Luis Suárez se tornou jogador do Barcelona pelos próximos cinco anos (Foto: divulgação)

Suárez é mais um indício que o Barcelona do tiki-taka parece cada vez mais distante

Um ataque de respeito. Ao menos no papel. Luis Suárez, de 27 anos, foi anunciado como novo jogador do Barcelona, em um contrato de cinco temporadas. Uma contratação caríssima – se fala em € 81 milhões no valor da transferência, não confirmado pelos clubes – e que chega com status de um craque, mas que pode estrear só no final de outubro, por causa da punição que a Fifa impôs a ele e que já discutimos aqui. O time do toque de bola contrata mais um jogador individualista, como é Neymar, e como é também Messi. Um ataque de fominhas, que pode mudar o estilo da equipe e precisará adaptar o seu jogo.

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Suárez fez a sua melhor temporada pelo Liverpool em 2013/14. Em 33 jogos, marcou 31 gols, além de ter feito 12 assistências. É um jogador que sabe passar a bola e atua de diversas formas diferentes. Pode ser a referência, como vinha sendo no Liverpool e pode atuar como um segundo atacante, uma função que exerceu em muitos casos com Daniel Sturridge no próprio Liverpool. Como ponta ele não rende tanto, o que pode gerar necessidade de adaptação no time, que se acostumou a ter dois jogadores abertos. Mas, por outro lado, muitas vezes o time atuou com Cesc Fàbregas ou Andrés Iniesta aberto pelos lados, que não são exatamente pontas, e acabavam compondo mais o meio-campo.

Uma boa questão sobre essa contratação foi a levantada por Marcelo Bechler no seu blog no site da Rádio Globo: Suárez pode ser um novo Ibrahimovic. O comentarista acredita que o jogador, muito individualista, pode criar um problema no estilo de jogo do clube catalão, tão acostumado a jogar por Messi. Esse foi um problema também imaginado com a contratação de Neymar, mas o brasileiro ainda é um jogador menos definidor de jogadas que Suárez. Ele não terá o time trabalhando por ele, e sim um time uqe precisa do trabalho dele por Messi. Ou, ao menos, é assim que o Barcelona tem feito: todos jogam para que Messi seja o ponto focal do time.

O Barcelona é um time essencialmente de passes curtos. São, em média, 606 passes desse tipo por partida, ou 88% do total de passes do time por partida. As bolas longas, em média 57 por partida, representam só 8% do total do time em cada jogo. Cruzamentos representam 3% do total, enquanto bolas em profundidade só 1%. Suárez não é conhecido como um jogador de passes. Messi, que é o finalizador do Barcelona, tem média de 45,3 passes por partida, enquanto Suárez tem média de 38,3 passes por jogo. A média de acerto de passes de Messi é 85%, enquanto Suárez tem média de acerto de 74,8%. Ninguém tem média tão baixa de acerto de passe no Barcelona. Alex Sánchez, que deixou o time, era um dos que tinha menor índice, com 79,7%. Neymar, que deve ser companheiro de ataque de Suárez, tem média de acerto de 84,4%.

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É claro que isso não quer dizer muito, até porque o estilo de jogo do Liverpool é diferente do Barcelona. Em um time que passa mais a bola e quase sempre com passes curtos, é natural que o jogador tenha média de passes maior e, assim, índice de acerto maior. Nas estatísticas de Suárez, também há dados que podem ajudá-lo. Ele tem 2,6 passes-chave por jogo, aqueles que criam situações de gols, média ligeiramente maior que de Messi, que tem 2,4. Messi fez 11 assistências, Suárez fez 12. Suárez é um jogador inteligente, que sabe passar a bola, embora ele goste mais de finalizar as jogadas. Isso o número de chutes por jogo de Suárez é de 5,5, enquanto Messi tem 5,2. A questão é que os outros jogadores do Barcelona tem um número médio de chute a gol bastante inferior a esse. Neymar, o segundo maior finalizador do Barcelona, chuta 2,6 vezes em média por jogo. Pedro, o terceiro, 1,9, mesmo número de Alex Sánchez. Suárez consegue adaptar o seu jogo para finalizar menos e passar mais, especialmente para Messi? Teremos que ver como funcionará isso.

Neymar fez uma temporada razoavelmente boa, especialmente pensando que é a sua primeira no futebol europeu e em um estilo de jogo bem diferente do que ele estava acostumado. Agora, o time terá um ataque formado por fominhas com ele, Messi e Suárez. É possível que o Barcelona seja mais objetivo, chute mais a gol e tenha menos paciência para o seu jogo de passes. Até porque há outro aspecto: Xavi, que é quem mais dá contornos ao estilo tiki-taka, não ficará. O contratado para a posição foi Ivan Rakitic, croata que no Sevilla mostrou ser um jogador muito mais incisivo.

Estamos diante de um Barcelona que tem jogadores para ser menos tiki-taka e mais objetivo. Menos paciência e mais agressivo. Menos espanhol e mais sul-americano. Neymar, Messi e Suárez podem formar um dos ataques mais incisivos do mundo. E, por tudo isso, podemos estar diante do rascunho de um Barcelona cada vez menos Guardiola, ainda que Luis Enrique, o técnico escolhido, tenha sido formado também na base do time azul e grená, dirigindo o time B entre 2008 e 2011. Ainda é cedo para dizer, mas parece que Suárez pode ser mais um dos elementos que tornam o Barcelona um time diferente do que vimos nos últimos anos.

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