conforto da lembrança. As palavras e as imagens da grande figura.