Há uma semana o racismo no futebol teve um de seus episódios de maior repercussão. Daniel Alves comeu a banana atirada por um torcedor, desmoralizou o ato racista. Mas não podia parar por aí. E não parou. O agressor foi banido do estádio do Villarreal pelo resto da vida e indiciado judicialmente pela justiça espanhola. Não impediu que outro ato de imbecilidade e discriminação contra um negro se repetisse durante um jogo de La Liga.

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A cena lamentável aconteceu nos minutos finais da partida entre Levante e Atlético de Madrid. Papakouli foi cobrar um escanteio, quando a torcida madrilena presente nas arquibancadas em Valência começou a imitar o som de macacos. A resposta do senegalês foi similar à de Dani Alves, provocando os racistas: dançou na frente dos colchoneros, comemorando a vitória de seu time por 2 a 0. Alguns jogadores do Atleti entenderam a atitude como uma forma de menosprezo, como Diego Godín, que quis tirar satisfação. Entretanto, Diego Costa e Diego Simeone entenderam a gravidade do que acontecia e tentaram acalmar Diop, assim como pediram silêncio à torcida.

“Para responder à altura, comecei a dançar. Não tenho nada contra a torcida do Atlético, porque só uma parte que gritou. É uma falta de respeito que se produz em todos os estádios. É uma provocação. Não sei se pode se chamar de racismo, mas é preciso acabar já com esse tipo de atitude ofensiva, esses gritos de macaco”, disse Diop, na saída do campo. Talvez a cabeça quente lhe tenha deixado em dúvida sobre o que é, sim, racismo.

Ninguém é macaco. Os únicos irracionais nessa história toda são aqueles que perpetuam o racismo. A questão não é julgar como o agredido responde a discriminação dentro de campo. Isso é menor diante da forma como os agressores precisam ser responsabilizados por suas atitudes, serem punidos pelos crimes que cometeram. Discutir apenas como Daniel Alves e Diop agiram tira o foco do que realmente deve ser pensado, a forma como uma questão tão profunda deve ser combatida.

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Não é comendo a banana ou dançando que “os racistas dos estádios escorregarão na casca e o preconceito quebrará a cara – talvez para sempre”, como afirmou a capa da revista Veja desta semana. Muito pelo contrário. Desmoralizar a ofensa pode ser uma ótima resposta de momento, mas não é o fim. Afinal, as duríssimas sanções contra o torcedor do Villarreal ou aos diversos casos de racismo registrados no futebol não o fizeram ser erradicado dos estádios. É valido ignorar o racista de imediato, mas não as suas consequências – a denúncia e as punições, tanto desportivas quanto criminais.

A idiotice demonstrada por esses torcedores do Atlético reforça essa sensação. Eles esqueceram-se da ironia de Daniel Alves e dos desdobramentos ao racista do Villarreal. Não pensaram na humilhação que poderiam passar, nem sequer nas punições. Os agressores só se lembrarão da gravidade do racismo quando eles mesmos sofrerem na pele: banidos dos estádios, multados ou presos. Se apenas a conscientização não é mais eficaz nesses casos, é preciso combater o racismo de maneira contundente – ainda assim, tendo em mente que provavelmente nunca possamos dizer que o fim do preconceito “talvez seja para sempre”.

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