Óscar Tabárez tem seu nome gravado no futebol de seleções. Será lembrado não apenas por ser o comandante que mais treinou uma equipe nacional ou por seu recorde de Mundiais à frente de seleção uruguaia. Vai muito além de seu projeto para reerguer a Celeste, e que permitiu resultados tão brilhantes em mais de uma década. O Maestro se eterniza pelo respeito que transmite. Pela imagem de quem parece talhado àquele ofício, de observar por todo um país, e assim conseguir levá-lo além de suas possibilidades. Poucos se prepararam tanto e souberam tão bem explorar suas possibilidades à frente de uma equipe nacional do que o veterano.

E aos 71 anos, a veneração ao Maestro é visível nas ruas do Uruguai. Com sua bengala, auxílio para contornar uma neuropatia que debilita os seus membros, Tabárez caminha lentamente. Cumprimenta a todos, dos juvenis aos funcionários da base da seleção uruguaia. É constantemente aplaudido em restaurantes. Certo dia, chegaram mesmo a atrasar a exibição de um filme no cinema, para que os presentes pudessem saudar o treinador. É a gratidão por aquilo que ele representa ao Uruguai e por aquilo que ajudou o Uruguai a representar.

Nesta semana, Tabárez concedeu uma longa entrevista ao jornal argentino La Nación. E falou sobre Copa do Mundo, sobre seu trabalho e sobre a vida. Abaixo, alguns trechos destacados:

– Ao citar um poema de Madre Teresa, sobre a velhice

Não conhecia este poema, mencionaram e eu busquei na internet. No início, é uma espécie de tratado sobre a velhice. Parece que está relacionado comigo e é muito interessante o que se diz, sobretudo quando você chega a esta idade. Mais além das limitações que eu posso ter, igualmente reflito muito sobre a vida, sobre o final, e esse poema é um canto de fé, de otimismo. Por isso é preciso seguir adiante e não se queixar. Conheci muita gente com problemas mais sérios, então eu seria um egoísta se ficasse me lamentando.

– A sensação provocada pelo reconhecimento

Timidez, sim, porque sou tímido. Ultimamente, isso tem me levado a não frequentar os lugares públicos. Inclusive, pela limitação que tenho no caminhar, tomo muito cuidado com o tipo de escadas que existem. Assim como há gente que aceita alguém de maneira comovente, também existem aqueles que saem com coisas que não o tornam tão perfeito e admirado. Recebi muitos presente, é lindo, mas não há como desvirtuar a realidade. Uma vez disse que “o doce estraga os dentes” e é verdade. É lindo ganhar, reconforta o espírito como pode ser uma guloseima a uma criança, mas faz mal também. Nem tudo é positivo totalmente ou negativo totalmente, então é preciso transitar pelo meio. Trato de fazer isso. A mim, todavia, me emociona. Depois da Copa de 2010, recebi muitas cartas, muitos e-mails, e a maioria era de gente jovem, de mulheres.

– As críticas de praxe na imprensa

Eu escutei jornalistas argentinos de grande importância dizerem que os seus jogadores vêm roubar o dinheiro, que não botam o mesmo que em seus clubes, que a seleção não importa a eles, que vêm obrigados, que deveriam jogar os que têm fome. As mesmas palavras haviam sido ditas aqui. E não é assim. É mais uma reação popular que uma opinião para avaliar um projeto de trabalho de longo prazo. E isso não está bem: se não saírem disso, vão estar dormindo com o inimigo. E se falo disso, é porque já vivi. Aqui questionaram Muslera, Lugano, Cavani, Suárez também… Mas felizmente há tempos que não ocorre no Uruguai.

– A posição de Messi na história

Messi completou uma época no futebol, não precisa ganhar a Copa. Converteu 54 gols no ano e digo: não se tem dimensão do que é isso? Mas quais recordes vai bater! Não é um jogador que fala muito de si mesmo, que apareça nos meios, mas tem sua personalidade bem definida, sua maneira de ser. Correu riscos a Argentina quando Messi foi suspenso e recuperaram as possibilidades ao diminuir a suspensão. Na última partida, em Quito, resolveu tudo com muita vontade. Para mim, não teria que dar provas, não concordo com os que dizem que falta alguma coisa para ser um consagrado.

– Os favoritos ao título mundial

Brasil, Espanha, Alemanha, França. E Bélgica, para mim. Eles têm jogadores em plena etapa de crescimento e em clubes de grandes ligas. Você me fala de De Bruyne, Hazard, Lukaku, Nainggolan… É certo que esse é um esporte coletivo, mas o principal argumento de desequilíbrio é a capacidade individual dos jogadores. Eu não gosto muito de falar de favoritismos, mas há equipes que apenas com sua história impõem respeito. Aconteceria com a Itália, se tivesse se classificado.

– Os significados dos recordes

São marcas, evocam o tempo que passou. Isso tem a ver com o que a pessoa fez. Na Rússia, compartilharei com Löw a marca de chegar ao terceiro Mundial consecutivo. E essa vez conseguimos sem repescagem, olhe, ficamos no segundo lugar. Ou seja, fomos os melhores depois do Brasil, que sobrou quando Tite assumiu. Eu vou tranquilo à Rússia, fundamentalmente por estar à altura das circunstâncias, mas não tenho tanta certeza porque ainda faltam seis meses, e em seis meses podem passar coisas na vida de cada um. Se chega o momento e vejo algo que me impede de seguir, seria o primeiro a assumir. Mas estou animado com a ideia de fazer um grande Mundial na Rússia.