A atuação de Loris Karius no Estádio Olímpico de Kiev é indefensável – um trocadilho cruel, ante o que aconteceu em sua noite desastrosa contra o Real Madrid. Não há como apaziguar as suas duas falhas capitais, que entregaram o tricampeonato continental aos merengues – embora, é claro, não seja o único problema. A um profissional que defende o Liverpool, um dos maiores clubes do planeta, a cobrança por erros como estes é incontornavelmente sufocante. Em uma partida com este nível de exigência, e com esta imensa repercussão, a chaga fica para sempre. Difícil encontrar uma exibição tão lamentável de um goleiro, num jogo que tenha a dimensão da final da Liga dos Campeões. Ante o sonho pulverizado, o camisa 1 certamente desejaria apagar de sua memória uma noite será eternamente lembrada, não só por ele. Neste ponto, a questão profissional se torna até menor. A situação de Karius como ser humano gera certa compaixão. Afinal, há um fantasma que o perseguirá por muitos anos.

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Karius atraía atenções desde as categorias de base. Passou parte de sua carreira no Stuttgart, até ser pinçado pelo Manchester City. Atuou na academia inglesa por dois anos, mas, sem espaço, preferiu retornar à Alemanha em 2011, juntando-se ao Mainz 05. Quando completou 20 anos, em 2013, assumiu a titularidade dos alvirrubros. Fez três temporadas em bom nível na Bundesliga, apontado como uma das principais promessas da posição. Não à toa, completou seu ciclo nas seleções de base, defendendo todas as categorias do sub-16 ao sub-21. A proximidade de Jürgen Klopp com sua antiga casa – o Mainz que amou como técnico e como jogador – certamente foi um facilitador no caminho do arqueiro. Em 2016, ele acertou sua transferência ao Liverpool.

Pelo potencial que demonstrava, Karius surgia como um nome ao futuro. Porém, nunca justificou a aposta feita pelos Reds. Só assumiu a titularidade pelo respaldo de Klopp e por aquilo que Simon Mignolet não garantia, entre tantos deslizes. E por mais que fizesse boas partidas, o alemão nunca transmitiu à torcida a segurança necessária. Até parecia que, em qualquer momento, estaria suscetível às falhas. Elas quase aconteceram em momentos importantes nesta Liga dos Campeões, mas o camisa 1 passou ileso. Até que os piores pesadelos acontecessem em Kiev.

Karius fez boas defesas na partida. Salvou o time com uma saída atenta no primeiro tempo e um milagre em cabeçada de Cristiano Ronaldo. Já na segunda etapa, entre os gols, seriam mais duas boas intervenções. Mas quem vai se lembrar disso? Quem vai se lembrar quando a cena da decisão, ao lado da bicicleta de Bale e do choro de Salah, é a sua completa desolação? O alemão pecou a primeira vez pela mais pura desatenção, um erro que é imperdoável a qualquer goleiro. Isso se escancarou ao entregar a bola nos pés de Benzema, quando já se mostrava destemperado, ao reclamar de uma cotovelada na cabeça minutos antes. Ali, o caos em sua mente se instaurava. Agachou-se enquanto os adversários celebravam. Culpou o bandeira, culpou Benzema, culpou o vento, mas internamente sabia que a culpa era sua. O camisa 1 até tentou se reerguer. Não conseguiu.

O segundo gol de Bale, o terceiro do Real Madrid, é daqueles frangos clássicos. Costas ao chão, braços estirados, assim ele sentiria os segundos posteriores à penúria. Daquelas falhas que, além de evidenciarem o pensamento avoado, também indicam alguém com excesso de confiança. Uma confiança que não deveria ter e que não encontrará entre os torcedores do Liverpool. Tanto é que o gol de bicicleta ganha um peso contra o arqueiro maior do que deveria. Em um lance imprevisível, no qual é praticamente impossível fazer uma leitura precisa do movimento corporal quanto ao direcionamento do chute, a bola foi longe de seu alcance. Seu problema foi encolher os braços, dando a entender que desistiu da jogada. Que estava entregue, sem se esforçar suficientemente. A omissão também é um pecado no olhar de quem vê.

E cabe dizer que a linha defensiva dos Reds, tão criticada ao longo da temporada, fez uma de suas melhores partidas. Elogiar Virgil van Dijk virou lugar comum. Ao seu lado, Dejan Lovren parecia disposto a fazer seus detratores engolirem as palavras, praticamente perfeito em todas as ações. Andrew Robertson era incansável pela esquerda, entregando-se até o último centímetro para realizar desarmes cirúrgicos. Enquanto isso, Trent Alexander-Arnold nem de longe foi o ponto fraco que muitos previam, soberano para conter a costumeira correria merengue por seu setor. Somente um destoou. E o desequilíbrio de Karius foi mais custoso do que nunca.

Quando o jogo acabou, Karius se transformou o homem mais solitário do estádio lotado. Ele só tinha a companhia de seus pensamentos aterrorizantes, dos olhares que o julgavam, dos insultos que não ressoam. Ajoelhou-se no gramado. Prostrou-se. Encheu-se de amargura e de lágrimas, numa dor que só o tempo é capaz de apaziguar. Em seu caso, talvez sem cura, mera homeopatia num mar de gente que insistirá a atribuir a lembrança imediata. O goleiro só ganhou um consolo quando Bale, o último algoz, apareceu para abraçá-lo. Mais jogadores do Real Madrid chegaram, enquanto cada atleta do Liverpool parecia fadado a suportar a sua própria tristeza. Nenhum deles, contudo, sem uma cruz perene como a do alemão. Somente depois é que membros da comissão técnica vieram.

Em prantos, Karius não saiu de cena. Voltou para pedir desculpas à torcida. Mesmo com o nome na lama, teve a honradez para dar sua cara a tapa e, mãos juntas, suplicar por um pouco de piedade. Algo que, ao menos pelos aplausos, lhe foi concedido. Por mais raiva que se sinta, o “nunca andará sozinho” que se entoa a cada noite vermelha fez nestas horas de frustração. O que não se viu, por exemplo, em suas redes sociais, um mar de covardia de quem se vê protegido por uma tela de computador. Lá, será uma longa caminhada sentindo o pior fel humano. Nesta noite, ainda assim, o arqueiro deverá se blindar disso.

“Eu não sinto nada neste exato momento. Hoje eu perdi o jogo para meu time e peço desculpas a todos. Sinto muito por todos – pelo time, por todo o clube. Os erros custaram caro. Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria isso. Sinto muito pelo meu time. Eu sei que decepcionei hoje. É muito difícil agora, mas esta é a vida de um goleiro. Você precisa erguer sua cabeça novamente. Não tive muito o que dizer no vestiário, todos tentaram me reerguer. Mas havia apenas silêncio, todos estavam desapontados. Vai levar um tempo para superarmos isso”, comentou Karius, na saída do Estádio Olímpico.

Ao seu lado, esteve mais uma vez Jürgen Klopp. O treinador não negou o óbvio, bem como declarou seu lamento: “Eu tive apenas poucas palavras aos rapazes depois do jogo. Mas não há nada para falar no momento. É realmente duro para Loris. Ninguém quer isso. É a situação. Os gols são estranhos, mas foi assim que aconteceu. Os erros são claros. Não temos que falar sobre eles. Karius sabe, eu sei, todos você sabem. Agora ele precisa lidar com isso, nós temos que lidar com isso. Nós faremos isso e estaremos ao lado dele. Estou certo que algumas pessoas não se esquecerão disso, então eu realmente espero que seus erros não sejam tão claros na memória de mais gente. Mas esta não foi a noite dele, obviamente. Sinto por ele, é um garoto fantástico”.

Da mesma forma, vieram outros em sua defesa. Aos microfones dos repórteres, o capitão Jordan Henderson. Do outro lado da imprensa, agora como comentarista, o eterno Steven Gerrard. Ele sabe muito bem qual o tormento causado: “Ninguém erra de propósito. Karius teve uma grande atitude ao se dirigir à torcida. Eu admiro-o por ter se desculpado. Esses torcedores do Liverpool vão apoiar você também quando os momentos são difíceis, assim como eles te empurrarão no auge. Mas não há como fugir disso. Karius terá meses difíceis. Será um verão duro”.

As lembranças das glórias europeias do Liverpool, aliás, estão diretamente atreladas aos goleiros. Ray Clemence foi o ídolo protetor nas três primeiras conquistas. Grobbelaar o substituiu e virou herói na disputa por pênaltis em Roma. Já em 2005, Jerzy Dudek parecia estar em posse de um espírito que não era o seu, com defesas impossíveis, com mais façanhas na marca da cal. Até que viesse a vez de Karius, longe de se aproximar do panteão. Será um vilão inescapável ao se contar a história de Kiev, mesmo que não mereça ter a carga inteira contra si.

Há outras falhas clamorosas em decisões de Champions. Duas marcantes aconteceram ainda nos primórdios da competição. Em 1961, o Benfica conquistou o seu primeiro título continental contra o Barcelona. Ramallets, goleiro dos blaugranas, espalmou para dentro da meta uma bola que batera na trave. Reza a lenda que, depois do lance, as traves deixaram de ser quadradas. Cinco anos depois, seria a vez do camisa 1 benfiquista estar do outro lado. A vitória da Internazionale por 1 a 0 aconteceu quando Costa Pereira agachou para segurar a ave e ficou somente com as penas nas mãos. Ambos veteranos, encerraram a carreira logo depois. Seguiram idolatrados pelas conquistas anteriores, anos de serviços prestados a culés e encarnados, embora aquelas derrotas marcassem asteriscos inescapáveis. Karius, por sua vez, não tem um passado que o sustente.

É difícil imaginar um futuro a Karius em Anfield. Precisará de um gigantesco apoio interno e de um perdão da torcida que ficará com a derrota martelando na cabeça. O movimento natural da diretoria já seria buscar um novo goleiro, e isso agora se tornará compulsório após Kiev. O maior ponto de virada, todavia, estará dentro do próprio Karius. Será se transformar no goleiro confiável que não vinha sendo. E sabendo que, ainda mais, será cobrado por qualquer deslize. Uma coisa é colecionar defesaças em um time pequeno como o Mainz 05, sempre bombardeado. Outra é ser preciso em cada uma das investidas que um gigante como o Liverpool sofre. Sua penitência é perpétua.

No Liverpool ou no minúsculo Biberach de sua cidade natal, Karius estará marcado. E não há muito o que fazer, este é o mundo real, onde você acaba avaliado por aquilo que causa. Neste ponto, o camisa 1 falhou miseravelmente, e ele sabe disso. Terá que aturar milhões de vozes que ele não necessariamente ouve, mas sabe que estarão debochando de suas capacidades. É o homem, não o goleiro, que precisará enfrentar isso.

*As quatro fotos dentro do texto estão em ordem cronológica: a reação ao primeiro gol; a reação ao terceiro gol; o apito final; e o pedido de desculpas à torcida.

Atualizado às 23h30: por uma dissonância causada pelo título, a quem não leu o texto, ele acabou alterado.