No Natal do ano passado, o torcedor do Sporting não tinha motivos para festejar. Após 12 rodadas do Campeonato Português, o time ocupava apenas a 10ª colocação, somente dois pontos acima da zona de rebaixamento. Era dono do segundo pior ataque da competição e tinha vencido somente duas partidas. Isso fora a crise interna e os problemas financeiros. A temporada já estava comprometida e tudo o que Papai Noel poderia fazer era, no máximo, evitar o vexame de cair para a segunda divisão.

Um ano se passou e as coisas mudaram radicalmente em Alvalade. Aqui, vale o velho e surrado clichê: nem o mais otimista dos leoninos imaginava que, no Natal de 2014, o time estaria na liderança do Campeonato Português. Com 14 rodadas disputadas (portanto, restando apenas uma para o final do primeiro turno), o Sporting fecha o ano com 33 pontos ganhos. A pontuação é a mesma dos rivais Porto e Benfica, mas os alviverdes levam vantagem nos critérios de desempate. Finalizar um ano na ponta da tabela é algo que não acontecia, para o Sporting, desde 2001 – o time viria a ser campeão ao final daquela temporada.

Os sportinguistas foram para a ceia de Natal deste ano de orgulho renovado. Puderam bater no peito para dizer que seu time não só é o primeiro colocado do campeonato, como possui o melhor ataque: foram 33 gols marcados até agora (média de 2,3 por jogo), ante 29 gols do Porto, o segundo colocado no quesito. Ambos ainda dividem o posto de melhor defesa, com apenas nove gols sofridos cada (média de 0,6 por partida).

E é justamente na defesa que está um dos segredos da reviravolta leonina. Leonardo Jardim conseguiu montar um belo sistema defensivo, capaz de anular ataques adversários e obter belas façanhas. Uma delas foi alcançada no empate por 0 a 0 com o Nacional da Madeira, na última rodada do Campeonato Português. Neste jogo, a zaga sportinguista alcançou a marca de cinco partidas seguidas sem sofrer gol. Rui Patrício (que também defende a meta da seleção portuguesa) não chegava a feito semelhante desde que alcançou a titularidade em Alvalade, em novembro de 2007.

Este citado empate em casa com o Nacional é exemplar para mostar outro aspecto que foi bastante alterado entre os leoninos. Para o bem e para o mal. A chegada ao poder de Bruno de Carvalho trouxe à tona um presidente jovem, cheio de garra e que realmente luta pelos interesses do seu clube – este é o lado bom. Mas mostra também um homem que às vezes parece ser ainda imaturo para o cargo que ocupa e, por isso, mete os pés pelas mãos – este é o lado ruim.

Contra o Nacional, o Sporting reclama de ter sido prejudicado pela arbitragem de Manuel Mota. Alega que não houve irregularidade no gol anulado, marcado por Slimani, e que os jogadores adversários abusaram das faltas violentas, sem a devida reprimenda por parte da arbitragem. Quando a partida acabou, os jogadores partiram para cima do árbitro e alguns torcedores chegaram a atirar garrafas no gramado de Alvalade. Mas ninguém fez pior que Bruno de Carvalho.

Isso porque o presidente (que assiste às partidas no banco de reservas) partiu em direção a Manuel Mota e disse ao árbitro, entre outras coisas, que sentia “vergonha por pertencer ao mundo do futebol”. Foi o próprio Bruno de Carvalho quem contou aos jornalistas, logo depois, o que havia dito, já sabedor de que poderá ser punido pelo ato.

Mas, ainda que precise esfriar a cabeça e evitar atos intempestivos (afinal, agora ele é o presidente e não mais somente um torcedor), Bruno de Carvalho tem muitos méritos na reconstrução do Sporting. Herdou um clube com enormes dificuldades financeiras e vem, ao que parece, sanando-as aos poucos – chegou até a ordenar a diminuição do tempo de uso das torneiras e do ar-condicionado, para gerar economia. No campo esportivo, apostou na experiência do técnico Leonardo Jardim e num elenco jovem, porém competitivo – e que está dando resultado.

Basta lembrar que a pior colocação obtida no campeonato nacional de 2013/14 foi um terceiro lugar, ao final da quinta jornada. E que o time nunca ficou duas partidas seguidas sem vencer. Como o jogo passado terminou empatado, esta última estatística pode servir de bom presságio para o clássico contra o Porto, neste domingo (29), pela Taça da Liga.

Ainda é cedo para dizer que o Sporting é candidato ao título português, embora pareça certo que o time seguirá brigando por uma vaga na Liga dos Campeões, que é seu objetivo desde o início. Mas, ainda que a cobiçada taça não venha, a consistência apresentada nesta primeira metade da temporada deve ser motivo de comemoração pelos torcedores, que certamente passaram o Natal bem mais felizes.