A abertura da fase de grupos da Liga dos Campeões da África, nesta sexta-feira, dificilmente poderia ser mais pesada. Al Ahly e Espérance fizeram um jogo de dez títulos na competição, além de 17 finais, em um momento no qual as expectativas de egípcios e tunisianos crescem às vésperas da Copa do Mundo. A marca maior desta temporada no torneio continental, entretanto, é a alternatividade. Basta olhar para a maneira como o mapa africano estará preenchido pelos clubes participantes, com territórios pouco reconhecidos pelo futebol.

Uma mudança essencial aconteceu na Liga dos Campeões da África de 2017, é necessário ponderar. Na ocasião, a competição aumentou sua fase de grupos, anteriormente disputada por apenas oito equipes. Agora, 16 times figuram na etapa principal do torneio. Mas se na temporada passada apenas a Etiópia estreou na fase de grupos, desta vez são cinco os países que pela primeira vez contam com um representante nesta altura do campeonato: Botsuana, Guiné, Suazilândia, Togo e Uganda. Não à toa, a diversidade é ampla. Os 16 times se dividem entre 13 nações diferentes, dentre as quais apenas Argélia, Marrocos e Tunísia possuem dois participantes.

De moral elevada após pintar na última Copa Africana de Nações, rompendo um hiato de 38 anos, Uganda aparece no Grupo A, o mesmo de Espérance e Al Ahly. Seu representante é o KCCA (abreviação de Kampala Capital City Authority), clube ligado em sua origem aos trabalhadores do setor de saneamento básico da prefeitura de Kampala. Não à toa, seu apelido bastante sugestivo é Kasasiro Boys, algo que pode ser traduzido como “lixeiros”. Ainda assim, os auriazuis possuem sua tradição, com 12 títulos nacionais. Em suas melhores campanhas na Champions, bateram duas vezes nas quartas de final, em 1978 e 1982.

Desde que a fase de grupos foi instituída na Liga dos Campeões da África, porém, nunca um clube ugandense havia chegado nesta etapa. Para ir até lá, o grande feito do KCCA aconteceu na última fase preliminar. Os Kasasiro Boys derrotaram o Saint George, clube tradicionalíssimo da Etiópia e que disputou o torneio continental na temporada passada. O autor do gol da vitória foi Muhammad Shaban, que esteve presente na Copa Africana de Nações com a sua seleção nacional.

Outra zebra no Grupo A é o Township Rollers, de Botsuana. Curiosamente, o clube também foi fundado por funcionários do departamento de serviços públicos, em 1965. Sem grande aporte financeiro, tinha o apoio de autoridades locais, até se “privatizar” nesta década. E desde os anos 1980 já tinha se colocado como a principal potência do futebol local, embora as costumeiras participações na Copa dos Campeões da África sempre tenham rendido eliminações precoces. Desta vez, superaram os sudaneses do Al-Merrikh, clube importante no cenário continental, que chegou a ser semifinalista da Champions há três anos.

Botsuana, que participou de uma mísera edição da Copa Africana de Nações em toda a sua história, eliminada na fase de grupos em 2012, agora desfruta o ápice com seus clubes. O elenco atual do Township Rollers, inclusive, conta com alguns decanos da equipe nacional, como o artilheiro Jerome Ramatlhakwane e o capitão Joel Mogorosi. A proximidade com a África do Sul é importante, com diversos atletas com passagens pela Premiership Sul-Africana, o que explica a rodagem do grupo.

No Grupo C, uma notícia bem-vinda é a reaparição de Guiné. O país já foi uma potência na Copa dos Campeões da África durante a década de 1970, quando o Hafia conquistou três títulos continentais, além de ter sido duas vezes vice. Desde então, porém, os representantes locais se tornaram meros coadjuvantes, caindo nas etapas preliminares. Até que o Horoya fizesse história neste ano. Na última fase classificatória, superaram o Génération Foot, academia senegalesa voltada à formação de talentos.

Fundado em 1975, o Horoya se estabeleceu em Conakry e logo ganhou projeção continental, conquistando a Recopa Africana em 1978. A partir de 1985, justamente com o declínio do Hafia, se tornou o maior campeão nacional, erguendo a taça 15 vezes desde então. Só que o domínio local não se refletia na Liga dos Campeões, sem nunca botar o país na fase de grupos. O problema será desafiar Wydad Casablanca e Mamelodi Sundowns nesta próxima etapa.

A mesma chave ainda conta com o Togo Port correndo por fora. Ao contrário de seus pares, o time de Lomé (ligado ao porto autônomo da cidade, como o próprio nome indica) possui parca tradição local, conquistando o Campeonato Togolês pela primeira vez apenas nesta temporada. E a participação inédita na principal competição continental rendeu bastante. Os novatos passaram por dois clubes mais tarimbados nas preliminares: os congoleses dos Léopards e os sudaneses do Al-Hilal. Neste último duelo, avançaram apenas pelo gol marcado fora de casa, em partida na qual precisaram jogar com um a menos durante 55 minutos.

Por fim, a maior surpresa talvez seja mesmo o Mbabane Swallows. A seleção da Suazilândia nunca disputou a Copa Africana de Nações, embora tenha melhorado sua posição no Ranking da Fifa nos últimos meses, chegando a ocupar um honroso 88° lugar em maio de 2017. Ainda assim, contar com um representante na Liga dos Campeões da África já é um feito e tanto ao país de 1,3 milhão de habitantes, encravado na África do Sul – obviamente, algo que nunca tinha acontecido antes com os nanicos.

Um dos clubes mais antigos do país, fundado em 1948, o Mbabane Swallows virou uma potência local principalmente nesta década, acumulando títulos na liga. Ainda assim, nunca havia superado sequer uma fase eliminatória das competições continentais que participou. Pois o momento chegou em grande estilo, com destaque para as duas vitórias sobre os zambianos do Zanaco – que esteve na fase de grupos em 2017. Vai se encontrar com o Primeiro de Agosto, clube tradicional de Angola que retorna à principal etapa do torneio após 21 anos.

É difícil imaginar que clubes de ligas incipientes irão se dar bem contra rivais estabelecidos. Porém, em um continente onde o equilíbrio costuma ser maior, é possível sonhar. O maior exemplo disso é do Ferroviário da Beira. Os moçambicanos recolocaram o país na fase de grupos em 2017, interrompendo um intervalo de 15 anos, e venderam caro a eliminação para o USM Alger nas quartas de final, registrando a melhor campanha de um representante da Moçambola – como é chamada a liga local. A oportunidade está posta a partir desta sexta.

Abaixo, um mapa com os participantes de 2018. Os títulos consideram as diferentes eras da Champions africana, enquanto as participações pegam a partir de 1997. Aproxime o mapa para diferenciar os escudos: