A Argentina vinha em uma situação delicada nas Eliminatórias, mas os céus pareceram se abrir em junho. Jorge Sampaoli assumia a Albiceleste com uma aura de salvador. E empolgou os torcedores já naquele momento, batendo o Brasil em amistoso, por mais que a goleada sobre Cingapura não servisse muito como parâmetro. O trabalho do treinador, de qualquer forma, só começaria pra valer agora em setembro. A classificação à Copa do Mundo é seu principal objetivo, e os argentinos mantinham as esperanças de que o caminho se pavimentasse rumo à Rússia. Não foi o que aconteceu. O empate no clássico com o Uruguai, no Estádio Centenário, é aceitável. Mas não o tropeço em casa contra a Venezuela, em pleno Monumental de Núñez. Correndo sérios riscos de sofrer a derrota, os albicelestes tiveram que se contentar com 1 a 1 no placar, que bota grande pressão para as duas rodadas finais da competição.

Sampaoli veio com algumas mudanças para o duelo contra a Venezuela, como as entradas de Javier Mascherano e Éver Banega, mas apostou novamente no tridente ofensivo composto por Lionel Messi, Paulo Dybala e Mauro Icardi. No entanto, se a Albiceleste encontrou dificuldades para encadear as jogadas na última quinta, contra o Uruguai, outros problemas apareceram contra um adversário que dava mais espaços. Os anfitriões pressionaram nos primeiros minutos e criaram boas chances, mas tinham não concluíam com eficiência. A principal válvula de escape era Ángel Di María, provocando um carnaval na ala esquerda. Em compensação, o goleiro Wuilker Fariñez mais uma vez aparecia bem na meta da Vinotinto. O grito da torcida seguia preso na garganta.

Foram ao menos quatro boas jogadas de Di María, inclusive uma sequência de dribles alucinante contra dois marcadores. Icardi parou por duas vezes em Fariñez, enquanto em outros dois momentos a bola cruzou a pequena área sem que ninguém completasse. E as infelicidades da Argentina na noite se evidenciariam aos 24 minutos, quando Di María sentiu lesão e precisou ser substituído, dando lugar a Marcos Acuña. Os albicelestes perderiam ímpeto a partir de então. A marcação venezuelana se acertou e os visitantes passaram menos apuros. Na melhor oportunidade antes do intervalo, já nos acréscimos, Fariñez espalmou a bomba de Messi.

Já no segundo tempo, a dor de cabeça da Argentina ganhou outros contornos. Tudo porque a Venezuela encaixou um contra-ataque perfeito logo aos cinco minutos e abriu o placar com Jhon Murillo, vencendo Sergio Romero. A sorte dos anfitriões é que o empate não demoraria a vir, graças a Acuña pela esquerda. O ala abriu um clarão na defesa adversária, chegou à linha de fundo e cruzou. Antes que Icardi aparecesse, Rolf Feltscher mandou contra o próprio patrimônio, aliviando um pouco a situação dos albicelestes. De qualquer forma, o psicológico estava em frangalhos. Faltava calma para trabalhar as jogadas.

Dybala quase virou na sequência, mas parou em Fariñez. O atacante da Juventus tentava buscar o jogo, apesar das dificuldades, mas não durou tanto tempo em campo. Sampaoli bancou Icardi e colocou Darío Benedetto para ajudar o nerazzurro dentro da área. Não adiantou muito, quando a falta de clareza na armação era um entrave. Minutos depois, foi a vez de Javier Pastore substituir o próprio Icardi, mas também não ajudou. Já Messi vivia uma noite muito abaixo da crítica, até voltando um pouco mais para auxiliar na cadência do time, mas sem tirar o coelho da cartola. Com o tempo sufocando as esperanças da Argentina, os lances de perigo não nasciam. Enquanto isso, a Venezuela buscava um contra-ataque que fizesse mais estrago, o que por vezes esteve próximo de acontecer. Ao final, no último suspiro dos albicelestes, Pastore arrematou, mas Fariñez terminou como o herói.

Nos últimos dois jogos, a Argentina reafirmou algumas das bases do jogo de Sampaoli, principalmente pela formação no 3-4-3 e pela postura ofensiva, pressionando a saída de bola adversária e se impondo no campo de ataque. Isso não significa, entretanto, que o trabalho tem sido satisfatório. Há dificuldades claras na construção de jogo, com os alas um tanto quanto isolados, e dependendo das jogadas individuais para que os lances aconteçam. Além disso, faltou acertar um pouco mais o pé, com a impaciência pesando contra os albicelestes – por mais que o time da casa tenha esbarrado também na noite inspirada de Fariñez, cada vez mais se colocando entre os bons goleiros da nova geração do continente. Depois de frustrar a Colômbia, agora fez seu nome na Argentina.

Graças aos concorrentes, a rodada das Eliminatórias não foi tão ruim à Argentina. O Peru passou à frente na tabela e chegou à zona de classificação direta, mas a derrota da Bolívia para o Chile manteve os argentinos na quinta colocação, com 24 pontos, indo à repescagem. Na próxima rodada, a necessidade de vitória será grande. O time de Jorge Sampaoli volta a atuar em casa, mas sem poder bobear contra os peruanos, de excelente segundo turno na competição. E, mesmo que o Equador esteja em queda livre, completar a campanha viajando até Quito não é dos compromissos mais afáveis aos argentinos. Os pontos desperdiçados nesta terça ainda podem custar muito caro.