Ter um canal próprio de televisão, seja somente na internet ou transmitindo da maneira convencional, é algo que já virou comum para os grandes – e até para alguns nem tão grandes assim – clubes do mundo. Em Portugal, faltava o Sporting aderir ao “novo” meio de comunicação, que já faz parte da rotina de Benfica e Porto há algum tempo.

Faltava. Os leões inauguraram seu canal, batizado de Sporting TV, nesta quinta-feira (17). O horário escolhido para o início das transmissões foi sugestivo: 19h06, uma alusão ao ano de fundação do clube, 1906. E, como tudo o que vem da direção do Sporting nos últimos tempos (assim como quase tudo o que se refere ao trio de ferro lusitano), claro que houve alguma polêmica na história, com provocações aos rivais.

A Sporting TV transmite em algumas plataformas de TV a cabo, mas os assinantes não terão de pagar a mais para ter o canal. Além de Portugal, ele poderá ser assistido em Moçambique e Angola – há projetos para que o sinal chegue ao Brasil e Cabo Verde, mas ainda sem previsão de data. Sua programação fica no ar 24 horas por dia, mas apenas 6 destas horas são de conteúdo inédito. Em finais de semana e dias de jogos, o conteúdo inédito passa para 8 horas.

Com um orçamento inicial de € 1,8 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões) e 60 funcionários, o canal é administrado pela empresa World Chanells, que venceu a concorrência promovida pelo clube. O contrato exige que o diretor geral seja torcedor leonino.

Ao contrário do que faz a Benfica TV, o canal alviverde não transmitirá os jogos da sua equipe principal. Eles serão reprisados cerca de uma ou duas horas depois do final de cada partida. Ao vivo mesmo, somente as partidas da equipe B, que disputa a segunda divisão, além dos jogos das categorias de base e de modalidades como handebol, futsal, atletismo e hóquei sobre patins.

E é nesse ponto que entra a polêmica citada no início da coluna. Não transmitir jogos do seu time principal é uma estratégia do Sporting. Embora o clube não admita publicamente, é fácil de imaginar que seus executivos pesquisaram custos, possibilidade de retorno financeiro e aceitamento do mercado, entre outros fatores, antes de resolver que iriam por este caminho.

Mas, nas declarações que deu quando da inauguração do canal, o presidente Bruno de Carvalho preferiu justificar a escolha com ataques ao rival da cidade. “Não acreditamos no modelo em que os clubes transmitem os próprios jogos até por uma questão de coerência. Se queremos rigor de verdade desportiva, não nos parece que seja bom os clubes fazerem a transmissão dos próprios jogos. Há castigos que podem ser aplicados pelas imagens, depois pode haver manipulação dessas imagens, retirando um ângulo em que se vê uma falta, retirando uma imagem em que se vê uma agressão. Não podemos fazer aquilo que criticamos nos outros”, disse.

As declarações do presidente sportinguista são uma clara alusão à Benfica TV, que na temporada passada revolucionou o mercado ao transmitir com exclusividade todos os jogos do clube como mandante no Campeonato Português. Além de mexer com a concorrência, o fato novo trouxe dúvidas sobre até que ponto o canal seria imparcial em suas transmissões, principalmente no que se refere a lances duvidosos e polêmicos ou que não tenham sido vistos pela arbitragem. A coluna abordou o tema na época.

O fato é que, passado um ano, não há uma evidência de que o canal benfiquista tenha agido de má fé em alguma transmissão. Mas é claro que a pulga continuará atrás da orelha de todos, já que é impossível não se lembrar da ligação entre o canal e seu dono.

Bruno de Carvalho também cutucou o Porto, ao dizer que a Sporting TV não será um canal regional e não vai ter exclusividade nas transmissões das entrevistas pré-jogo. Os dragões, vale lembrar, administram um canal regional de televisão na própria cidade do Porto – que não é voltado exclusivamente ao clube. Além disso, recentemente a equipe passou a não permitir que jornalistas que não fossem do Porto Canal participassem das coletivas que antecedem às partidas.

Como já citado no texto, quase tudo que envolve os três grandes em Portugal tem alfinetadas entre eles. Assim, podemos esperar que agora as “brigas” ocorram também via satélite, com cada emissora defendendo o ponto de vista que mais lhe interessa. Basta esperar a próxima polêmica.